Questões de gênero, que surgiram nas entrevistas, foram agrupadas no DSC 7: “Gênero”, as relações entre o masculino e feminino, do homem e da mulher e as dinâmicas que definiriam cada um dos gêneros ou o que a expressão dos gêneros trouxe ao sujeito coletivo.
DSC 7 Gênero
Quando eu vi o homem e a mulher, quando ele coloca uma bolinha assim, que parece que está no coração da mulher, como se ela fosse mais emocional, e no homem coloca o sol e várias linhas, que é como se fosse a luz da razão. Mulher parece que é uma coisa mais emocional do que o homem, mas acho que, antes de ser homem ou mulher, é uma pessoa. A obra que eu mais gostei foi a última... trouxe tranquilidade, até a feição do... não sei se é menino ou menina, acho que não faz dimensão se é homem ou mulher, tirando a imagem da mulher. Na imagem da mulher tinha uma flor, onde seria o útero dela. Eu senti que é uma coisa meio mãe natureza, valorizar a mãe como a mãe natureza, a provedora. Valorizar a mulher como mãe. Parecia que a mulher era uma Deusa, alguma coisa muito importante para o cara.
Questões de gênero, que surgiram nas entrevistas, foram agrupadas no DSC 7: “Gênero”, as relações entre o masculino e feminino, do homem e da mulher e as dinâmicas que definiriam cada um dos gêneros ou o que a expressão dos gêneros trouxe ao sujeito coletivo.
Uma visão tradicional de gênero foi expressa inicialmente no DSC 7, como se o homem fosse mais racional e a mulher mais emocional ou que Alex Grey assim quisesse representá-los. O DSC 7 observou esta posição manifesta nas obras do Alex Grey. No entanto, no próprio DSC 7, considerou-se que, antes de sermos homens ou mulheres, somos pessoas. Esta ideia é reforçada no discurso por um entendimento de indiferenciação de gênero, com exceção da imagem da mulher. Esta visão se coaduna
com a teoria sobre anima e animus, de Jung. De acordo com Jung (1950-51/2000), cada homem possui sua contraparte inconsciente feminina, que denominou anima; cada mulher, por sua vez, possuiria uma contraparte inconsciente masculina ou animus. Tais arquétipos seriam fatores predominantes de projeção, presentes nas relações entre os sexos, compensando unilateralidades e cumprindo função de intermediários entre consciência e inconsciente (JUNG, 1950-51/2000). Esses padrões arquetípicos se manifestam de formas distintas, de acordo com sua presença cultural e a história individual de cada homem ou mulher (JUNG, 1928/2011). Mattoon e Jones (1987, p.20) entenderam que a consciência do animus pode ajudar:
[...] a mulher encontrar nela mesma as qualidades e capacidades que elas atribuem aos homens. Em uma cultura que rotula muitas qualidades “masculinas” é geralmente mais fácil para a mulher projetar estas qualidades nos homens do que reconhece-las mais próximas de si.
O entendimento das características inerentes à mulher, ou ao homem, são questões de difícil resposta, notadamente quando se entra na análise de gênero, com as discussões sobre o desenvolvimento sociocultural dos padrões do feminino, do masculino, ou de outros gêneros possíveis. Além da construção social dos papéis femininos e masculinos, a anatomia seria uma metáfora da riqueza e do potencial do “outro”, no sentido de uma contrassexualidade ou contrapsicologia que, embora não se refira a qualidades reificadas, refere-se a um encontro com a diferença (SAMUELS, 1989).
Questões de gênero também surgiram na estória contada pelo sujeito 14N: “Você tem o homem, você tem a mulher e você tem o humano”. Este humano, que todos somos, pode ser homem ou mulher, mas o que muda é a carcaça (sic). A diferença entre gêneros aqui é reduzida a uma distinção da carcaça, das diferenças anatômicas. Na estória, um casal tem um filho ou filha e o que determina os papéis de gênero é, inicialmente, o que é mostrado para a criança, o que é apresentado pelo meio. No entanto, na própria estória, considera-se que: “Essa criança vai querer ser o que ela tiver dentro dela; ela vai se manifestar do jeito que ela estiver sentindo a necessidade de se manifestar e o que ela quiser ser”. Observa-se novamente o debate, mediado pelas determinações externas e internas, para a realização humana, bem como o debate entre uma persona e adaptação social, em contraponto a uma singularidade e vontade interior.
Dentre os aspectos do gênero feminino no DSC 7, foi ressaltada a mulher, como mãe, igualmente relacionada a dimensões menos interiores e mais transpessoais como: natureza, provedora e, finalmente, entendida como Deusa. A flor, na imagem 03,
chamou a atenção ao sujeito coletivo que, para ele, representaria o útero da mulher, mas não foi fornecida uma explicação ou interpretação para esta imagem.
Na estória da participante 2I, notou-se que os personagens considerados “masculinos” e “sem gênero definido” foram entendidos como relacionados à razão e ao limite. A terceira imagem, que é feminina “já apresenta uma diferença para mim [...] a figura da imagem já remete a forma feminina”. A participante nota que a figura feminina tem uma irradiação maior do plexo solar, com traços amarelos que a fazem saltar da tela e vir em direção à pessoa: “que está imaginando, que está observando a imagem” (sic). As figuras femininas foram, em geral, compreendidas como impactantes. A indefinição de alguns personagens das obras projetadas foi mencionada, igualmente, na estória da participante 5T. Na mesma estória, o personagem masculino foi reconhecido como “bravo, mesmo tendo só razão”. A personagem feminina, embora considerada com menos “fascinalidade” (sic), apresentou, para 5T, mais serenidade e um bom estado emocional. Na estória, houve grande valorização de atitudes emocionais, como forma de produção de equilíbrio psíquico e serenidade, em contraposição à unilateralidade da razão.