5 SPØRSMÅLET OM LOVFESTING
5.4 Avsluttende bemerkninger
As informações quantitativas ou demográficas devem ser analisadas em complemento a outras formas de análise. Levantei anteriormente os fatores propulsores da imigração tirolesa para o Brasil, que também podem ser abordados por um enfoque macroeconômico. Segundo uma dessas abordagens, que tem como base a teoria marxista, a imigração é tida como um serviço ao próprio capital, uma vez que toda imigração tem por base uma motivação laboral, ou seja, o imigrante sai de seu território e se dirige a outro território basicamente para trabalhar, em busca de trabalho, melhores condições de vida e de remuneração, ou por falta de
trabalho no território de origem (SAYAD,1998,p.46).
Essa ideia de Sayad pode ser acolhida dentro da presente análise, uma vez que a imigração tirolesa, como assinalado, tinha como fator marcante a falta de condições econômicas de sobrevivência para os imigrantes em seu território de origem. Por esse motivo, apoio-me em abordagens macroeconômicas como um dos pilares explicativos da imigração tirolesa.
Nos relatos colhidos, o fator econômico permeia o imaginário coletivo sobre a imigração em Santa Olímpia, mesmo passadas algumas gerações. É o que pode-se ver neste trecho de entrevista:
José Estevan Forti
Além das razões econômicas, as causas da imigração podem ser melhor compreendidas ao se conhecerem as condições sociais, políticas e econômicas do território de origem, no período da saída dos grupos imigrantes, bem como as condições do país receptor. Para tanto, discorrerei brevemente sobre a formação política do Tirol antes de 1900, visto que o principal período de imigração dos tiroleses ocorreu entre as décadas de setenta e oitenta.
A Europa enfrentou uma grande crise econômica na segunda metade do século XIX. Ao lado disso, as guerras de conquista de território, a dominação dos grandes impérios e as lutas separatistas haviam enfraquecido politicamente diversas nações europeias desde o início desse mesmo século. As crises econômicas e políticas desencadearam uma grave crise social, em especial, no que diz respeito à falta de trabalho para os camponeses.
Nesse período, todo o Tirol, composto pelo Nordtirol e Osttirol (hoje na Áustria), Südtirol – Alto Ádige (hoje Província Autônoma de Bolzano, Itália) e pelo Trentino (ou Welschtirol – Tirolo Italiano, atual Província Autônoma de Trento), estava sob o domínio da Áustria.
As guerras de reunificação italiana intensificaram-se no século XIX, em especial contra o então imperador austríaco, que mantinha inúmeras cidades sob seu domínio, buscando maior facilidade de acesso aos mares. Em 1867, é instituído o Império Austro-
Pelo que a gente houve nos relatos dos mais idosos, o motivo de eles terem vindo pra cá, pro Brasil, é a dificuldade que eles estavam passando lá, em termos de, tava tendo um desemprego muito grande em função da guerra, da guerra mundial, e ao mesmo tempo o governo brasileiro dava, tava dando muito incentivo para que imigrantes viessem trabalhar na lavoura, na cultura do café, né. Então foi uma oportunidade que apareceu pra eles e eles, com certeza, sem nenhuma ideia do que iam encontrar aqui, do que era o Brasil, mas arriscaram né. Quando a gente tá numa situação difícil, a gente arrisca pra melhorar.
Húngaro, sendo o Tirol a região fronteiriça, palco de grandes disputas pela dominação, entre Itália, Áustria e Alemanha (LEOPOLDINO, 2009, p.54).
Enfraquecida pela dominação napoleônica, desde 1850, a região tentava se reerguer da grave crise em que estava imersa. A baixa qualificação dos camponeses e a falta de perfil para atuar nas novas indústrias que surgiam impossibilitavam a ascensão social camponesa. Os camponeses, que trabalhavam no sistema de agricultura familiar, não possuíam qualificação para o trabalho industrial e não foram englobados por esse novo mercado industrial. Os problemas agrícolas, as pragas nas plantações, a falta de tecnologia e a divisão injusta de terras aprofundaram ainda mais a crise, levando à fome e mortalidade de famílias inteiras, em especial os mais idosos e as crianças. (LEOPOLDINO, 2009, p. 63).
Nesse contexto, as companhias de imigração lançaram campanhas de prosperidade no Novo Mundo – o Continente Americano - criando expectativa e grande esperança entre as famílias assoladas pela crise. A partir da década 1860, acentuando-se em 1875, os tiroleses começaram a emigrar de suas terras em busca de trabalho e melhores condições de vida (LEOPOLDINO, 2009, p.66).
Os dados demonstram que muitos trentinos deixaram seu território de origem:
Segundo a estatística da imigração americana de Lourenzo Guetti, nos anos de 1870 a 1886, quase vinte e quatro mil trentinos imigraram para o Continente Americano. Representava cerca de 7% da população total, mas a porcentagem aumenta se levarmos em conta os imigrantes da Oceania e aqueles que peregrinavam por toda a Europa, em busca de uma nova residência definitiva. Em poucos anos, 20 a 30% da população emigrou em busca de emprego e de alimento.
GROSSELI, 1987, p.63, apud LEME, 2001, p.50. Os tiroleses que vieram para Santa Olímpia eram austríacos (pertenciam naquele momento ao Império Austro-Húngaro – região de Trento), porém com língua italiana, pois o dialeto trentino era influenciado fortemente por este (LEOPOLDINO, 2009, p.70).
A emigração, ou seja, a saída do território de origem, também foi carregada de dificuldades políticas, uma vez que o Império Austro-Húngaro, em diversos momentos, proibiu a saída de seus súditos do país, devido às notícias que corriam pela Europa no período de que os colonos alemães enfrentavam péssimas condições de vida em terras americanas. Trento relata o surgimento do relatório Rossi, derivado de uma ação do Comissariado Geral da Emigração (CGE) para vistoriar as condições de vida dos imigrantes, devido às inúmeras denúncias na imprensa:
Com base no relatório Rossi, a Itália promulga, com extrema solicitude... com data de 26 de março de 1902, o chamado decreto Prinetti... Esse decreto proibia a emigração subsidiada para o Brasil de grupos coletivos, a não ser com base em
contratos aprovados pelo CGE.
TRENTO,1988, p.53. Trento discute ainda o papel dos agenciadores como responsáveis pelo convencimento desses indivíduos a emigrarem:
...passando pelas aldeias nos dias de feira ou mercado, pintam o Brasil e, sobretudo, São Paulo, como o país das maravilhas, em que o ganho é assegurado e a propriedade da terra está ao alcance da mão. É contra eles que boa parte da imprensa da época dispara seus dardos, não hesitando a compará-los com os traficantes de escravos.
TRENTO, 1988, p. 29 Com relação à questão religiosa, o Tirol é lembrado pela Igreja Católica como berço da Contra Reforma. O Concílio de Trento, realizado no século XVI, ao longo de 18 anos, foi a resposta desta Igreja ao avanço do protestantismo na Europa, em especial na Inglaterra. Dessa forma, a região trentina acabou por se apegar cada vez mais à religião oficial e ao cumprimento das leis eclesiásticas. Por esse motivo, as famílias imigrantes sempre tiveram como principal obrigação o cumprimento dos deveres católicos, como afirma Zia Maria no trecho a seguir, retirado de seu testamento:
Meus defuntos e santos pais, logo que chegaram, pensaram já de introduzir na colônia o belo costume, de toda tarde, recitar a terça parte do Rosário, que todos aceitaram com grande prazer.
E em outro trecho, quando afirma:
Logo que chegamos aqui numa sala da casa da fazenda Santa Olímpia, nós introduzimos o pio costume de recitar como sempre, de tarde, o santo rosário (terço).
A religião será discutida em outro momento, mas cabe adiantar o apego à fé, que impulsionaram os imigrantes a seguirem para a nova terra, uma vez que a fé concedia certa segurança pela crença na Providência Divina, que prepararia uma vida melhor alhures.
No novo continente, os imigrantes tiroleses estabeleceram-se em diversos países, tais como Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, México, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, Canadá e Estados Unidos. Atualmente, os descendentes de trentino-tiroleses são representados mundialmente pela “Associazione Trentini nel Mondo”28, que se regionaliza a partir dos “Circoli” (Círculos Trentinos). O Brasil é o país com maior número dessas
28 Fonte: Site da Associazione Trentini nel Mondo <http://www.trentininelmondo.it/> Acesso em 13 de junho de
associações, existem 60 Círcoli espalhados em especial nos estados das regiões Sul e Sudeste, seguido da Argentina (57), Estados Unidos (21), México (11) e dos demais países, com no máximo dez cada29. Somente em Piracicaba, existem dois Círcoli Trentinos, um localizado no bairro de Santana e o de Santa Olímpia.
Questões linguísticas limitaram uma análise mais aprofundada da bibliografia sobre a história da imigração tirolesa do ponto de vista do território de origem, pois não tenho compreensão profunda da língua italiana, o que restringiu a pesquisa a fontes bibliográficas em português e inglês ou a fontes secundárias. Vale destacar, no entanto, que a região do tirolo-trentino foi uma região muito afetada por fatores político-econômico-sociais, gerando um fluxo migratório significativo na segunda metade do século XIX.
Essa análise dos fatores de expulsão, a partir do contexto do Tirol, deve ser complementada com a discussão sobre os fatores de atração do país de destino. Nesse sentido, cabe uma análise mais aprofundada para as condições do Brasil no período da imigração tirolesa.
A história do povoamento do Brasil poderia ser dividida em fases, dependendo da ótica a ser estabelecida. Para esse trabalho, essa história está dividida em alguns macroperíodos: um deles inclui a história dos povos pré-colombianos, ou seja, aqueles que habitavam o continente antes da chegada dos europeus até o final do século XV; o seguinte refere-se à colonização e dominação europeia, a partir do século XVI, que desencadeou inúmeras outras histórias; aquele momento para a qual volta-se o olhar desse trabalho, porém, é a história que se inicia com o fim da escravidão no continente e, principalmente, no Brasil, em meados do século XIX.
A partir da proibição do comércio de escravos entre continentes, em 1850, e com a baixa taxa de natalidade dos negros nos países da América, o comércio de escravos entre províncias foi o único capaz de suprir algumas necessidades para a crescente demanda da nova economia cafeeira no Brasil. Esse problema da mão de obra é, para Furtado (2007, p.179), a chave para todo o sistema econômico americano, um dos mais graves do período.
Cuba, que proibiu o tráfico negreiro em 1865, trouxe, para suprir essa escassez, entre as décadas de 1850 e 1870, grande quantidade de chineses que também foram levados ao
29 Fonte: Site da Associazione Trentini nel Mondo – página dedicada aos Circoli
Peru, para as lavouras de cana-de-açúcar, à Colômbia, para a construção de estradas de ferro, ao Chile, para as minas e posteriormente à América Central, para a construção do Canal do Panamá (SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 2009, p.181-182).
A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) identifica esse momento como a primeira fase da globalização territorial (1870-1920), em que os fluxos migratórios aumentam significativamente, ao lado da expansão do comércio e da mobilidade de capitais. Em geral, estende-se esse período de 1870 até 1930, o que se convencionou chamar de “A Grande Imigração”. A América recebeu um considerável contingente de imigrantes, em especial da Europa, a partir da década de 1870, quando as nações recém- independentes abriram suas fronteiras para a entrada de estrangeiros, devido ao fim da escravidão. É o caso de Brasil, Argentina, Canadá, Estados Unidos, entre outros, que estimularam a imigração para aumentar a mão de obra disponível e a ocupação dos territórios, a fim de garantir a expansão econômica (CEPAL, 2002, p.73).
Alguns países das Américas incentivaram a imigração de mão de obra que atenderia à necessidade dos grandes fazendeiros, mas também desenvolveram projetos de colonização agrícola, atraindo colonos suíços, alemães, galeses, italianos e outras centenas de milhares advindos da Europa. No entanto, muitos deles também se fixaram nas regiões urbanas, em especial nas capitais, como é o caso de Buenos Aires, na Argentina, e Montevidéu, no Uruguai (SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 2009, p.180).
No Brasil, por sua vez, com a grande demanda internacional por café, os imigrantes instalaram-se majoritariamente nos grandes latifúndios agrícolas pelo interior dos estados, em especial do Sul e Sudeste do país. Essa constatação confirma-se com os tiroleses de Santa Olímpia, que se instalaram primeiramente na região de Campinas e, posteriormente, em Piracicaba, ambos municípios do interior de São Paulo.
Em 1852, Senador Vergueiro, grande latifundiário do café, decidiu contratar e trazer por conta própria imigrantes alemães para sua fazenda de café no interior de São Paulo. A partir de então, com subsídios do governo para as passagens de navio, essa prática foi se expandindo até ganhar grande proporção no início da década de 1860 (FURTADO, 2007, p.184-
185).
Quando a família de Giacomo Correr e Rosa Pompermayer deixou Romagnano em 05 de dezembro de 1881, com destino à Fazenda Sete Quedas, lá já se encontrava um grupo de tiroleses provindos do mesmo município, trabalhando no cultivo do café. Segundo trecho do testamentode Maria Correr Stênico (fornecido a mim) a Zia Maria, filha dos patriarcas, que
na época da imigração tinha 16 anos, a partida da terra natal foi prestigiada por muitos habitantes da região:
Foi assim que no dia 05 de Dezembro de 1881 saímos de Romagnano, depois de ter assistido a Santa Missa e de ter recebido a Santa Comunhão, e fomos acompanhados de muitíssimas pessoas, parentes e amigos, pois os meus pais eram tidos em grande estima por quantos os conheciam. [...] Como disse saímos de Romagnano às 9 horas, tomamos o trem na estação de Mattarelo às 10 horas e chegamos a Verona, onde paramos até às 2 horas. Depois passamos por Cremona e fomos até Genova onde paramos 24 horas, e daí embarcamos no vapor Vienense Frankfurt. A viagem foi felicíssima, sem nenhum acidente. Chegamos ao Rio de Janeiro no dia 24 de tarde, véspera do Santo Natal. Ficamos 3 dias e no dia 28 saímos para chegar no dia 29 em Santos. No alto da serra tomamos café com pão, pois éramos muitos que nem passageiros (como nós, pois naquele tempo o governo austríaco não deixava os súbditos dele viajar como emigrantes, mas sim com passageiros). Ficamos em São Paulo até no dia 31 de manhã e chegamos em Campinas às 2 horas da tarde.
A chegada à Fazenda Sete Quedas foi de reencontros, pois ali havia alguns parentes que tinham imigrado para o Brasil em 1877. Como relata Zia Maria no testamento, o grupo foi bem recebido no destino:
Nós fomos levados naquela mesma tarde, de carroção, puxado de 6 burros guiados por um bom preto, na colônia Saltinho (Fazenda Sete Quedas, propriedade do Ilmo. Visconde de Indaiatuba, alma boa para com os colonos).
Em suma, os fatores de atração para o Brasil são resumidos pela grande demanda por mão de obra, enquanto os fatores de expulsão da Europa explicam-se a partir da situação de verdadeira miséria em que se encontravam os camponeses e da guerra pela disputa de território estabelecida entre Itália e Império Austro-Húngaro (TRENTO, 1988, p.30).
Essa discussão pode ser complementada com diversas outras correntes que entram no debate sobre a imigração, compondo com as teorias econômicas um mosaico teórico. No entanto, muitas das imigrações mais antigas (século XIX e início do século XX), como é o caso dos tiroleses, ainda têm como principal explicação as teorias econômicas de mão de obra como mercadoria de troca global.