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A versão de que a feijoada seria uma “comida de escravos” foi e é uma versão controvertida, embora bastante difundida124. Diferentemente dos pratos de origem

reconhecidamente africana, como a culinária baiana que utiliza o azeite de dendê, a feijoada tem sido compreendida como derivada de pratos europeus semelhantes, adaptada ao uso do feijão preto.

De qualquer modo é bastante curioso que, apesar de já fazer parte da culinária brasileira, com Getúlio Vargas a feijoada é inventada como “prato nacional”; de uma possível

121A representação da mulata será abordada no Capítulo 4, Item 4.3.2 “A doméstica e a mulata: entre a servidão e

o ícone da mulher brasileira”.

122 GONZALEZ, 1984,p.238-239.

123 Este tema será desenvolvido no Capítulo 4,Selma: sobre a servidão, o racismo e o sexismo.

124 São várias as versões sobre a origem da feijoada, mas parece hoje haver consenso entre os historiadores de

“comida de escravos” é alçada à representação simbólica da convivência e harmonia racial. Tanto assim que Getúlio justifica que, tendo conversado com folcloristas, seria possível afirmar que “a feijoada é genuinamente brasileira porque o branco do arroz é o branco da população branca, o marrom do feijão é o marrom da nossa população, o amarelo da laranja é o amarelo dos orientais, o vermelho da pimenta é o vermelho dos indígenas” (SCHWARCZ, 2012a). Perguntado na sua explanação, o que seria a couve, ainda teria acrescentado que era o verde das nossas florestas (SCHWARCZ, 2012a;SCHWARCZ 2014).

A feijoada pode ter sido originária de um hábito europeu trazido e mantido pela elite portuguesa, recriado com um produto disponível em terras brasileiras, o feijão preto, prato a que os negros escravizados não tinham acesso e muito distante do feijão ralo que lhes era oferecido. Neste caso, aqueles que foram escravizados ficavam com os restos.

Pode ter sido um prato criado com os feijões a que os negros africanos estavam habituados, com a farinha que costumavam comer, mais a laranja que algumas vezes lhes era permitida e os restos da carne nobre que a elite desprezava. Neste caso, aqueles que foram escravizados também ficavam com os restos.

Seja como “prato nacional” símbolo da harmonia racial pela conjugação de todas as cores conforme o discurso de Getúlio, seja como “prato de escravos” e mais uma prova da inclusão de marcas africanas no nosso país, o que fica novamente evidente é que o reconhecimento da contribuição dos negros e mestiços no campo da cultura, dos ritmos e dos sabores, não afetou ou modificou o campo dos direitos (ou da falta deles). O mito da harmonia racial não tem o efeito somente de esconder a convivência conflitiva e a desigualdade racial, mas de obturar as marcas de resistência e de oposição que acompanharam e acompanham essa tensão.

No que se refere à gente, à crioulada, a gente saca que a consciência faz tudo prá nossa história ser esquecida, tirada de cena. E apela prá tudo nesse sentido. Só que isso tá aí... e fala (Lélia Gonzalez, socióloga, 1980)125.

O que Lélia chama de consciência é o que se expressa como efeito do discurso dominante numa dada cultura, mediante a imposição do que fica afirmado como verdade, numa ocultação da memória. “A memória, a gente considera como o não saber que conhece,

esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção126” (GONZALEZ, 1984, p.226).

Como pensar nesse lugar das inscrições que restituem a história que não foi escrita, quando o arcabouço de possibilidades oferecidas pela cultura faz de tudo para que a história dos negros africanos no Brasil e seus descendentes seja esquecida? Podemos dizer que embora as respostas para essa questão sejam absolutamente singulares, elas partem desse repertório comum escasso de significantes que permitam sustentar as marcas dos afrodescendentes como agentes históricos com significativa autonomia de cultura e de ação.

Minha avó fala muito que sofreu, era muito triste. Ela nasceu no Ventre Livre, tinha pessoas que não eram [livres]. Ela fala que era muito triste, passavam necessidades, ficavam com o que sobrava. A discriminação continuava; aliás, continua. Você sabe que a feijoada mesmo foi inventada pelos escravos, era feita com os restos, o que sobrava da carne nobre? A feijoada, o angú... era muita fome para eles. Nessa minha religião aprendemos a valorizar cada item que tem em casa: feijão, arroz [...] tudo que for comer tem que rezar, agradecer para você comer. Isso também aprendi com minha avó, agradecer sempre pelo teto (Sônia, 2014).

A feijoada aparece no discurso de Sônia na sequência do que escutara da avó como memória da escravidão, passavam necessidades. A sua narrativa aponta que ela sabe que o presente se ancora no passado: a discriminação que existia durante o período escravista, permaneceu com a libertação e perdura nos dias de hoje.

Inicialmente nos dá a impressão de que quando Sônia nos traz a feijoada na sua fala, o faz para preencher o espaço de uma memória impedida, ou seja, lança mão de uma marca de contribuição supostamente africana estereotipada e pasteurizada pelo discurso oficial. No entanto, a escuta do que Sônia nos diz na sequência, nos mostra que não se trata de estereotipia ou alienação. Ela faz frente ao que afirma que faltou, ainda que haja um estreitamento no repertório cultural e social sobre as contribuições dos seus antepassados: faltou conhecer sua mãe que morreu cedo de tuberculose e faltou o direito à memória diante dessa perda, como faltou aos africanos escravizados serem tratados como quem pode comer mais do que os restos; faltou primeiro a liberdade e o direito a uma vida digna, mas depois continuou faltando o direito à vida digna, mesmo com a suposta liberdade.

126 Aqui claramente Lélia faz referência às proposições de Lacan: “A necessidade estrutural que é carreada por

toda expressão da verdade é justamente uma estrutura que é a mesma da ficção. A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção” (1995 [1956-1957], Sem.4, p. 259).

Nasci em 1968, minha avó em... 1909. Ela teve 12 filhos. Tem 6, 7 de criação. Família muito grande. O pai [bisavô] faleceu cedo. Tinha as pessoas que tinham que trabalhar de qualquer jeito, se não, morriam de fome, continuavam escravas. A família aonde foi trabalhar era muito boa, em Feira de Santana. Pessoas que acolheram ajudaram muito ela, conheceu meu avô, casaram. Vieram para São Paulo, ele era mestre de obras, veio em 1955, 1956 (Sônia, 2014).

O sofrimento, a perda e o que faltou não estão omitidos no discurso de Sônia, muito pelo contrário. Por outro lado, ela não fica aderida a uma posição vitimizada por conta desses acontecimentos. Por isso, entendemos que a feijoada aparece na sua fala não como uma obturação de todas essas faltas, mas como uma invenção que anuncia a sequência de outras invenções na sua narrativa, capacidade de quem não fica só cavoucando o passado, mas inventa o presente.

Sônia não interrompe sua fala diante da violência do outro: ela não nega o rebaixamento e a humilhação social que o outro tenta lhe impor, mas não fica cativa desta condição. Da história do escravismo, ela enuncia o essencial: havia discriminação e sofrimento, aos escravos ofereciam os restos e, assim, inventaram a feijoada.

“Somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar uma outra história, a inventar o presente” (GAGNEBIN, 2006, p. 57).

A feijoada da qual Sônia nos fala recupera o alimento como ato cultural e prazeroso, enfatizando a marca de humanidade naqueles que estariam sendo tratados e comparados a animais127. Na sua narrativa, Sônia tece uma delicada malha que recobre com alguma

opacidade a crueza do fato violento, fazendo um anteparo que permite sair da cena da pura humilhação e trazendo condições mínimas de subjetividade (PUJÓ, 2000, p. 5).

Para Sônia a valorização da sua feijoada feita com os restos se inscreve num Outro que não pode ser equiparado ao Outro-sócio-histórico do discurso dominante. Fosse assim, teria aparecido na sua fala como símbolo da harmonia racial, como uma das provas da presença africana num país supostamente inclusivo. Sônia preserva o sentido da sua experiência ancorada numa outra rede de reconhecimento e transmissão possível, que não a hegemônica e oficial: o valor das comidas que teriam vindo desde aqueles que foram escravizados, passado pela sua avó, e estariam incluídas na sua rede de pertença religiosa e cultural. Conforme nos

127 A comparação entre os sujeitos escravizados e os animais era bastante comum, o que fica muito evidente na

semelhança entre os anúncios de fuga de um e de outro nos jornais (VASCONCELOS, 2012). Alguns desses anúncios podem ser consultados em: <http://www.saopauloantiga.com.br/anuncios-de-escravos/>.

diz, “nessa minha religião, aprendemos a valorizar cada item” e, em seguida acrescenta “isso também aprendi com minha avó”.

A feijoada foi produzida com os restos da carne nobre, nos diz Sônia, mostrando o que considera que os africanos escravizados fizeram frente ao ato degradante de serem colocados no lugar de resto, no lugar de quem só pode receber e comer os restos. Ou, utilizando-nos das indicações de Agamben (2010), diante da tentativa de serem reduzidos a um corpo biológico – Zoé –, estes sujeitos, segundo Sônia, deixaram evidente seu corpo político – Bios.