• No results found

5   Diskusjon

5.5   Avslutning

A segunda área de intervenção ou modo de ação social educomunicativa detectada pela pesquisa perfil do NCE foi denominada “Mediação Tecnológica na Educação”, expressão que, na apresentação das hipóteses, era sucintamente definida como um conjunto que compreendia “os procedimentos e as reflexões em torno da presença e dos múltiplos usos das tecnologias da informação na educação” (SOARES: 1999a, 29). Essa predefinição, considerada isoladamente, não oferece muitos elementos para interpretação, mas chama a atenção para dois aspectos: (1) a precedência dos procedimentos em relação às reflexões e (2) o uso da expressão tecnologias da informação (e não da comunicação).

Podemos entender sem dificuldade esse enunciado preliminar, se levarmos em conta que essa delimitação provisória parte dos aspectos mais evidentes do fenômeno da MTE, que subjazem no plano da constatação.

Na primeira vez em que o conceito é retrabalhado, surge uma gama muito maior de elementos passíveis de interpretação, para compreender como o nosso objeto de estudo se enquadrava, num primeiro momento, no quadro teórico educomunicativo em construção:

“Trata-se da área que vem ganhando grande exposição devido à rápida expansão dos sistemas de educação, tanto o presencial e quanto o a distância. Sabemos que os recursos tecnológicos clássicos como o rádio e a televisão tiveram dificuldade de ser absorvidos pelo campo da educação, especialmente por seu caráter lúdico e mercantil. Tal fato foi o principal responsável pela resistência dos educadores em dialogar com as tecnologias. O computador veio abalar essa dicotomia, pois possui em si mesmo os meios de produção de que o pequeno produtor cultural - o aluno e o professor - necessitam para seu trabalho diário. Devemos lembrar que a grande maioria dos sites são produzidos e dirigidos por centros de pesquisas científicas

“(SOARES: 1999a, 30).

Tirante aspectos mencionados anteriormente em nosso texto, há que se destacar:

(a) a inclusão do rádio e televisão — que são tecnologias da comunicação, mais do que da informação — apontados como recursos tecnológicos;

(b) a constatação da dificuldade dos educadores no diálogo com essas tecnologias “clássicas”, atribuída a seu caráter lúdico (recreativo, não- sério) e mercantil (direcionado por interesses comerciais);

(c) a indicação de que o computador — tecnologia digital — representaria uma revolução tecnológica, principalmente pelo fato de subverter a lógica de produção e consumo da cultura no ambiente educacional;

(d) a equiparação do computador à Internet (a web como produção da tecnologia digital).

Essa definição ampliada de MTE da qual tratamos acrescenta ganhos inegáveis aos primeiros esforços para conceituar nosso objeto. Por outro lado, reflete também duas posições identificadas com a época em que foi emitida, as quais eram largamente aceitas, tanto na comunicação, quanto na educação:

(1) a descontinuidade evolutiva entre as tecnologias de informação/comunicação analógicas e as digitais;

(2) a indiferenciação, no âmbito das tecnologias digitais, entre a ferramenta72 comunicativa — computador — e o ambiente de interação comunicacional — a Internet.

Tais ponderações encontram eco em muitos textos clássicos de educadores que procuraram enquadrar as inovações tecnológicas a partir dos referenciais da Pedagogia.

O audiovisual libera e aumenta o campo do comportamento humano, mas como é com a informática? Esta questão liga-se diretamente ao futuro. Nos anos por vir, esta tecnologia vai realmente influir de maneira fundamental os feitos e os gestos do homem e da mulher e sua vida diária. (BABIN & KOULOMDJAM: 1983, 138)

O desenvolvimento posterior das idéias sobre MTE, ainda dentro do relatório da pesquisa básica do NCE, contrapõe diversas linhas de argumentação que, partindo da concepção de “informática na educação”, logo passam a destacar o papel do educador-

72

mediador73 — ou mais propriamente, o educomunicador — como elemento-chave para “resolver os desafios tradicionais da educação”.

Poderíamos aqui nos estender na análise detalhada e crítica das idéias iniciais sobre MTE tal como se desenvolvem no relatório da pesquisa do NCE, ao qual nos referiremos sempre que necessário. Entretanto, consideramos mais interessante, por hora, nos ater a dois pontos nevrálgicos que pautarão nossa possível contribuição74.

O primeiro deles consiste na necessidade de estabelecermos uma linha de continuidade epistemológica que integre as tecnologias digitais às tecnologias analógicas. Dito de outra forma: entendemos como necessário analisar o “impacto”75 da informática como um continuum dentro da relação comunicação-educação, contextualizando-o numa mesma abordagem que comporte os meios impressos e audiovisuais e suas derivações tecnológicas aditivas (multimídia, hipermídia).

Partimos da constatação que, no período histórico compreendido entre o advento do microcomputador até a difusão comercial da Internet (e que corresponde, grosso modo, à década 1985-1995), ocorreu uma mudança decisiva no papel da informática: ela transferiu sua finalidade principal da manipulação de dados para a troca de informações em ambiente de rede. Vale dizer: ela deslocou seu foco do paradigma informacional para o comunicacional.

Isso não significa que, para nós, a informática não deva ser considerada um objeto de estudo válido e apreciável, principalmente do ponto de vista técnico76 ou tecnológico. A posição que sustentamos é a de que esse ponto de vista não oferece a suficiência e nem a dialogicidade necessárias para entender a MTE em seu aspecto de interface social dentro dos processos educomunicativos. Assim, trataremos os processos de MTE identificados nas expressões “Informática Educativa” e “TICs” pelo viés da análise crítica.

É preciso levar em conta o referencial freireano, quando ele ressalta que

73

A idéia e a expressão foram emprestadas de DIEUZEIDE (SOARES: 1999a, 44). 74

Vide capítulo introdutório. 75

Talvez a palavra não seja a mais feliz (daí as aspas) para descrever o fenômeno a que se refere. O problema é que ela remete a um choque ou “impressão ou efeito muito fortes deixados por certa ação ou acontecimento” (HOUAISS, 2007), ou seja, somos induzidos a enxergar num momento definido aquilo que é , na verdade, processo e resultado de um processo duradouro e complexo.

76

Informática (Informatics): ciência e estudo dos métodos e modos de processamento e transmissão da

“A compreensão crítica da tecnologia, da qual a educação de que precisamos deve estar infundida, é a que vê nela uma intervenção crescentemente sofisticada no mundo a ser necessariamente submetida a crivo político e ético. Quanto maior vem sendo a importância da tecnologia hoje, tanto mais se afirma a necessidade e rigorosa vigilância ética sobre ela” (FREIRE: 2000, 102).

Enquanto tarefa prática, essa abordagem implicará na aproximação conceitual entre “Meio” e “Mídia”, o que, em nosso entendimento, é antes um resgate que uma construção.

O segundo (mas não menos importante) ponto destacado dentre as idéias constantes no relatório supracitado refere-se à importância com que enxergamos o agente do processo educomunicativo em nossa abordagem da MTE .

De fato, acreditamos que o mediador/educomunicador, mais do que qualquer outro elemento envolvido na mediação educomunicativa, é o fator decisivo para a realização da intencionalidade que esta última envolve.

Em apoio a essa convicção, escreve JACQUINOT77 (1998, 01): “O que é um educomunicador? Não é um professor especializado encarregado do curso de educação para os meios. É um professor do século XXI , que integra os diferentes meios nas suas práticas pedagógicas.”

No que tange à presente pesquisa, a centralidade do mediador será um dos pilares em que nos apoiaremos para construir nosso conceito educomunicativo de mediação. Essa é uma tarefa que envolve a identificação, a tipificação e o delineamento do perfil desse agente da mediação, o que faremos analisando seu papel no contexto dos diferentes projetos que constituem nossa amostragem (vide Introdução).

Para finalizar mais esta etapa em nossa discussão inicial, cabe apresentar o enunciado mais recente sobre o sentido da MTE, emitido, da parte do NCE, nas palavras de seu coordenador, o Prof. Dr. Ismar de Oliveira Soares:

“O capítulo mais em evidência no campo da educomunicação, neste momento, tanto nos Estados Unidos quanto na América Latina, é o que denominamos como mediação tecnológica na educação. Este campo de estudo contempla o estudo das mudanças decorrentes da incidência das inovações tecnológicas no cotidiano das pessoas e grupos sociais, assim como o uso das ferramentas da informação nos processos educativos, sejam presenciais, sejam a distância”SOARES (2002: 18).

77

Geneviève Jacquinot é professora da Universidade de Paris e Coordenadora de Comunicação do NCE-USP.

Essa definição mais recente nos parece (1) mais concisa e clara em seu enunciado, (2) mais abrangente, expandindo o foco epistemológico para além do universo escolar e (3) reiterativa na atenção dirigida para a questão educação presencial versus educação a distância. Com certeza, essa menção já contempla o interesse do NCE pelos projetos de mediação baseados em Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVAs), com os quais o Núcleo vem desenvolvendo trabalhos desde o ano de 2002.

Essa última definição, ainda que provisória, será tomada como ponto de partida para nossas proposições, que terão lugar no final do capítulo II. Apresentaremos, na seqüência, um breve resumo dos projetos educomunicativos implementados pelo NCE de 2002 até hoje.