Retning for videre tolkning:
7.1 Avhandlingens funn
Apesar de, em geral considerarem o atendimento que recebem no Brasil bom, especialmente quando comparado ao atendimento que recebiam anteriormente na Bolívia, onde havia poucos postos de saúde e hospitais, e tinha que se pagar pelos serviços, nossos entrevistados relataram alguns problemas para conseguir agendar
91 Isso acontecia quando o imigrante se declarava indígena, mas sua etnia não era listada na lista de etnias
consultas ou ser atendidos em emergências. Fixando a quantidade de serviços ofertados em uma quantidade menor do que a demanda, a formação de filas pode desencorajar o acesso. A entrevistada 57 passou por uma experiência negativa nos hospitais brasileiros: “sempre está cheio, pelo o que eu vi. Teve um dia que meu filho se internou porque tinha alergia no rosto, e ele ficou três dias nos corredores porque não tinha quarto. Estava cheio." (Mulher, 36 anos, de Oruro, há 12 anos no Brasil).
Este problema, no entanto, não afeta apenas nossos entrevistados, mas também os brasileiros, o que é reconhecido pelos nossos entrevistados: “Mas também para os brasileiros, aqui é muito demorado para passar no posto... eles é que dizem também.” (mulher, 30 anos, de La Paz, há 8 anos em São Paulo).
A demora em se conseguir um atendimento pode levar a comportamentos não desejáveis, como a automedicação, como no caso da entrevistada 42:
“Eu fui a um posto aqui na Vila Medeiros. Me deram uma ficha para dois meses (...) Eu estava mal. Então telefonei para a minhas irmãs que trabalhavam no hospital na Bolívia. Eu lhes disse onde tinha dor. Então elas me disseram que eu comprasse um medicamento que me faria bem. Me deram o nome do medicamento, comprei e então não fui mais ao hospital” (mulher, 47 anos, de La Paz, há 5 anos em São Paulo).
6.3 Questões ligadas à demanda
Também no caso dos imigrantes bolivianos pudemos observar as barreiras relacionadas à demanda diferenciada, ou seja, pelas características dos imigrantes. É importante observar que, conforme a literatura afirma, a dimensão do tempo e das redes sociais é fundamental para atenuar os fatores que geram essas barreiras. No caso dos bolivianos, é possível observar que o aumento do fluxo migratório e da comunidade boliviana vivendo no Brasil contribuiu para melhorar o acesso à saúde. Os estudos sobre a comunidade boliviana do final da década de 90 ainda afirmavam que os bolivianos encontravam-se “desprovidos de qualquer atendimento médico” (SILVA, 1997: 131). A entrevistada 65, do Serviço Social do Hospital Leonor Mendes de Barros (nível gerencial) e a entrevistada 62, da Associação Paulista de Medicina e Escola Paulista de Medicina - Gestora dos hospitais e postos de saúde da microregião Vila Maria e Vila Guilherme (nível gerencial) reafirmaram esse fato92. Segundo elas, o número de
92 A entrevistada 65 afirma que “Hoje elas fazem pré-natal. Mas a maioria não fazia não. Elas só vinham
para ter o bebê. Elas ficavam até o último minuto, as vezes tinham o bebê em casa e depois traziam eles para o hospital”.
consultas era menor e a condição de saúde em que chegavam para o atendimento era pior, uma vez que a ida ao hospital era realmente a última alternativa. No entanto, ambas ressaltam que hoje, como vimos na análise das entrevistas realizadas, o aumento do fluxo e a disseminação na comunidade da possibilidade de atendimento sem perigos como a deportação diminui importantes barreiras, como o caso do medo de utilizar os serviços de saúde. Isso faz também com que os imigrantes em geral utilizem os serviços de saúde brasileiros, inclusive para exames preventivos, como o caso do pré-natal. 6.3.1 Falta de tempo
Como vimos, a literatura mostra que o padrão de utilização dos serviços de saúde pelos imigrantes é emergencial e, quando comparado à população nativa, realizam menos exames preventivos. Em nossas entrevistas, pudemos perceber que esse padrão se confirma, como mostra o entrevistado 43, que nunca foi a um médico em sua vida (nem na Bolívia, nem no Brasil):
“Quando ficamos doentes, se é mais sério e precisamos ir ao médico, vamos, mas se não é tão sério não vamos, passa de um dia para outro, já ficamos mais aliviados. Tomamos remédios caseiros, como eu te disse. Para gripe, compramos remédios que já conhecemos na farmácia…não me lembro bem o nome." (Homem, 26 anos, de La Paz, há 3 anos em São Paulo).
Apesar de existir um aspecto relacionado à cultura - já que como o entrevistado 43, muitos nunca haviam ido a um médico antes de emigrar ao Brasil - podemos observar que, como todos os imigrantes, o excesso de trabalho e a falta de tempo contribuem para o não acesso, ou para o acesso apenas em casos emergenciais.
Ir a um posto de saúde pode significar deixar de costurar por uma tarde ou dia. Como se ganha por peça de roupa produzida, é difícil deixar de trabalhar. A maior parte de meus entrevistados relatou trabalhar de segunda a sexta, mais que oito horas diárias, e sábado até 12h00, como conta a entrevistada 40, que ainda trabalhava, quando necessário, aos domingos:
“De segunda ate sábado ao meio dia. Das 7hs até as 20hs. Mas às vezes trabalho até as 22hs, 23hs...Bastante...Ainda nos domingos trabalhamos, por exemplo quando temos que entregar algum serviço importante, para dar tempo temos que trabalhar também nos domingos” (mulher, 21 anos, de La Paz, há 2 anos no Brasil).
No entanto, percebemos que, quando se trata das crianças ou quando grávidas, elas passam a adotar atitudes preventivas, como a realização do pré-natal, vacinação, e
consultas periódicas para os filhos. A entrevistada 62, da Associação Paulista de Medicina e Escola Paulista de Medicina - Gestora dos hospitais e postos de saúde da microregião Vila Maria e Vila Guilherme (nível gerencial), também ressalta esse fato: “Mas, por exemplo, cuidado com criança eles têm. (...) Eles fazem pré-natal mesmo. Podem não fazer completo, né, porque a gente estipula que tenha no mínimo sete consultas na gestação, e às vezes não completam”.
A fala da entrevistada 46 exemplifica tal situação. Antes da gravidez, ela nunca havia utilizado os serviços de saúde, mas, uma vez grávida, ela realizou todo o pré-natal e, após o nascimento da filha, levava-a regularmente ao médico:
"De mês em mês e quando nasceram a cada duas semanas até que completassem dois meses". Ela inclusive se lembra do nome do pediatra dos filhos, o que mostra que formou um bom vínculo com ele: "O Doutor Claudio atendia bem aos meus filhos. (...) Explicava o que tinha que fazer, como fazer." (Mulher, 28 anos, de La Paz, há 7 anos no Brasil).
A entrevistada 65, do serviço social do Hospital Leonor Mendes de Barros (nível gerencial), afirma que uma das diferenças das mulheres bolivianas é que elas, ao contrário da população brasileira, preferem o parto normal ou natural. Ela própria levanta duas possibilidades para explicar esse fato. A primeira, aceita pela maior parte das análises, vê essa questão como puramente cultural, ligada às raízes indígenas das bolivianas. Mas a segunda explicação dada pela entrevistada 65 é que elas prefeririam este tipo de parto porque assim poderiam voltar logo para o trabalho, já que o período de recuperação do corpo com o parto cirúrgico é muito maior. A necessidade de se trabalhar, e assim conseguir recursos é fundamental para a maior parte dos imigrantes. Como a maior parte dos imigrantes bolivianos trabalha em oficinas informais, sem nenhum direito trabalhista, não tem direito à licença maternidade, quanto antes voltarem ao trabalho, melhor.
A falta de direitos trabalhistas também é problemática no caso de doenças mais graves. Pelo estatuto do estrangeiro, lei nº 6.815 que ainda regulamenta a presença dos estrangeiros no território brasileiro, só os imigrantes legalizados tem direito à previdência social. Mesmo assim, isso aconteceria apenas no caso dos imigrantes terem um emprego formal ou pagarem a contribuição para trabalhador autônomo para o INSS, o que raramente acontece. Na maior parte dos casos, o imigrante passa por grandes problemas, como é o caso da entrevistada 40: “Consegui juntar alguma coisa antes, mas agora não. Não trabalhei por uns meses porque fiquei doente e fui operada. Então não
trabalhei de maio até junho, aí só meu esposo trabalhou” (mulher, 21 anos, de La Paz, há 2 anos em São Paulo).