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3. BANKMARKEDET I NORGE OG USA

3.2 B ANKENS BALANSE

A caricatura explora o desenho de traços exagerados da personalidade retratada, agregando características (ação) que vão do simples chiste ou infantilização à ironia de determinada situação. No âmbito da política, a depreciação é inevitavelmente travestida por uma natureza crítica. Muitas vezes, esse recurso acompanha matérias ou editoriais em que o texto procura manter-se dentro de responsáveis padrões éticos da informação; nestes casos, a ilustração utiliza a prerrogativa de liberdade de expressão da comicidade para provocar a depreciação do retratado, não raras vezes interferindo diretamente na isenção do texto e contaminando a leitura com certos valores que acabam sendo incorporados ao conjunto texto-imagem.

De certa forma, algumas publicações deixam o “jogo sujo” para as imagens, pois elas costumam escapar do controle das informações presentes no texto escrito, fato que costuma não deixar margem para a proteção do retratado contra prejuízos à sua reputação, danos morais, etc. Tal prerrogativa de liberdade certamente tem herança nos períodos de censura do material jornalístico, quando a charge era uma das armas contra governos opressivos, embora a caricatura e as charges políticas ou de costumes sejam quase tão antigas no Brasil quanto a própria imprensa.

No emprego de charges e caricaturas, a revista Veja também se destacou fortemente, explorando muito mais esses recursos em comparação à Istoé. A abordagem oscilou entre a predominância de imagens em referência a Dilma e Lula, evidenciando uma incorporação de valores negativa, e um comportamento padrão na cobertura jornalística de política em geral, onde as caricaturas são opções constantes em gráficos, principalmente nos que acompanham as pesquisas de intenção de votos, ou em matérias cujo tema é a corrida eleitoral (disputa em curso). Nesses casos, como o tratamento caricatural é o mesmo para todos os candidatos, não há favorecimento ou desfavorecimento a nenhum deles. Já quando a caricatura é de apenas um ou outro candidato, é preciso analisar todo o contexto.

Quando a caricatura é chargeada, ou seja, coloca os candidatos em alguma ação ou situação mais narrativa em relação ao tema abordado (caricatura chargeada ou charge caricatural), a possibilidade de interferência na leitura do material jornalístico aumenta ainda mais.

Apenas um exemplo de caricatura em Istoé e um exemplo de charge caricatural em Veja com tratamento semelhante a todos os candidatos foram observados, disponíveis nas figuras 25 e 26 (p. 66), o que evidencia a tendência no emprego de charges e caricaturas com a intenção de atribuir valores negativos, embora a revista Veja também tenha oferecido tratamento semelhante aos candidatos Dilma e Serra em caricaturas publicadas em edições diferentes (figuras 27 e 28, disponíveis na p. 66), o que, no caso, acabou resultando em neutralidade na intenção – se as edições forem observadas em conjunto. Nesse conjunto de imagens (figuras 25, 26, 27 e 28), é possível observar, entretanto, que o esboço da fisionomia dos candidatos nas caricaturas não mantém o mesmo padrão: enquanto Dilma Rousseff e Marina Silva aparecem em expressões positivas, sorridentes, José Serra é retratado de modo mais sério e sisudo, possivelmente por aparecer mais em fotografias da mídia desta forma, já que a caricatura geralmente busca explorar expressões faciais mais usuais do retratado; o que, portanto, não acaba necessariamente interferindo no valor do tratamento empregado nesses casos.

Duas charges caricaturais (p. 67) também aparecem em Veja após a definição da eleição, imediatamente depois, em 03 de novembro de 2010 (figura 29), e na última edição do ano, de 29 de dezembro de 2010, (figura 30). Na primeira (figura 29), que traz a faixa presidencial pintada ao corpo de Lula,

Figura 26. Veja (18 ago. 2010), capa

reforça-se a ideia de que o ex-presidente continuará influenciando as decisões de Dilma, especulação também verificada na figura 30, capa que ilustra o “ano que Lula não queria ver terminar”, na qual ele aparece em charge caricatural segurando o ponteiro do relógio que divide os anos de 2010 (lado esquerdo) e 2011 (lado direito), sendo que, do lado direito, também é utilizada uma fotografia em que Dilma aparece apática, “à espera do desafio”.

Outras duas charges caricaturais que evidenciam intenções editoriais distintas em Istoé e Veja podem ser observadas nas figuras 31 e 32 (disponíveis na p. 68), em referência às obras e inaugurações do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que previa investimentos no setor de infraestrutura durante o segundo mandato de Lula, entre 2007 e 2010. Na primeira (figura 31), Istoé traz Lula, acompanhado de Dilma, “na estrada”, como diz a legenda, promovendo as “inaugurações programadas até março”, em janeiro de 2010. Já a charge caricatural de Veja (figura 32), traz somente Dilma “pilotando” as obras, com alusão negativa ao programa, como evidencia a manchete “O PAC empacou”, acompanhada da linha fina “O próprio governo reconhece que o PAC está longe de atingir seus objetivos ambiciosos. Um

eventual fracasso no programa pode tornar mais acidentado o caminho de Dilma Rousseff rumo ao Planalto em 2010” e da legenda “Nesse ritmo, só em 2019”, em edição de janeiro de 2009.

Figura 31. Istoé (27 jan. 2010)

Outra charge caricatural de Dilma e Lula aparece ainda em Veja em junho de 2010 (figura 33), na matéria “O craque de 2010”, em alusão à Copa do Mundo de Futebol, onde Lula aparece “alavancando a carreira de Dilma à liderança”; “jogando” para eleger sua sucessora – “isso se não aparecer uma zebra até lá”, como inclui a linha fina.

Por vezes, a charge não recorre à caricatura, mas à aplicação de recortes fotográficos (fotomontagens), sobretudo das cabeças dos candidatos em corpos desenhados em proporções menores; poupa-se a fisionomia, mas infantiliza-se o conjunto, como nas figuras 34 e 35 (disponíveis na p. 70), nas quais Veja enfatiza a polarização entre PT e PSDB na disputa eleitoral. Na primeira (figura 34), Marina Silva aparece atrás nas pesquisas, ocupando a fita amarela da faixa presidencial, enquanto Lula e Dilma aparecem empatados nas fitas verdes, em alusão às cores do consagrado código triádico de trânsito. Já na segunda fotomontagem (figura 35), a candidata do PV sequer aparece quando o contexto é a variação na intenção de votos a Dilma e Serra, na matéria “A gangorra dos números”, que sugere que o candidato José Serra

estaria na frente na soma de intenções de votos, embora os dados variassem muito segundo os diferentes institutos de pesquisa.

Figura 34. Veja (16 jun. 2010), capa

A predileção no emprego de fotomontagens em alusão à Dilma e Lula na revista Veja pode ser verificada ainda em outras três matérias publicadas durante o período analisado, todas com intenções depreciativas à candidata e ao então presidente. Na primeira (figura 36), intitulada “Reforço no caixa do PAC”, é Dilma quem aparece empurrando um carrinho de mão lotado de dinheiro para investir nas obras do programa, ao lado da linha fina “Investir os recursos do FGTS em obras de infraestrutura deverá ser uma boa opção para ampliar a poupança dos trabalhadores – e levantar até 5 bilhões de reais, que financiarão projetos do governo”.

Na segunda matéria (figura 37, p. 72), intitulada “A reconstrução da ministra”, o recurso da fotomontagem é utilizado para transformar Dilma em uma “boneca de papel”, acompanhada de um retrato de Lula como “fotógrafo de moda”, em alusão à moldagem do “novo perfil de Dilma Rousseff a ser apresentado aos eleitores”, como evidencia a linha fina da matéria e a legenda das ilustrações, “À imagem do chefe”. Já a matéria “A ética dos incomuns”, que trata da punição pelo Supremo Tribunal Federal ao uso de caixa dois em

campanhas, traz uma fotomontagem (figura 38) onde Dilma e Lula aparecem em meio a outros políticos como “oráculos que fingem não ter entendido o recado da Justiça”, como evidencia a linha fina, sendo que, na imagem, Dilma é retratada como a “inveja” e Lula aparece ao centro do círculo dos “Pecados Capitais”, como descreve a legenda.

Figura 37. Veja (04 nov. 2009)

A ilustração também foi um recurso bastante utilizado pela revista Veja, principalmente nas capas, para incorporar valores negativos às informações, como na figura 39, na qual o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) é retratado como uma cobra durante a fase em que se começou a especular uma aproximação do então presidente do PMDB, Michel Temer (tratado como “ex-serrista”), com Lula e o PT, o que indicava um possível apoio à candidatura de Dilma.

Em outras quatro capas de Veja (figuras 40, 41, 42 e 43 – disponíveis na p. 74), o PT é retratado por meio de animais e “monstros”. Primeiramente, como um polvo vermelho (alusão a Lula, povo brasileiro e PT, nas figuras 40, 41 e 428), sempre vinculando a candidatura de Dilma a denúncias e escândalos paralelos, como a acusação de quebra do sigilo fiscal da filha de José Serra (o monstro petista que se instaura como ameaça ao país em prol de benefícios partidários) e a denúncia do filho de Erenice Guerra, então ministra-chefe da Casa Civil (citada como braço direito de Dilma), e, na figura 43, como o

8 Publicadas em edições sucessivas, nos dias 08, 15 e 22 de setembro de 2010.

monstro do radicalismo que Dilma não conseguirá domar, trazendo de volta a censura à imprensa.

Figura 40. Veja (08 set. 2010), capa Figura 41. Veja (15 set. 2010), capa

Ainda abordando a censura como temática, a estrela vermelha, símbolo do PT, também foi utilizada por Veja na capa disponível na figura 44, em ilustração onde aparece “rasgando” o direito de liberdade de imprensa assegurado pela Constituição, acompanhada da chamada “A liberdade sob ataque: a revelação de evidências irrefutáveis de corrupção no Palácio do Planalto renova no presidente Lula e no seu partido o ódio à imprensa livre”. Outra capa de Veja (figura 45) traz ainda a estrela do PT multiplicada, com o número 13 do partido rasurado e substituído por “12%”, em alusão às denúncias de cobrança de comissão pelo tesoureiro do PT, João Vaccari, novamente vinculando especulações paralelas à candidatura de Dilma.

Com base nas observações e exemplos relatados, é possível verificar que, nas edições analisadas durante o período selecionado, nota-se uma maior propensão de Veja no uso de charges, caricaturas, fotomontagens e ilustrações em relação à candidata Dilma Rousseff (e consequentemente a Lula e ao PT) do que a José Serra e ao PSDB, ou a Marina Silva e o PV. Esse padrão verificado, além de reforçar os resultados em relação à análise do emprego cromático (disponível no próximo tópico), é um dos indicativos de preferência

por determinado candidato que são evidenciados na análise do jornalismo visual9.