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Apesar de pouco mencionado na atualidade, o filósofo e religioso francês, Jean Buridan ou Johannes Buridanus (Béthune?, 1292 – ?, 1363?), em latim, foi uma

76

Sem pretender entrar no debate em torno dos marcadores linguísticos, utilizamos o termo «marcador linguístico» para referir todo o elemento linguístico que permite estabelecer relações, indiciando a existência entre coisas sem que suceda isomorfismo. Considerando, num determinado contexto linguístico, a relação «animal» (hiperónimo) – «cão» (hipónimo), podemos afirmar que «cão é uma espécie de animal», logo «cão» e «animal» não são sinónimos, ou seja, não há sobreposição entre os dois níveis na hierarquia. Porém, numa relação discursiva do tipo: «o cão mordeu-o e ele puniu o animal», a relação entre «animal» e «cão» é de identidade, apesar de não corresponder a uma representação de coisas, mas sim a uma relação lexical do mundo do discurso. Por outras palavras, esta relação de identidade apenas é válida na representação discursiva, mas não corresponde a uma representação de coisas, motivo pelo qual não é possível construir ontologias a partir de textos. Os

113 personalidade de grande destaque no seu tempo, sobretudo entre as instituições universitárias da Europa Central. Defensor do nominalismo, por influência de Ockham, foi o principal instigador do ceticismo religioso na Europa, na sequência da descrença na razão enquanto solução para os debates filosóficos de maior complexidade. Na senda da doutrina nominalista, soube fazer a distinção entre os métodos utilizados pela teologia e pela filosofia, demonstrando que, apesar de se poderem atingir as mesmas conclusões para as mesmas questões, as perspetivas de abordagem são diferentes. A inegável sensibilidade que demonstrou para contornar as questões religiosas afastou-o, ao contrário dos seus congéneres, das polémicas da época e revelou o mérito do seu trabalho, lançando os fundamentos da filosofia natural77 enquanto disciplina independente.

A par da divulgação dos trabalhos de Buridan após a invenção da imprensa, a abordagem original que este pensador fez aos temas da lógica medieval, são responsáveis pela recuperação do interesse sobre a sua obra, nomeadamente no século XX. A propósito do seu contributo para o pensamento filosófico moderno e

contemporâneo, Zupko (1994: 35) conclui: «Buridan helped make possible the secularization of philosophical practice a crucial first step on the road to modernism». As suas preocupações foram, além disso, manifestamente coincidentes com as dos seus contemporâneos, em particular, «the attempt to create a genuinely nominalistic semantics; paradoxes of self-reference; the nature of inferential connections; canonical language; meaning and reference; the theory of valid argument», segundo observa King (1985: 4).

Grande parte dos seus trabalhos traduz-se em comentários aos textos aristotélicos, contudo, a sua obra-prima viria a revelar-se com a publicação póstuma de Summulae de Dialectica (1487), complementada pelos tratados de lógica avançada Consequentiae e Sophismata. O que começou por ser um manual de lógica, com reflexões acerca de Tractatus ou Summulae Logicales (1230-1245) de Pedro Hispano78,

77 No período que antecedeu o advento da ciência moderna, a filosofia natural dedicava-se ao estudo

dos seres e fenómenos naturais do mundo físico. Considerada a precursora das ciências naturais, foi tradicionalmente designada de «física» por Aristóteles.

78 Viveu no século

ao qual Buridan imprimiu o seu cunho pessoal, tornou-se numa obra de reconhecida originalidade, acessível não apenas a estudantes, como também a professores. Neste compêndio, a lógica formal de Buridan, identificada quer através da sua estrutura temática, quer da terminologia privilegiada, «redeems the older medieval tradition of Aristotelian logic through the via moderna [modern way]—i.e., the newer, terminist logic that had gradually replaced it» (Zupko 2011), dissociando-se da lógica nominalista de Ockham devido a este espírito de modernidade. Em virtude das discussões aí levadas a cabo, o nome de Buridan encontra-se ainda associado à filosofia da ciência e à filosofia da mente e da linguagem, em particular, pela apresentação da sua própria perspetiva no âmbito da lógica nominalista ou terminista.

Partindo do pressuposto nominalista de que «general terms are signs of individuals and not of common natures existing in individuals» (Moody 1969: 604), alguns dos temas de Summulae de Dialectica são, como vimos, familiares à perspetiva aristotélica e coincidentes com as preocupações dos lógicos terministas da época. De acordo com este raciocínio, a obra divide-se em oito partes, às quais, consoante as edições da obra, se costuma acrescentar ainda uma nona parte – Sophismata, que Buridan considerou, umas vezes parte da Summulae, outras vezes um tratado independente.

Na sua introdução à tradução do tratado de Buridan para inglês, Klima (20012) estabelece um interessante paralelismo entre esta obra e o conjunto de textos que constituem o Organon, segundo ilustra a tabela abaixo:

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Summulae de Dialectica de J. Buridan Organon de Aristóteles

Parte I – Sobre Proposições Da Interpretação

Parte II – Sobre Predicados Introdução a Categorias ou Isagoge (de Porfírio)

Parte III – Sobre Categorias Categorias Parte IV – Sobre Suposições

(inclui a reflexão original de Buridan sobre temas da lógica terminista medieval, sobretudo as propriedades

dos termos)

______

Parte V – Sobre Silogismos (inclui informações relativas a Sobre os

Silogismos Hipotéticos de Boécio)

Analíticos Anteriores

Parte VI – Sobre Tópicos Tópicos

Parte VII – Sobre Falácias Refutações Sofísticas Parte VIII – Sobre Demonstrações

(inclui trabalhos de Boécio sobre a lógica, principalmente Sobre a Divisão, e a própria «teoria da definição» de Buridan)

Analíticos Posteriores

Figura 1 – Paralelismo entre Summulae de Dialectica e Organon, segundo Klima

(20012).

Em termos estruturais, o raciocínio que preside à organização das obras é distinto. Enquanto a distribuição dos textos que compõem o Organon se opera do mais

simples para o mais complexo, retomando os assuntos discutidos no texto anterior, a estrutura do tratado de Buridan parece tomar opções de ordem pedagógica, como defende Klima (20012).

Dedicado às proposições, o tratado que inicia Summulae de Dialectica introduz o nome e o verbo como elementos primários das proposições que, no contexto da lógica, se assumem como veículos de verdade ou falsidade, com o intuito comum a todo o conhecimento de atingir a verdade e evitar a falsidade. Buridan lança, assim, os fundamentos da sua doutrina nominalista: o pensamento enquanto linguagem da mente, com um vocabulário, sintaxe e regras próprias, que encontrariam correspondência numa semântica da língua escrita e falada, perspetiva que partilha com Ockham, apesar de não levar a sua teoria tão longe quanto o seu antecessor. Nesta linguagem da mente, com contornos assumidamente semânticos, as proposições escritas e faladas são entendidas como «conventionally assigned token- symbols, which designate the primary bearers of truth and falsity, namely, mental

propositions construed as singular acts of individual human minds» (Klima 20012:

xxxiv), considerados, na época, entidades fundamentais ao raciocínio. Os conceitos envolvidos nas proposições mentais encontram-se na base da sua teoria, desenvolvida nesta primeira parte da obra.

No segundo tratado discutem-se as cinco classes de predicados ou predicáveis introduzidos por Porfírio: género, espécie, diferença, propriedade e acidente, a partir da classificação inicialmente proposta por Aristóteles em Tópicos, encontrando-se a espécie a substituir a definição. Enquanto processos de construção de argumentação, Buridan distingue os predicáveis no seu sentido lato e estrito, desenvolvendo a partir daí o seu raciocínio:

«strictly speaking, is what is predicated of many [things]; a predicable, taken broadly, is what is predicated whether of only one or of many things; of only one thing, as “Socrates” is predicated only of him [i.e., Socrates], when we say: “Socrates is Socrates”, of many things, as when “animal” is predicated of man and horse, and “man” of Socrates and Plato, and so forth.» (Buridan 1487: 103)

117 Tendo como base o tratado de Pedro Hispano, não se limitará a um comentário crítico do texto de Porfírio, mas irá apresentar a sua perspetiva terminista sobre os predicáveis, para quem «the phrase “praedicare de pluribus” equals “supponere pro pluribus”» (Rijk 1995) remete para a já discutida teoria da suposição, ao defender que «predicar várias coisas» é, antes, «supor várias coisas».

A interpretação de Buridan acerca das categorias aristotélicas é apresentada no terceiro tratado, ponto de vista que consolidará em outros trabalhos. Os princípios da «suposição» dos termos, subjacentes à perspetiva da lógica moderna, são abordados no tratado seguinte e utilizados, como afirma Moody (1969: 604), «in defining the functions of logical operators or syncategorematic signs in determining the truth conditions of categorical propositions of various forms, and in formulating the laws of syllogistic inference». A distinção entre termos categoremáticos e sincategoremáticos é essencial na lógica medieval e facilmente explicável segundo a função sintática e semântica que cada termo exerce. Assim, na sua maioria as palavras são categoremáticas, uma vez que ocorrem como sujeitos ou predicados, ao passo que artigos, preposições, conjunções, advérbios e verbos auxiliares são sincategoremáticos, pois apenas possuem significação quando se encontram em relação com outras palavras.

No âmbito da doutrina da propriedade semântica dos termos, Buridan aborda a significação e a suposição, atribuindo-lhes a sua perspetiva pessoal. Por um lado, recorre à significação para explicar «the relation of categorematic terms and propositions both to concepts of the mind and to the things conceived by those concepts»; com a suposição revela, por outro lado, os modos como os termos categoremáticos funcionam «as referring elements in propositions of various forms and in combination with various syncategorematic words to yeld true and false propositions», como esclarece Scott (1977). Em seguida, debruça-se sobre outras propriedades dos termos: a apelação, a ampliação e a restrição, estas duas últimas ignoradas por Ockham. Para Buridan (1487: 291), «every term connoting something other than what it supposits for» é um termo apelativo e apela «that which it connotes as pertaining to that which it supposits for». Por conseguinte, podemos afirmar que

«branco» é um termo apelativo no sentido em que conota brancura e «supõe» ou remete para coisas brancas. Algumas palavras têm a capacidade de ampliar e de restringir a suposição de outros termos no contexto de uma proposição. Assim, se caracterizarmos um «homem» com o adjetivo «branco», estamos a restringir a sua suposição, enquanto um verbo no passado amplia a suposição do sujeito, por exemplo: «“A white thing was black” means that something which is now white or was white in the past was black» (Read 2011).

Nos tratados seguintes, Buridan prossegue a discussão sobre outros temas da lógica que encontram eco em Aristóteles. É, finalmente, na oitava parte da obra que aborda o tema da definição. Com o intuito de melhor esclarecer o seu conteúdo, decide dividir o tratado em três partes: «De divisionibus»; «De definitionibus» e «De

demonstrationibus». Após uma introdução geral, a primeira parte – «Sobre a Divisão»,

que Buridan entende como a separação de um todo nas suas partes, é seguida de uma reflexão acerca dos «todos» e das «partes» e suas diferentes divisões, uma delas correspondente à divisão de um genus nas suas espécies, à semelhança do método de divisão platónico. Também o seu ponto de vista sobre a definição revela inspiração de Platão e, especificamente, do método elenchos de Sócrates (Beaney 2009). Termina-se com uma discussão acerca das divisões «completa», que possui duas propriedades: «sufficiens» e não «superflua», e «incompleta», caso não possua nenhuma das anteriores, e os tipos menos comuns de divisão.

Mesmo no contexto teórico da definição, Buridan é reconhecido pelo seu espírito de modernidade, como denunciam as palavras de Beaney (2009): «Buridan’s treatment of definition would not look out of place in a modern textbook». No subcapítulo «Sobre a Definição» (Buridan 1487: 631-634) desenvolve, essencialmente, dois aspetos principais: as propriedades da definição e os seus modos. Começa por apresentar oito propriedades comuns à definição e ao definitum ou termo definido (o equivalente ao definiendum aristotélico), considerando que estes devem preencher os seguintes requisitos:

i. definitio (ou definiens segundo a terminologia aristotélica) e definitum

119

ii. definitio e definitum são mutuamente convertíveis;

iii. cada definitio dá informação sobre o definitum de um modo explícito; iv. cada definitio é uma oração, enquanto cada definitum é um termo não-

complexo («incomplexus») ou, no mínimo, menos complexo do que o definiens;

v. nem o definitio nem o definitum são termos singulares, isto é, termos que representam «only one singular thing so that it does not or even cannot represent any other singular thing at the same time on account of its mode of signification» (Klima 2009: 69);

vi. nem o definitio nem o definitum são uma proposição (no sentido lógico do termo);

vii. nenhum definitio tem um sentido parabólico ou metafórico; viii. nenhum definitio deve padecer de superficialidade ou deficiência.

Nestas propriedades atribuídas às definições identificamos logo à partida um conjunto de regras que devem presidir àquilo que Buridan entende corresponder à correta formulação de uma definição.

Em seguida, apresenta, à luz da sua teoria, os quatro tipos principais de definição: nominal, quiditativa79, causal e descritiva (ou descrição), que passa a elucidar, acrescentando-lhe as definições complexas:

79

O termo «quididade» surge no contexto do escolasticismo, para traduzir «a definição aristotélica da

Tipologia de Definições

Definição nominal «(1) A nominal definition is an expression convertibly explaining what thing or things the definitum signifies or

connotes, and properly speaking it is called “interpretation”80.

(2) It pertains to incomplex spoken terms to which there do not correspond simple concepts in the mind, but complex ones, whether theses terms supposit for some thing or things or do not supposit for some thing or things.» (Buridan 1487: 635)

Definição quiditativa «(1) A quidditative definition is an expression indicating precisely what a thing is by means of essencial predicates. (2) These are the genus of the definitum and the essential difference, or differences, until the whole definition is convertible with the definitum. (3) This definition responds precisely, most properly and truly, to the question “What is it?” (4) And it presupposes the existence of the thing, if one has to reply to the question “What is it?”» (Buridan 1487: 638)

Definição causal «(1) A causal definition is an expression that convertibly indicates what the thing is [quid est esse rei, the quiddity or essence of the thing] and the reason why it is. (2) Such a definition is provided by means of terms that in the nominative case would supposit for the cause or causes of that thing or things for which the term defined [definitum]

80

Adiante, Buridan clarifica o seu entendimento de «interpretatio» no sentido de análise («expositio») explícita da significação de uma palavra ou expressão alvo de interpretação. Como exemplos, apresenta o termo «filósofo» que pode ser interpretado como «amante da sabedoria» e a proposição «todo o homem é risível» interpretada como expressão copulativa de «o homem é risível e nada mais do que o

121 supposits. (3) These terms are placed in those definitions in an

oblique case81.» (Buridan 1487: 655-56)

Descrição «(1) (…) a description is an expression indicating what the thing is (quid est esse rei) [the quiddity or essence of the thing] in terms of its accidents or effects that are posterior to it absolutely speaking (posteriores simpliciter). (2) Therefore, in a description the subject is defined in terms of its attribute or attributes and the cause in terms of its effect or effects. (3) However, a description incorporates items that are prior and better known to us (ex prioribus et notioribus quoad nos), but which are not so absolutely speaking (simpliciter). (4) Therefore, by means of descriptions one sometimes proves quidditative definitions or causal definitions to apply to their definita, not propter quid but only quia82.» (Buridan 1487: 659)

Definição complexa Definição resultante da combinação das definições anteriores que, segundo Buridan (1487: 662), torna a definição mais perfeita.

Figura 2 – Tipologia de definições segundo Jean Buridan.

A distinção que Aristóteles estabelece entre definição real e nominal reflete-se na tipologia proposta por Buridan, na qual a definição real tem o seu equivalente na

81 No latim, à semelhança de outras línguas declináveis, nomes, adjetivos e pronomes sofrem variações

morfológicas de acordo com as suas funções sintáticas na frase. A estas variações dá-se o nome de «caso». Assim, o caso nominativo, a que se refere Buridan no ponto 2 da definição causal, corresponde ao sujeito, enquanto o caso oblíquo, mencionado no ponto 3, integra os restantes casos: genitivo (indica relação de posse e atribui propriedades ao nome), acusativo (exerce função de complemento direto), dativo (caso do complemento indireto) e ablativo (exprime a ideia de lugar, tempo, meio, companhia, instrumento, entre outros).

82 Com a finalidade de explicar a causa pela qual o facto é verdadeiro, as expressões quia e propter quid

referem-se à distinção aristotélica entre compreender «o facto» e compreender «a razão/causa pela qual», isto é, entre a demonstração quia e a demonstração propter quid respetivamente.

definição quiditativa que remete para a essência da coisa, associando-lhe o género e a diferença. Por outro lado, a teoria aristotélica da causalidade (material, eficiente, formal e final) encontra-se no cerne da definição causal em Buridan, que apresenta a essência da coisa associada à sua causa. Além disso, a tipologia apresentada encontra- se dependente dos casos latinos. Quanto à descrição que, para Buridan, serve de suporte às definições quiditativas e causais, vários são os autores que associam este tipo de definição à definição nominal, dada a sua possibilidade de definir algo por meio dos «atributos» (ou propriedades) do nome:

i. o próprio Buridan, segundo Klima (20011: 45), na análise que faz da definição aristotélica de «alma» enquanto definição nominal, um primeiro esboço da teoria da definição desenvolvida em Summulae de Dialectica;

ii. também Leibniz (1908: 187): «we can make another person understand what the thing is when we have a description or nominal definition, even though we do not have the thing at hand to show him»;

iii. Aristóteles, nos Analíticos Posteriores (livros VIII e X), segundo Copleston

(1946: 280): «Aristotle, aware that we are by no means always able to attain an essential or real definition, allows for nominal or descriptive definitions, even though he had no high opinion of them, regarding as he did essential definitions as the only type of definition really worth of the name. The distinction, however, is of importance, since in point of fact, we have to be content, in regard to the natural objects studied by physical science, with distinctive or characteristic definitions, which even if they approach the ideal more closely than Aristotle’s nominal or descriptive definition, do not actually attain it»;

iv. e ainda Weingartner (2010: 6), a propósito do significado de Deus e sua existência: «Each of the five conclusions can be understood as an existential assertion together with a nominal definition or description».

123 Trata-se de uma discussão que será retomada, mais tarde, por Russell e Frege no contexto da sua teoria descritivista dos nomes (cf. teoria das descrições em Russell).

Em «Sobre a demonstração», enquanto cerne do conhecimento, Buridan discorre sobre as semelhanças e diferenças entre argumentos demonstrativos e dialéticos, distinguindo conhecimento e opinião. É neste contexto ainda que as demonstrações quia e propter quid são analisadas: o argumento quia inicia-se com o efeito e conclui com a causa; o inverso se passa com o argumento propter quid, que é introduzido por uma causa e termina com um efeito, pelo que a premissa principal indica a causa da conclusão e o silogismo justifica a razão pela qual o efeito ocorre.

No seguimento do tratado Summa Logicae de Ockham, Sophismata destaca-se pelo desenvolvimento de uma análise do sentido e da verdade, que Buridan leva mais além na abordagem que faz aos problemas da «non-substitutivity of terms occurring in intensional contexts [isto é, termos ou expressões que apesar de designarem o mesmo objeto, possuem significados distintos], and of [...] self-referential propositions [que remetem para si mesmas ou para o seu próprio referente]» (Moody 1969: 604) a partir do Paradoxo do Mentiroso, cujo ponto de partida – a afirmação «esta frase é falsa», se pode revelar verdadeiro ou falso segundo a perspetiva assumida. A singularidade do seu pensamento completa-se com a obra Consequentiae (1493), no qual expõe a teoria da inferência com base na lógica proposicional.

À luz da lógica terminista e da linguagem mental, a teoria da definição de Buridan assenta na distinção entre «conceitos simples ou não complexos» e «conceitos complexos». Neste sentido, um conceito simples é aquele que não depende de outros

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