Nos avatares também podemos observar a capacidade de sentir como, ou mais, do que se sente no real, visto que na performance do cibercultural o usuário pode lançar-se rumo a algumas capacidades impossíveis no offline como a amplitude da presença glocal em varredura do (di/e)star-se e a sensação de superproteção garantida pelo bunker, além da relação por meio do investimento no anonimato pseudonímico não confrontativo do face a face.
Estes elementos, aliados ou não, podem gerar algumas situações limites onde o amor e/ou ódio sentido pelos avatares despertam reações de seus usuários, que podem nos fazer ver como para muitos não há uma fronteira linearmente bem posta e definida entre a vivência do Eu no offline e do Eu-Outro do online.
Um caso muito noticiado no ano de 2008 é do casal Amy Taylor, de 32 anos, e David Pollard de 40, que se conheceram em 2003 em uma sala de bate-papo e se separaram como consequência o que foi desencadeado no online.
Amy e David criaram seus avatares no Second Life, chamados Laura Skye e Dave Barmy, e chegaram a organizar uma cerimônia de casamento no ambiente virtual, poucos dias após o seu casamento no plano físico.
Figura 35 . David Pollard e Amy Taylor
Figura 36 . Os avatares Dave Barmy e Laura Skye
Posteriormente, Amy/Laura flagrou o avatar Dave fazendo sexo virtual com uma prostituta no Second Life.
“Fiquei louca, isso me machucou muito. Não pude acreditar no que ele tinha feito. Isso é traição”. Ao comentar sobre Pollard, Amy disse: “Ele não achava que era um problema e não entendia por que eu estava tão brava. Ele falou que eu estava exagerando.”
Daily Mail 14/11/2008
Amy chegou a contratar, com o dinheiro virtual e dentro do jogo, um detetive particular para investigar esta traição. O casal acabou se acertando até que, em abril de 2008, Amy/Laura pegou o avatar de seu marido no sofá, com outra mulher, “conversando de maneira íntima”.
A mulher em questão, era a americana do Arkansas Linda Brinkley de 55 anos, que usava o avatar Modesty McDonnell e era funcionária do clube noturno (Holodeck) do avatar Dave Barmy no Second Life.
Figura 38 . Linda Brinkley e o avatar Modesty McDonnell
Figura 39 . Modesty McDonnell no clube noturno Holodeck, no Second Life.
Apesar de Dave e Linda nunca terem se encontrado na vida real ou consumado seus atos virtuais no físico, Amy disse ter ficado devastada.
“Ele confessou que estava conversando com essa mulher, que é dos Estados Unidos, e disse que nosso casamento estava acabado, que não me amava mais. Disse que nunca deveríamos ter nos casado”.
No dia seguinte, Amy entrou com um pedido de divórcio (no offline) e posteriormente começou a namorar um homem que ela conheceu no jogo online World Of Warcraft, enquanto Pollard começou a namorar uma mulher que conheceu no próprio Second Life.
O que faz este caso emblemático, é o investimento emocional das pessoas ao relacionar os atos dos avatares com a vida offline.
No tempo das incertezas, citando Bauman:
O casamento é, pode-se dizer, a aceitação da casualidade que os encontros casuais se recusam a aceitar (ou pelo menos uma declaração da intenção de aceitá-la – enquanto união durar)
Amor Líquido, 2004 p.70
Em tempos ciberculturais, este caso é um relato de uma união pautada na velox dromológica e baseado numa presença do (di/e)star-se desde o início.
A proximidade virtual reduz a pressão que a contigüidade não-virtual tem por hábito exercer. Ele também estabelece o padrão para todas as outras proximidades. Toda proximidade está agora no limite de medir seus méritos e falhas pelo modelo da proximidade virtual. (Bauman 2004 p. 82)
Repensando a nova padronagem meritosa do relacionar-se, uma questão anterior também se faz urgente: o que é traição?
No Brasil, o crime de adultério foi abolido com as reformas introduzidas pela Lei nº 11.106/2005, que não mais classificam o ato de infidelidade como fato criminoso, mas sim ato passível apenas ao reparo de dano moral.
A jurista e professora de direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Maria Helena Diniz74, salienta que a fidelidade conjugal é exigida por lei, por ser o mais importante dos deveres conjugais, uma vez que é a pedra angular da instituição, pois a vida em comum entre marido e mulher só será perfeita com a recíproca e exclusiva entrega dos corpos.
Continuando, Diniz salienta:
está proibida qualquer relação sexual estranha. Por ser da essência do casamento, o dever de fidelidade não pode ser afastado mediante pacto antenupcial ou convenção posterior ao matrimônio, tendente a liberar qualquer dos cônjuges, por ofender a lei e os bons costumes. O dever moral e jurídico de fidelidade mútua decorre do caráter monogâmico do casamento e dos interesses superiores da sociedade, pois constitui um dos alicerces da vida conjugal e da família matrimonial. Consiste o dever de fidelidade em abster-se cada consorte de praticar relações sexuais com terceiro.
74
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 5º volume: Direito de Família. 21ª Edição revista e atualizada de acordo com o novo código civil (lei n. 10.406, de 10-1-2002) e o projeto de Lei n. 6.960/2002 – São Paulo: Saraiva, 2006.
Em outro trecho ela ressalta a amplitude dos termos fidelidade, adultério e traição:
A fidelidade atinge, sem sombra de dúvidas, aspectos diversos da vida dos cônjuges, entre eles, a relação familiar e até econômica, causando assim, seu descumprimento, ameaça ao direito do cônjuge lesado. O descumprimento de dever de fidelidade no casamento pode ser executado através do
adultério ou da traição, em sentido amplo. Diferentemente do que acredita o senso comum, tais atitudes não constituem sinônimos. A traição é mais abrangente e comporta desde o adultério, ou seja, a prática do ato sexual com pessoa diversa do cônjuge, até a prática de atos diversos da conjunção carnal, como beijos ou até a atual “infidelidade virtual”.
Pensando que o adultério se consuma com a prática de ato sexual, não podemos deixar de acusar o avatar Dave Barmy por manter relações (virtuais) com a também avatar Modesty McDonnell, no plano onde ele estava casado com Laura Skye.
Amy pode sentir-se traída, somente neste sentido mais amplo que foi abordado por Diniz, mas ela não foi vítima de adultério por David. Ele somente agiu contra seu casamento ao dizer que não mais a amava e não deveriam ter se casado.
Fato interessante é que após este relacionamento conflituoso no plano offline, ambos buscaram refúgio em companheiros oriundos do online, provando que grande parte dos seus afetos estão voltados para o que sucede no digital.
Desta forma o avatar adúltero Dave é mais responsável pela ruína do casamento de David, visto que Amy, ao investir muito de seu tempo e afeto, era anulada por um avatar (Laura) mais veraz-capaz que ela.
Agora, analisando o caso de Eloá Pimentel ocorrido em outubro de 2008, apontemos alguns fatos prioritários como: a tragédia no desfecho do crime, a participação conivente ou co- autora da cobertura de alguns canais de televisão ávidos por sensacionalismo espetaculoso em troca de índices de audiência, capazes de envolver seus apresentadores como partícipes de um crime, que atuam como formadores de (pre)conceitos sobre o fato em si.
Para ambientar o ocorrido, apresento uma breve cronologia:
A) Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, é confinada em sua residência no conjunto habitacional, em Santo André, junto de sua amiga Nayara Rodrigues da Silva, também 15 anos, e mais dois colegas que faziam um trabalho escolar.
B) O autor do delito é Lindemberg Alves, 22 anos, ex-namorado de Eloá, que utiliza um revólver calibre 32 para rendê-los no pequeno apartamento.
C) Após mais de 100 horas de cárcere, a polícia diz ter ouvido um tiro e invade o apartamento, posteriormente é informado que Lindemberg teria atirado contra a cabeça de Eloá e contra Nayara antes de ser preso.
D) Eloá não resiste ao ferimento e é declarada morta pouco depois.
O fato que traz este caso para o estudo dos avatares está justamente na matéria publicada pelo portal globo.com no dia 20/10/2008, que relata que Lindemberg em sua “tomada de poder” no recinto, foi imediatamente ao quarto de Eloá desferindo um tiro no computador e outro no modem.
... Em uma das conversas com o capitão Giovaninni, Lindemberg afirmou que ainda não havia acertado as arestas com a ex-namorada, mas não ia desistir. "Quero arrancar tudo, quero arrancar tudo que for possível antes de sair daqui. Quero sair com a certeza de que estou sabendo de tudo", dizia. Ao ouvir a mesma frase, o promotor Rossine ficou apreensivo. Em depoimento à polícia, os reféns contaram que a primeira coisa que Lindemberg fez quando chegou ao apartamento da ex-namorada foi dar um tiro no computador da garota, para que ela não se comunicasse mais com ninguém por e-mail ou no Orkut.
Este ato de Lindemberg mostrou a intencionalidade canalizada em “matar o avatar de Eloá”, para eliminar as atitudes deste avatar através do qual ele julgava ser traído, sem ponderar se era ou não era a Eloá do plano físico que o traía e dando valor de verdade ao que ocorria àquele avatar gestado por Eloá, que utilizando o design da aparência/linguagem na construção da figuratividade das imagens e mensagens na/pela internet, tornou capaz o trânsito entre aquele Eu, que opera o avatar, e o Eu-outro.
Podemos entender que Lindemberg não se sentiu traído pela Eloá offline, ou então ele descarregaria a sua ira, em forma de tiros, sobre a garota desde o início das 100 horas de sequestro.
Em uma entrevista, uma amiga revelou que Eloá usava o perfil de Nayara (também sequestrada) para conversar com os meninos, de modo que Lindemberg não pudesse monitorá-la, graças aos recursos de privacidade dos perfis do Orkut. Nayara, então, prestava-se ao papel de um “pseudônimo de luxo” de Eloá, um mecanismo de fuga do perigo das consequências do ciúme doentio de Lindemberg, ao mesmo tempo, que era um meio de acesso protegido da observação, com um escudo que a defendia no interesse em não expor os atos de seu Eu-outro aos olhares de contágio de Lindemberg e habilitador de um possível novo relacionamento, desta vez bunkerizado.
A verdadeira traição que Lindemberg não pode suportar, foi ver o avatar de sua ex- namorada se relacionando digitalmente com “outros”, em conversas por scraps, mostrando fotos e estreitando o seu afeto, com intermediação da máquina (cada vez mais introjetada no dia a dia dos jovens).
O que destoa, neste caso, é o elemento do “fazer crer” a Lindemberg que aquele avatar era tão ou mais real do que a Eloá física e não um Eu-Outro pleno-hábil-capaz e veraz de traição. Tornando esta experiência digital em algo vivído e não mais, uma nova operação da visualidade que habita um mundo intersticial-híbrido e pan-material.