O processo desenvolvido no decorrer desta pesquisa de mestrado possibilitou a produção de conhecimento sobre como é possível, através da observação e do diálogo com os participantes de uma orquestra comunitária, adequar os arranjos musicais ao nível técnico dos/as musicistas, criando oportunidades de execuções mais adequadas, com melhor sonoridade e, consequentemente, melhor interação e motivação do grupo para tocar, ensaiar e estudar.
Considerando que a Orquestra Experimental da UFSCar tem por objetivo principal proporcionar relações humanas por meio da música, foi possível constatar a partir das falas dos próprios integrantes da orquestra que a preocupação musical precisa caminhar junto com a preocupação social. Por esse motivo que gestores (regente e diretor musical) e arranjadores se incumbem dessa tarefa de buscar a melhor sonoridade do grupo comunitário por meio de partituras que estejam adequadas não somente aos diversos níveis de conhecimento musical dos seus participantes, mas também com a sonoridade do grupo como um todo, já que este conjunto musical possui uma formação instrumental diferente de orquestras convencionais. Foi com essa tentativa de possibilitar uma melhor experiência musical às pessoas que compõem essa orquestra que o pesquisador procurou direcionar seu olhar atento e cuidadoso aos níveis musicais de seus participantes e às técnicas que melhor poderiam servir de base para a elaboração de arranjos compatíveis com esse grupo comunitário.
O encontro entre o pesquisador e essas pessoas para além da prática musical, através das rodas, possibilitou um diálogo muito rico em termos de assuntos musicais e outros assuntos cotidianos. Procurou-se trazer no corpo do texto esses tipos de relações entre os participantes durante as rodas e também as temáticas que foram aparecendo a partir das falas dos/as musicistas. Dessa maneira, relacionando o termo diálogo com outras palavras- chave, como o amor, humildade e na fé nos homens, Paulo Freire elucida que uma relação horizontal se faz, provocando um clima de confiança entre seus sujeitos. Nesse sentido, as rodas de conversa revelaram esse clima de
124 confiança e uma relação horizontal, proporcionando um diálogo saudável e enriquecedor.
A pesquisa mostrou que o diálogo de um arranjador com os/as participantes de uma orquestra comunitária específica, na busca de compreender quem são essas pessoas, que músicas elas gostam de ouvir e/ou tocar, quais as suas facilidades e/ou dificuldades técnicas musicais, ou mesmo sua adequação social no grupo, pode ser útil para o desenvolvimento de ações que complementem o trabalho de outros arranjadores, diretores musicais, coordenadores ou regentes de grupos de mesma natureza. Foi possível descrever e compreender um pouco da diversidade encontrada em grupos amadores e comunitários, tão comuns no cenário musical brasileiro. Um retrato mais geral do que foi encontrado na Orquestra Experimental da UFSCar, com musicistas de diferentes graus de conhecimento técnico, teórico, gostos musicais diversos, oriundos de vários setores sociais de uma comunidade, entre outros aspectos, se assemelha à grande maioria de grupos instrumentais amadores encontrados no país.
Joly (2007) explica que os objetivos da Orquestra Experimental extrapolam aqueles estritamente musicais e avançam em metas para estabelecer e melhorar as relações humanas entre os seus diferentes participantes através da prática musical coletiva. Assim sendo, percebe-se que é fundamental que a equipe de coordenação musical de um grupo instrumental amador, como é o caso da Orquestra Experimental, crie oportunidades de diálogos para conhecer melhor seus participantes. O conhecimento das expectativas musicais ou pessoais do grupo vai levar, evidentemente, a um desempenho musical mais adequado e de melhor qualidade, do ponto de vista educacional e humano ao qual esse grupo comunitário se propõe a alcançar com a prática musical coletiva. Os/as musicistas participantes estarão mais motivados para o trabalho, sentindo-se mais respeitados e consequentemente mais compromissados com o grupo como um todo.
Também foi possível perceber, no decorrer da pesquisa, que a criação de arranjos pode ser uma estratégia que possibilita uma maior participação dos/as musicistas em um grupo comunitário, de acordo com suas habilidades individuais, considerando que os arranjos elaborados respeitaram a diversidade do grupo, e ofereceram condições de aprendizagens musicais,
125 além de se tornar uma oportunidade de aproximações das relações sociais nesta orquestra comunitária.
É essencial retomar nesta etapa final da dissertação alguns dos resultados alcançados com essa pesquisa. Além do fato das rodas de conversa terem permitido às pessoas leitoras deste trabalho conhecer mais a fundo quem são esses musicistas, o que gostam de tocar, como aprenderam música, quais seus anseios e expectativas ao tocar nesta orquestra, quais são seus descontentamentos e propostas de melhoria na condução dos ensaios e concertos do grupo, quais suas dificuldades técnicas e sugestões de escrita dos arranjos, informações essas que se encontram nos capítulos três e quatro, foi muito interessante vivenciar a dinâmica de construção do arranjo, um momento oportuno em que as próprias pessoas do grupo tomaram as decisões necessárias para a elaboração de um arranjo para orquestra e, com a ajuda do pesquisador, resolveram de uma maneira democrática como o arranjo tomaria sua forma, que instrumentos seriam mais adequados para cada uma das partes da música; música essa que também foi escolhida por elas mesmas através de uma votação.
É importante dizer que a realização dessa intervenção se deu no intuito de atender a reivindicação das pessoas que compõem o grupo comunitário e possibilitar a elas o engajamento em um processo criativo (autonomia), que é o núcleo central daquilo que foi chamado de humanização no primeiro capítulo, ou seja, as pessoas que adquirem maior desenvolvimento são aquelas que participam de forma mais intensa no processo criativo e não aquelas que apenas reproduzem. O resultado final da composição e do arranjo se encontra nas partituras que estão inseridas no final da dissertação (Apêndices B e C).
Retomamos aqui as questões apontadas no início do trabalho: Como lidar com os diferentes níveis técnicos do grupo? Como tornar possível a contribuição de todos/as os/as musicistas na execução das peças? O grau de dificuldade dos arranjos pode interferir na autoestima dos participantes? Haveria constrangimento por parte de quem recebe uma partitura facilitada?
A partir dos resultados da pesquisa foi possível responder essas questões. No que se refere à maneira de tratar os diferentes níveis técnicos do grupo e como seria possível a contribuição de todas as pessoas na execução das peças, este trabalho primeiramente constatou e demonstrou através dos
126 dados da pesquisa que a orquestra realmente apresenta uma diversidade de conhecimento musical, técnico e teórico entre seus musicistas e que a maneira mais dialógica de tratar essa diversidade é possibilitar que o arranjo musical contemple partituras adequadas a esses níveis, desde o mais iniciante ao mais avançado, sendo que essa responsabilidade de motivar os/as musicistas é dos educadores, gestores do grupo e que antes de qualquer intervenção, é necessário que se conheça primeiramente quem são essas pessoas, as suas capacidades, dificuldades e o mais importante, que se tenha um olhar atento para essa diversidade, criando estratégias que possibilitem a aprendizagem musical de cada participante da orquestra.
Em relação aos tipos de constrangimentos que uma partitura facilitada poderia trazer ou qualquer outro tipo de interferência na autoestima dos participantes, foi possível selecionar trechos das rodas de conversa em que instrumentistas iniciantes acreditam ser essa uma estratégia útil e adequada ao nível de conhecimento técnico em que se encontram, e que ao invés de gerar constrangimento, pelo contrário, permitiria uma melhor adaptação dessas pessoas aos seus naipes e ao grupo como um todo. Da mesma forma, musicistas mais experientes apontaram nas rodas de conversa que partituras mais desafiadoras permitiriam que elas se sentissem mais motivadas em tocar na orquestra, gerando uma interferência positiva na sua autoestima.
A experiência de escrever a dissertação, juntamente com a experiência de frequentar as disciplinas de mestrado e o grupo de estudos, me permitiu despertar um gosto ainda maior pelo fazer científico, por querer pesquisar, querer conhecer. A minha relação com os saberes é mais intensa e a visão de mundo tem sido re-significada e transformada para o trabalho cotidiano.
A pesquisa evidenciou que a construção de um olhar humanizado exige disciplina e respeito a todos os seres. A experiência do mestrado me auxiliou a compreender também que a humildade e comprometimento com a pesquisa geram resultados enriquecedores para o desenvolvimento da consciência crítica, além de criar um elo prazeroso entre pesquisadores e participantes de pesquisa.
Espera-se que a divulgação da pesquisa, compartilhando tanto os aspectos musicais mais específicos, as situações de diálogo, as incorporações dos limites e potenciais dos/as musicistas, assim como suas expectativas e
127 aspirações, possa servir como base para outras pesquisas. Espera-se também que o processo dialógico descrito neste texto de mestrado possa chegar, como ações práticas, a outros grupos musicais amadores.
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