Recentemente, os modelos espaciais têm se tornado importantes ferramentas de auxílio no planejamento territorial, pois não há como desvincular o fator temporal de qualquer estratégia de ordenamento. Dessa forma, os modelos de simulação que reproduzem o padrão das mudanças no espaço podem ser considerados requisitos para o entendimento e avaliação de questões complexas do meio ambiente nas diferentes escalas espaciais (SOARES-FILHO et al., 2004).
Em vista dessa contribuição da modelagem ao planejamento urbano, foram elaborados cenários de tendência que partem da calibração alcançada para o cenário de 2005, cujos parâmetros utilizados são mantidos inalterados (Tabela 31). A única modificação procedida refere-se ao número de iterações, o qual foi extrapolado de forma a representar o uso da terra para o curto prazo (2010) e médio prazo (2014 e 2016). De acordo com Almeida (2003, p. 180),
especificamente com relação à modelagem de mudanças do uso do solo urbano, é inadequado lidar com prognósticos de longo prazo, devido a duas razões principais. Primeiro, mudanças de uso do solo de longo prazo são dificilmente previsíveis, e por esse motivo, sujeitas a erro, em razão de alterações inesperadas na esfera macroeconômica, e conseqüentemente no comportamento do uso do solo, que podem eventualmente ocorrer ao final do médio prazo e início do longo prazo. Segundo, para o planejamento urbano estratégico, apenas o curto e médio prazo são relevantes para a definição de prioridades, alocação de recursos e processos de tomada de decisão (ALMEIDA, 2003, p. 180).
Em conformidade com as razões citadas pela autora para trabalhos com modelagem, os prognósticos de uso da terra elaborados para o curto e médio prazo de Americana estão na Figura 49. A partir do cenário de curto prazo, observam-se pequenas modificações, principalmente relacionadas com a transição da classe não-urbana para residencial, as quais estariam localizadas nas proximidades da represa Salto Grande, sobretudo na porção sudoeste e leste.
Figura 49 – Simulações de tendências futuras para a dinâmica de uso da terra de Americana
Por sua vez, os dois cenários que representam o médio prazo também trazem pequenas alterações, as quais estão interligadas, em maior grau, com o aumento de áreas residenciais
em detrimento das áreas ainda não-urbanizadas. Já a classe comercial e serviços mostra tendência de crescimento com a formação de manchas predominantemente nas direções sul e leste.
A fim de verificar o comportamento do uso da terra de Americana, sob a hipótese de serem mantidas as características de transição do período de 1996-2000, excluída a transição residencial para industrial daquele período, foram elaborados três cenários para o curto prazo (Figura 50).
Figura 50 – Simulações de cenários de uso da terra de Americana para 2010 sob a hipótese de permanecerem as taxas de transição do período de 1996-2000
Cada um dos referidos cenários incluiu o percentual de transição para uma classe de 1996-2000, isto é, a Simulação 1 traz a transição de não-urbano para residencial com a taxa de 1996-2000, e as demais transições desse cenário permanecem com as taxas do período 2000-2005. Na Simulação 2 foi modificada a transição não-urbano para industrial, e na Simulação 3, modificou-se somente a transição residencial para comercial e serviços.
De modo geral, verificou-se que, ao aumentar os percentuais de transição, conforme aqueles apresentados no período de 1996-2000, as mudanças apesar de pequenas, ocorreram em todas as classes de uso e em todos os cenários simulados. Especificamente, ao se considerarem as alterações nas taxas de transição, notou-se que para a Simulação 1, a classe residencial apresentou um maior crescimento na porção sudoeste e na área central ao norte. Na Simulação 2, a transição não-urbano para industrial mostrou pequenas mudanças na área do distrito industrial e na porção noroeste, próximo ao rio Piracicaba. Já a Simulação 3 efetivou mudanças principalmente na direção sul.
Em conseqüência da recente elaboração do PDDI pela administração de Americana, optou-se pela formulação de uma nova hipótese considerando as vias arteriais existentes no município - porém não utilizadas no trabalho, em virtude de sua indisponibilidade em época oportuna - e as vias projetadas para execução a partir do novo plano diretor.
Dessa forma, a variável independente estradas (dist_roads), utilizada no modelo, foi modificada e reintroduzida, possibilitando a obtenção de três cenários futuros também para o curto prazo, sendo eles:
1° cenário: a variável estradas é acrescida das vias arteriais, somente; 2° cenário: a variável estradas é acrescida das vias projetadas, somente;
3° cenário: a variável estradas é acrescida de ambas as vias arteriais e projetadas (Figura 51).
Figura 51 – Mapa da rede viária de Americana-SP acrescido das vias arteriais e vias projetadas pelo PDDI
O primeiro cenário elaborado mostrou pequenas alterações, nas quais a classe residencial apontou mudanças de uso a leste nas margens da represa, com destaque para a possível formação de um novo núcleo urbano a nordeste. Em contrapartida, a classe industrial não se alterou e a comercial e serviços indicou modificações ínfimas (Figura 52).
No segundo cenário foram identificadas mudanças mais perceptíveis, principalmente relacionadas ao uso residencial, inclusive com a expansão do núcleo urbano situado na divisa com o município de Paulínia, no extremo leste. Houve ainda um pequeno incremento da classe industrial, e a classe comercial e serviços apresentou-se semelhante ao primeiro cenário.
Em decorrência da execução das vias projetadas por parte do plano diretor, a ocupação urbana poderá ser influenciada na porção centro-leste do município, onde predominam características do espaço rural. O terceiro cenário, no qual estão inclusas ambas as vias, foram
observadas pequenas modificações para todas as classes ou transições, de acordo com o resultado obtido quando da inserção das vias de forma individualizada, executada nos cenários anteriores.
Figura 52 – Simulações futuras para a dinâmica de uso da terra de Americana sob a hipótese de serem inseridas as vias arteriais e vias projetadas pelo PDDI (2006)
Nessa perspectiva de análise, pode-se apreender que Americana apresenta pequena tendência de crescimento urbano se considerada a permanência das características atuais, ou seja, a diminuição do ritmo de expansão urbano-industrial e populacional, conforme verificado ao longo do trabalho. Aliado a isso, é preciso destacar a restrição territorial, visto
que as áreas não-urbanizadas do município são cada vez mais reduzidas, reforçando-se a necessidade de um planejamento territorial adequado para o uso e ocupação urbanos.
A partir dos resultados alcançados por esta pesquisa, somados a todas as tentativas já efetivadas nesta área do conhecimento, pode-se perceber o potencial que vem adquirindo a modelagem de dados, principalmente como subsídio para o planejamento e o ordenamento de áreas urbanas. O estágio atual das pesquisas em modelagem espacial está permitindo a implementação de modelos com base em AC, até mesmo em SIG comerciais, como, por exemplo, o IDRISI (EASTMAN, 2003). Além disso, Almeida (2003) destaca que a facilidade de associação de dados matriciais dos SIG com modelos de AC trouxe novas ferramentas de análise e possibilidades para a modelagem espacial.