O tema pessoal foi um assunto presente em todas as entrevistas, pois se trata de um importante condicionante da formulação e implementação dos planos e estratégias de TI, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo.
Os comentários dos dirigentes refletiam a problemática do tema nas unidades de TI do SISP: “falta de pessoal” (dirigente “I”), “não tem quadro próprio de servidores” (dirigente “B”), “quadro de cargos DAS pobre” (dirigente “G”), dentre outros.
Por outro lado, o entrevistado “L” disse que a quantidade de servidores é maior, comparada a outras unidades de TI em que exerceu a chefia:
Eu diria que, por um lado, o Ministério é o lugar que eu já lidei com o maior número de servidores. Pra você ter uma ideia, no órgão “X”, era eu e só eu. Não tinha mais ninguém. No órgão “Y”, eu tinha umas 8 (oito) pessoas e aqui são 15 (quinze) servidores.
A falta de pessoal afeta a capacidade de formular e implementar planos e estratégias. Tanto que a chegada dos Analistas em TI nos órgãos em 2010 minimizou os efeitos do problema, segundo o dirigente “J”:
Faltou dizer que nesse meio tempo de 2008 e 2012, entraram os Analistas em TI que ajudaram bastante o processo de trazer mais qualidade e competência pra área de TI. O quantitativo de pessoal aumentou muito. Eu te disse que no início eram duas pessoas. E de repente a gente tinha 5 (cinco) Analistas em TI cedidos pelo Ministério do Planejamento e mais 8 (oito) “gsispianos”, que a gente chama aqui.
O entrevistado “C” disse que os novos servidores possibilitaram o planejamento de TI:
Do ponto de vista de recursos humanos, a vinda dos ATI, ou seja, o concurso feito pelo [Ministério do] Planejamento, foi uma conquista. Aqueles órgãos que estavam mais preocupados em apontar para melhores práticas, tiveram um benefício. O Ministério “C”, por exemplo, foi beneficiado. […] Isso permite que a gente faça um planejamento voltado para as boas práticas da TI e podendo fazer a TI mais estável, mais eficiente, acima de qualquer coisa.
Outro relato na mesma direção foi dado pelo dirigente “D”:
Quando vieram os ATIs pra cá, eu disse: “Bom, eu tô com pelo menos minha salva- pátria, pelo menos nessa parte”. Por quê? Eu consigo fazer controle e eles atuam pra mim pra quê? Fazendo controle e planejamento. Me ajudam no planejamento. Senão era eu sozinho fazendo planejamento. Foram eles que saíram no ministério, de área em área, levantando o que precisa e tal, entendeu? Foram. E taí o resultado: o PDTI bem feitinho.
O mesmo nível de competência dos Analistas em TI, já destacado pelo entrevistado “J”, não foi percebido pelo próprio nos servidores remanejados para áreas de TI:
A qualidade dos “gsispianos” é meio questionável porque demorou muito tempo pra eles entrarem num processo de capacitação e conhecimento, de dominar pelo menos o vocabulário.
O dirigente “E1” fez uma avaliação comparativa entre os resultados dos dois conjuntos de servidores:
Os GSISP infelizmente lá não ajudaram. Os ATI foram um show. Quando começou a chegar ATI foi bom. O [Fulano], o [Sicrano], esse pessoal trabalhou direitinho. […] Mas os GSISP foram uma decepção. Os GSISP inicialmente não ajudaram em nada no planejamento. Não tinham cultura nenhuma. Para você ter ideia, teve um GSISP que ficou lá na [área de] Infraestrutura pra colocar lacre em máquina de tão ruim que o cara era.
O dirigente “L” deu mais detalhes do problema, que tem a ver com a formação profissional de alguns servidores remanejados:
O grande problema que a gente tem aqui – e você já deve ter escutado de outros CGTI – é que, se por um lado eu tenho um quantidade razoável de servidores que percebem a GSISP, servidores da casa que percebem GSISP, não necessariamente esses servidores têm perfil de TI. Então esse é um problema sério. Nós temos aqui na área um pessoa que é formada em Zootecnia e percebe GSISP, Tem uma outra que é Dentista e percebe GSISP. Quer dizer, são pessoas que, do ponto de vista de estrutura um planejamento de contratação, eles têm uma capacidade enorme, até o porque foram treinados para isso. Mas analisar criticamente a especificação técnica de um determinado equipamento, de uma determinada aquisição, não necessariamente essas pessoas têm.
Complementando a discussão sobre o perfil profissional dos servidores, o entrevistado “C” fez uma ressalva quanto às competências dos profissionais de TI relativas a esta disciplina (embora tenha elogiado o trabalho de planejamento dos Analistas em TI num depoimento anterior):
O especialista em TI nem sempre é um especialista em planejamento. E vice-versa. Num cargo desse, o cara tem que ser muito mais planejador do que técnico. Porque ele tem que ter alguma noção da tecnologia, mas técnico é o cara que tá atuando lá. Ele tem é que ter noção é de planejamento. E aí não adianta botar um especialista em TI, se ele não consegue ter formação de planejamento. Nem sempre o especialista em TI consegue ser aprovado naqueles COBIT, ITIL, etc., entendeu, que são elementos de planejamento.
Já o dirigente “G” relatou que a falta de pessoal tinha um impacto negativo na realização dos planos:
As dificuldades, elas estavam relacionadas à quantidade de ações a serem feitas e a pouca capacidade em relação a recursos humanos porque era muita coisa pra ser feita pra ficar em dia com as boas práticas.
Em seu turno, o dirigente “H” fez uma síntese do contexto de carência de pessoal, levando em conta as pressões dos órgãos de controle e a vulnerabilidade das unidades de TI:
Eu acho que uma coisa que todo gestor de TI na Administração Pública Federal se ressente hoje é da falta de pessoal. Eu me ressinto muito da falta de estrutura aqui na [unidade de TI], da falta de pessoal. […] Acho que é o fator mais vulnerável para a execução do planejamento. E que nos deixa vulnerável também com os órgãos de controle porque a cada dia que passa a legislação fica mais apertada. Os órgãos de controle com razão verificaram que TI é uma área em que se gasta muito e as vezes o
gasto não é bom, não é adequado. Então tem olhos mais atentos pra isso hoje em dia. Eu, como gestor, me sinto muito vulnerável, nesse aspecto. De querer prestar um bom serviço e as vezes não ter pessoal suficiente. Deixar de prestar um serviço de maneira mais célere para não incorrer em algum risco com relação a execução orçamentária, por exemplo. Eu acho que se resolvendo isso, a gente tá num bom caminho.
O mesmo dirigente “H” completou sua visão do problema, expondo que, apesar dos esforços da SLTI, esse ainda era um problema a ser resolvido no SISP:
Mas assim, eu acho que o ponto que ainda tem que ser resolvido é essa carência de pessoal que tem na Administração Pública Federal. Eu acho que isso foi uma decorrência daquela reforma do Estado que foi feita no governo Fernando Henrique. Ficou uma coisa um pouco mal resolvida nesse aspecto. A gente não tem uma carreira específica em TI pra Administração Pública. A gente tem hoje os ATI que ajudam bastante. A gratificação GSISP também. Mas a gente não tem pessoal, uma coisa mais estruturada. Acho que isso a gente tá construindo isso agora. A SLTI tá construindo agora. Isso é bom.
As situações acima descritas pelos gestores são semelhantes ao problema da escassez de recursos descrita por Brown e Brown (2011) e que se apresenta como um enorme desafio para os implementadores de estratégias de SI. Foi essa escassez de recursos, no período anterior a publicação da IN SLTI nº 04/2010 que levou as organizações a contratar mão-de- obra especializada de parceiros externos para apoiá-las na realização das estratégias.