Os dados primários foram coletados mediante 97 entrevistas individuais semi- estruturadas (49 na adquirente e 48 na adquirida). A realização das entrevistas individuais seguiu, inicialmente, estrutura e roteiro (APÊNDICE 1), previamente elaborados (Selltiz et al, 1974; Kerlinger, 1980; Triviños, 1987; Richardson et al, 1989; Roesch, 1999) e que foram utilizados com a intenção de levantar os discursos de territorialidade ligados à aquisição e de assegurar a fluência da explanação do entrevistado sobre a sua trajetória e sobre as suas percepções, interpretações, vivências e reações durante o processo de aquisição; e ainda, identificar eventuais reflexos das reações territoriais sobre as atividades de integração e sobre as empresas. Cada entrevista foi precedida de prévia explanação sobre os propósitos exclusivamente acadêmicos do estudo, alertando para o fato de que não se tratava de consultoria e tampouco de estudo com objetivo de resolver problemas das empresas. Foram esclarecidas e sanadas eventuais dúvidas levantadas pelos entrevistados e enfatizada a ratificação da garantia de preservação do anonimato do indivíduo e de sigilo quanto ao conteúdo dos depoimentos, e ainda, de solicitação de autorização para gravação da entrevista para posterior transcrição. As gravações das entrevistas foram identificadas por um número seqüencial, cuja ordem final foi alterada por sorteio aleatório de números, considerando que muitos entrevistados anotavam o número que lhes era atribuído. Também as transcrições das intervenções individuais de cada um dos pesquisadores foram sorteadas e identificadas apenas
como partes "A" e "B", já que as entrevistas serão aproveitadas integralmente nas duas tesesTP 7
PT , de interesse do GGI.
Ouvidos os primeiros entrevistados, a forma de condução das entrevistas foi alterada, principalmente para evitar o "discurso pronto" (WERNECK, 2003). Percebeu-se que muitos dos indivíduos indicados por pessoas já entrevistadas, davam sinais de que haviam se “preparado” para responder às perguntas, o que incluía assuntos escolhidos e estruturados por eles. Outros demonstravam um entusiasmo fora do comum, movidos pela possibilidade de "contribuir" para a melhoria das empresas e do processo de integração. Para neutralizar o viés do entrevistado e considerando que as entrevistas estavam sendo realizadas com a presença simultânea dos dois pesquisadores que se alternavam na exploração individual das respectivas temáticas (cultura e territorialidade) e que a apresentação prévia era feita por ambos, foram abandonados os respectivos roteiros individuais previamente estruturados. E tendo em vista a complementaridade temática entre cultura e territorialidade, as perguntas passaram a ser cruzadas, misturando temas e perguntas, além de ser aprofundada a exploração de questões novas levantadas pelos entrevistados, ensejando abordagens inusitadas e enriquecedoras da aquisição, tanto em termos de cultura quanto em termos de territorialidade.
A pesquisa qualitativa tem características próprias que devem ser levadas em conta nas diversas fases. Na pesquisa social, estamos "... interessados na maneira como as pessoas espontaneamente se expressam e falam sobre o que é importante para elas e como elas pensam sobre suas ações e as dos outros" (BAUER; GASKELL, 2002, p. 21).
Perseguindo esse objetivo e com o propósito de fazer com que as pessoas falassem à vontade, com naturalidade, espontaneidade e sinceridade, antes de iniciar a entrevista era feita uma prévia apresentação da pesquisa, na qual era dito às pessoas que a entrevista não era teste de conhecimento, de memória ou de habilidades, mas sim, uma busca da experiência delas
TP
7
PT
As entrevistas servirão de base de dados para duas teses de interesse do GGI. Uma sobre cultura, conduzida por Daniel Jardim Pardini, enfoca o ”o quê” acontece no processo, enquanto esta procura pelo “como” e pelo “por
sobre um determinado fenômeno, no caso, o processo de aquisição. E mais, que a vivência de cada um é subjetiva e, sendo subjetiva, é única; por conseguinte, não se sujeita a juízos de valor, a julgamentos de certo ou errado e nem de melhor ou pior, se eventualmente comparada à de outras pessoas.
Essa preocupação se amparou no pressuposto de que as percepções parecem estar intimamente ligadas aos sentimentos. Segundo Viscott (1982), eles funcionariam como uma espécie de sexto sentido supra-ordenador, que interpreta, organiza, dirige e resume os outros cinco. De acordo com o autor, os sentimentos seriam uma forma de reação ao que as pessoas percebem e definem, fazendo com que, em grande parte, o mundo seja uma criação subjetiva de cada um. Com isso, reforça-se a idéia de que a realidade não pode ser compreendida sem levar em conta os sentimentos, como uma reação mais direta à percepção. Em oposição, o pensamento seria mais um modo indireto de enfrentar a realidade do que o sentimento. No cotejo de ambos, seriam os "sentimentos que nos dizem quando alguma coisa é dolorosa e machuca, por que os sentimentos são o machucado. O pensamento explica o machucado, justifica-o, racionaliza-o, coloca-o dentro de uma perspectiva" (p. 18). Do ponto de vista da territorialidade, foi importante notar que, permitir que os sentimentos dêem um colorido especial às percepções, pode também deformar o mundo que as pessoas percebem, especialmente quando elas se sentem vulneráveis a ele. Do ponto de vista da subjetividade tratada pelo autor, o mundo seria um quebra-cabeças que cada um monta de modo diferente, porque dentro da sua unicidade os "sentimentos são a verdade" (p. 20). Essa subjetividade perceptiva já havia sido defendida antes por Tuan (1980, p. 6), quando sugere que "duas pessoas não vêem a mesma realidade". Isso pode clarear em parte o mosaico de percepções desencontradas sobre o processo de integração nesse período de 10 anos. A mesma "realidade" (fase de pós-aquisição) foi "explicada" pelos entrevistados segundo a perspectiva
do lugar (cargo) que ocupam (na adquirente ou na adquirida) e consideram seu e das ameaças e oportunidades percebidas ao longo da trajetória integrativa das empresas.
Definidas as condições essenciais da pesquisa, foi possível introduzir critérios objetivos visando à seleção, por meio de amostra intencional, depois transformada em “bola de neve” (Kinnear; Taylor, 1979; Boudon, 1989; Malhotra, 1996, Mattar, 1998, Turato, 2003), de 97 pessoas para entrevista, distribuídas por níveis organizacionais (TAB. 2).
TABELA 2
Estratificação da amostra por nível organizacional
Níveis Adquirente Adquirida soma
U ExecutivosU U17U U26U U37U Presidentes 1 1 2 Diretor 1 1 Chefe de usina 1 1 Assessores 3 3 6 Gerentes médios 13 14 27 U Ex-executivosU U5U U7U U12U Presidentes 1 5 6 Diretores 1 1 Superintendentes 1 2 3 Aposentados 2 2 U Técnicos e operadoresU U27U U21U U48U Gerentes de 1ª linha 12 6 18 Engenheiros e técnicos não-gerentes 15 15 30 TOTAL 49 48 97 Fonte: Entrevistas
Os dados secundários foram obtidos (1) de fontes internas e externas (publicações e informativos). Também foi utilizou-se a observação-participante para registro das atividades de identificação, ingresso e saída das empresas, incluindo a “revista de segurança” dos pesquisadores; e a observação não-participante (Triviños, 1994; Batista, 1996), visando (1) à
leitura do sentido de rituais, ações, práticas e rotinas organizacionais em execuçãoTP 8
PT
, e (2) à compreensão do significado de artefatos, ritos, códigos, símbolos, signos e marcadores de território (FISCHER, 1994; DAS, 1988).