Embora as mães sejam aconselhadas sobre uma multiplicidade de aspectos relacionados com os cuidados a ter com o corpo da criança, desde o vestuário até ao tratamento de doenças, a alimentação e higiene vão constituir, na primeira metade do século XX, os dois temas centrais do discurso médico dirigido às mulheres (Apple, 2006; Ferreira, 2003). Numa época em que as perturbações alimentares e as doenças infecto-contagiosas são as principais causas de mortalidade entre as crianças com menos de cinco anos, ao centrarem-se nestes temas, os médicos estão a atribuir à mãe a responsabilidade pela saúde dos seus filhos, ou seja, como refere Abugideiri (2004), a dar-lhe um papel central na prevenção da doença.
A descoberta do papel desempenhado pelos micróbios na propagação das doenças está na origem da preocupação com a higiene, quer do corpo quer dos objectos da criança, assim como com o contacto físico entre adultos e crianças, forma
privilegiada de transmissão de doenças infecto-contagiosas (Apple, 2006). Como afirma Tubiana (1995, p. 363):
Ao cabo de séculos durante os quais as pessoas se tinham protegido das doenças infecciosas com queimadores de perfumes e aromas diversos, estas práticas são postas em questão. Passa-se a perseguir o germe invisível numa água ou num leite de boa aparência (…). Os antissépticos aplicados preventivamente reduzem de um modo espectacular as mortes causadas por feridas infectadas; mas será ainda mais eficaz a imposição do asseio corporal porque uma pele suja favorece as infecções à miníma arranhadela.
As mães são, assim, aconselhadas a manter o corpo do seu filho e os seus objectos escrupulosamente limpos, de forma a preservar a sua saúde, assim como a evitar que as suas crianças sejam beijadas, conselhos que algumas mães pareciam seguir. Segundo Carmo (1993, p. 271) “Os pais perceberam depressa que era necessário cercar os filhos de uma protecção de distâncias. É a época dos babadouros dos bebés onde se lia «Não me beijes» e das medalhinhas de prata com a mesma inscrição”.
Os desenvolvimentos nas áreas da fisiologia e da nutrição vêm contribuir, por sua vez, para a atribuição de uma maior importância à alimentação na construção de um corpo saudável. Num período em que os problemas de nutrição estão associados às elevadas taxas de mortalidade e morbilidade infantis, os médicos vão indicar às mães quais as práticas que devem seguir, assim como aquelas que devem evitar, de forma a assegurar e promover a saúde dos seus filhos, sendo também avisadas das perigosas consequências que podem advir do seu não cumprimento, designadamente da possibilidade de não sobrevivência dos seus filhos (Apple, 2006; Murphy, 2003).
A alimentação vai constituir uma área privilegiada de intervenção dos médicos ao longo de todo o século XX. Com base no argumento de que cada criança é única, possuindo, por esse motivo, necessidades específicas, e consequentemente da impossibilidade de estabelecer regras universais que as mães possam seguir, os médicos reforçam a sua autoridade, afirmando que a alimentação das crianças só pode ser realizada sobre a sua supervisão (Apple, 2006).
É neste contexto que se assiste à defesa da amamentação, considerada a forma mais adequada de alimentar os bebés (Arnup, 1994; Thorley, 2003). Conhecido o seu
importante papel no combate à mortalidade infantil, designadamente nos primeiros meses de vida em que grande parte das mortes eram causadas por gastroenterites (Thulier, 2009), a defesa da amamentação transforma-se numa questão de saúde pública, fazendo parte de um conjunto de medidas mais vasto, cujo principal objectivo é a melhoria da saúde da população (Shaw, 2003).
Apesar da defesa da amamentação, os conselhos dados às mães acerca da forma como esta se deve processar dificultam a sua realização e contribuem para o seu abandono precoce. As mães são aconselhadas a friccionar os mamilos com álcool, o que promove o aparecimento de gretas e fissuras, a não amamentar durante a noite e a seguir durante o dia horários previamente estabelecidos, o que contribui para a diminuição da quantidade de leite (Thorley, 2003) e pelo surgimento daquilo que é designado pelos peritos de síndrome da insuficiência de leite (Avishai, 2007). Simultaneamente os médicos assumem uma atitude mais favorável em relação à alimentação artificial, que se torna não só mais fácil de realizar, com a introdução dos leites artificiais próprios para os bebés, como também mais segura (Avishai, 2007; Thulier, 2009).
Assiste-se, assim, a uma diminuição na prevalência da amamentação que é substituída pela alimentação artificial. Contudo, a realização de um conjunto de estudos que permitem não só analisar a composição do leite materno, mas mais importante ainda, identificar um conjunto de benefícios, quer para a mãe, quer para o bebé, associados a esta prática, coloca de novo a questão no centro das atenções. Um exemplo deste interesse renovado pelo aleitamento materno é a campanha lançada pela UNICEF e pela Organização Mundial de Saúde, nos anos 80, com o objectivo de encorajar as mulheres a amamentarem os seus bebés durante o maior tempo possível.
Esta preocupação invade também o discurso dos peritos, como afirmam Crossley (2009) e Taipas (2006), que defendem a amamentação com base no argumento de que esta é uma prática natural e económica. Os benefícios da amamentação também são salientados, não só os benefícios nutricionais, imunológicos e fisiológicos, mas também aqueles de carácter psicológico, designadamente o estabelecimento da vinculação (Lee, 2008; Saha, 2002; Thulier, 2009), o que transforma a prática da amamentação numa componente essencial da boa mãe. Como afirma Avishai (2007, p. 137):
These campaigns promote breast-feeding as a natural, medically informed, rational, and responsible parenting choice. Supporting these campaigns,
parenting books and magazines offer mothers expert advice as to why they should breastfeed (...) and how (...). The “good mother,” as she emerges from these public campaigns and expert advice, is a woman who practices exclusive breast-feeding during her infant’s first year of life.
Podemos então afirmar que inserindo-se numa preocupação mais vasta com a qualidade da população e, mais concretamente, com a percepção da prevenção como um elemento essencial na constituição de um corpo saudável, os conselhos relativos à higiene assim como à alimentação têm como principais objectivos regular os comportamentos maternos e, simultaneamente, conferir às mães a responsabilidade moral pela saúde dos seus filhos.
As preocupações com a higiene e a alimentação, que preocupam os peritos da primeira metade do século XX, são hoje substituídas, no que diz respeito à preservação do corpo da criança, pela preocupação com a segurança, exacerbada pela atenção dada pelos media aos acidentes com crianças (Brannen, 2004; Hardyment, 2008). A principal tarefa dos pais consiste, assim, em preveni-los, quer aqueles que acontecem dentro de casa, quer no seu exterior, consistindo os raptos numa das principais preocupações dos pais que, em resultado desse facto, limitam de uma forma drástica a liberdade dos seus filhos (Hardyment, 2008).
Porém, não são só os cuidados com o corpo que suscitam preocupação. A constituição de uma mente saudável, através da correcta educação das crianças, é um tema também frequentemente abordado pelos peritos, sobretudo a partir do momento em que as taxas de mortalidade infantil diminuem e, em resultado desse acontecimento, as atenções se deslocam para o desenvolvimento psicológico da criança. Como afirma Hardyment (2008) os manuais dos nossos dias centram-se mais nas questões relacionadas com o mente do que com o corpo, contrariamente ao que acontecia naqueles publicados no século XIX ou nas primeiras décadas do século XX.