HOMO SAPIENS, HOMO FABER, ou HOMO LUDENS?
Nestas “visões” do ser HOMO, têm-se assente os principais paradigmas da educação e em concreto da educação artística. Na origem do ensino “público”, já fora dos mosteiros, e no Renascimento com o aparecimento das Academias de Arte (herdeiras da Academia de Platão – HOMO SAPIENS), que alternaram com a aprendizagem através da prática nas associações gremiais ou nos ateliers dos grandes pintores (HOMO FABER), procurou-se elevar a Arte ao nível da Ciência, a Perspetiva e a Anatomia fizeram a sua entrada no ensino de futuros arquitetos, pintores e escultores (desde aí a formação de índole mais teórica, não deixou de acompanhar a formação dos artistas, aumentando as vertentes do conhecimento teórico- racional ao longo dos séculos e agrupando-se em disciplinas e áreas de conhecimento que se introduziram no ensino público, para todas as crianças e adolescentes). A entrada do paradigma educativo HOMO LUDENS, deve-se em parte a Fröebel e começa a ser utilizado nos jardins-de-infância. No entanto, já na antiguidade greco-romana o jogo e o teatro eram, reconhecidas formas, embora informais, de educar o povo, como vimos. Se quiséssemos voltar a uma visão humanista do conhecimento teríamos que evocar a universalidade do mesmo, agora à luz de todas as descobertas da neurociência e da ciência cognitiva e defender uma educação em que a vertente “SAPIENS”, “FABER” e “LUDENS” convivessem em harmonia.
Não presumindo, o autor deste relatório, de dominar conceitos ou atestar conhecimentos coloca-se na posição de Johan Huizinga na sua obra “Homo Ludens”,
“O leitor destas páginas não deve ter esperança de encontrar uma justificação pormenorizada de todas as palavras usadas. No exame dos problemas gerais da cultura, somos constantemente obrigados a efetuar incursões predatórias em regiões que o atacante ainda não explorou suficientemente. Estava fora de questão, para mim, preencher previamente todas as lacunas de meus conhecimentos. Tinha que escolher entre escrever agora ou nunca mais; e optei pela primeira solução.” JOHAN HUIZINGA (2000),
Existe todo um percurso académico, profissional, empírico do autor do presente relatório, no que concerne à relação das artes performativas/teatro com a vida e, a nível pedagógico, as mais-valias e resultados obtidos no percurso pedagógico dos jovens e crianças com as quais teve a oportunidade de trabalhar, que tem que ser plasmado em palavras num discurso que, pela sua natureza, implica distância crítica, método e contenção de emoções. Os muitos conceitos e constructos que a área das Artes e da Cultura se apropriam tornam o papel do investigador difícil. Tal como Huizinga nos diz - fazemos “incursões predatórias” sem explorar, de antemão, todas as lacunas do nosso conhecimento. Assim, tal como é permitido a algumas crianças, é por tentativa e erro que aprendemos. Tentativa e erro, processo que tem acompanhado as grandes descobertas do conhecimento humano – a metodologia de investigação científica, nas ciências mais “duras”, admite-o não como um mal necessário,
mas como um bem inevitável para o avanço da humanidade. Por outro lado é já senso comum que quanto mais sabemos sobre um tema, mais noção temos do que ainda nos falta saber e, por isso, qualquer investigação, qualquer descoberta, é sempre um processo em aberto na “expectativa”, também, que alguém, com outros olhos e desde outra perspetiva, descubra novos insights para o problema em estudo. É com esta humildade e conscientes de que vamos, de certeza, errar que iniciamos o nosso percurso como docentes. O processo de ação- reflexão no campo da educação admite e permite um processo de constante tentativa-erro- adequação-melhoria que deve perdurar, pois quando um profissional deixa de se auto questionar, acomoda-se e automatiza-se, perdendo algo fulcral à humanidade – a curiosidade e o desejo de se superar.
Não existe Educação sem Cultura, nem Cultura sem Educação, sendo que neste sentido, não poderemos promover uma nação desenvolvida quando as bases, as fundações, as estruturas falham. Estando estas construídas de forma sólida, consciente e devidamente estruturadas, poderão fazer face a inúmeras intempéries, e assumirem-se como um marco importante na civilização.
Quando se fala em Educação pelo Teatro/ expressão dramática, assume-se o Jogo e o Lúdico como “conceitos”, também centrais, neste trabalho de investigação e sobretudo nas atividades profissionais desenvolvidas, pelo autor deste relatório, até ao momento, no Teatro ou através do Teatro em ações educativas, incluindo a experiência na Prática de Ensino Supervisionada (PES), numa turma de 9º ano de Educação Visual e em outra do 12º ano de Desenho A, do Curso Científico de Artes Visuais, a fim de aferir as mais-valias de uma educação pelo Teatro. Neste sentido, propôs e implementou, na PES, conjuntamente com a colega, professora estagiária Andrea Vicente, as seguintes atividades curriculares e extracurriculares:
1º Inserido no plano anual de atividades, na disciplina de Educação Visual, um exercício que aglomera as unidades didáticas – Textura, Estrutura, Cor e Espaço, - onde se pretende desenvolver um trabalho prático de intervenção num espaço a definir, na escola, correlacionando os aspetos dos elementos estruturais da forma, nas unidades de estrutura, cor e espaço. O objetivo do trabalho é correlacionar as várias áreas artísticas e criar-se uma instalação, em que o autor do presente plano pretende aferir competências que visem a utilização do “corpo” num contexto de “happening” ou “performance”, para a transmissão de uma mensagem. No fundo pretende-se verificar se o recurso a “outros” meios poderá aportar outro tipo de competências, ou não, aos alunos.
2º Para a turma de 12º ano, uma proposta de atividade, simultaneamente curricular e extracurricular, para o Plano Anual de Atividades – Performance e vídeo a realizar pelos alunos, orientada pelo professor estagiário, autor deste plano, em colaboração com a colega
estagiária Andrea Vicente, para apresentar na XIX edição dos Colóquios Juvenis de Arte, este ano sob o tema – LUZ, SOMBRA, CRIAÇÃO.
Com a realização destes trabalhos, pretende-se promover as capacidades criativas por parte dos alunos, a criação de uma narrativa visual, a interligação do tema com formas várias de representação e seu grau de significado, a capacidade de síntese, promover o autoconhecimento e a autoestima, o conhecimento do meio envolvente, a resolução de problemas, a capacidade de expressão utilizando várias formas (visuais e não só), a relação entre eles e com os outros e o todo, e a pluridisciplinaridade das artes.
No campo dos conteúdos programáticos para o 12º ano, o objetivo é relacionar o campo da Visão (percepção visual) com os Materiais (o tipo de suporte e os meios atuantes), os Procedimentos (o domínio dos conceitos estruturais da comunicação visual), a Sintaxe (a forma, a cor, o espaço, o volume e o movimento), e por último, o Sentido (a visão sincrónica e diacrónica). No fundo, relacionar todo o conteúdo programático do ano letivo, num trabalho onde a “tela” - o suporte, é o espaço, e os materiais são os próprios alunos em conjunto com outro tipo de elementos, por forma a construir uma narrativa visual e plástica, coerente e transmissora de uma mensagem.