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7. Proposta d’activitats d’orientació i acció tutorial

7.8. Avaluació de la proposta

Transversal a praticamente todos os casos, especialmente àqueles em que a motivação anticlerical é discernível como a principal razão dos actos, é o recurso a “repertórios de acção colectiva”, como os motins, aliados a “rituais” de exibição pública (como as fogueiras ateadas em praça pública na cidade de Setúbal), mas também a acções jocosas e parodiantes (como a imitação de missas e procissões, ou, ainda, “brincadeiras” como a de transportar para o hospital uma imagem sagrada danificada a fim de ser curada). Nestas últimas, é comum o uso de uma linguagem carnavalesca, muitas vezes marcada por um “realismo grotesco” (Bakhtin, 1984) performativo que visa “mundanizar” a alta cultura – neste caso a do domínio do sagrado – através da sua escatologização, i.e., impregnando-a quer da poluição do corpo (ao atingir as imagens com excreções corporais), quer da dos hábitos quotidianos associados às classes populares (pondo as imagens a fumar, a beber álcool ou a jogar às cartas)18.

 - Nas palavras de Bakhtin, “debasement is the fundamental artistic principle of grotesque realism; all that is sacred and exalted is rethought on the level of the ma-

Os ataques anticlericais na I República (0-): Historiografia, violência e performance

 

Mas se esse lado performativo é importante, como vimos, para distinguir as acções e perceber que intenção as motiva, também há que sublinhar o risco implicado em atribuir excessiva importância a esse aspecto ou em tecer generalizações a partir dele. Recordemos que estas acções tendem a ser enquadradas no conflito institucional de escala nacional que opôs o Estado à Igreja, definido, por alguns historiadores, como uma “guerra religiosa”. Segundo esse entendimento, esse conflito estendia-se às camadas populares, ora empenhadas em alimentar um clima de “terror”, no caso de a sua simpatia ser republicana, ora, caso fossem monárquicas ou católicas, resistindo bravamente, em alguns casos até ao limite, em defesa da instituição religiosa ameaçada pelo Estado e por uma minoria radical. Mas, como vimos, as razões por detrás de cada acção podiam ser múltiplas, e até antagónicas, quando deixamos de as olhar em exclusivo à luz dum quadro explicativo macro e passamos a tomar atenção a outros factores, de âmbito local, que permitem destrinçar interpretações diferentes. Por outras palavras, o referido enquadramento tende a obscurecer os múltiplos significados presentes nas acções e as diferentes intenções daqueles que as executavam, subsumindo-as aos termos da “questão religiosa” e, como tal, secundarizando os múltiplos factores que vimos em jogo em alguns dos exemplos enunciados.

Entre os vários problemas que resultam dessa ênfase excessiva no lado performativo das acções, podemos referir que é a sua aparente indefinição, por supostamente se caracterizarem mais por essa dimensão “performativa” do que por um discurso claro e articulado que identifique um fim específico, que permite a sua instrumentalização – tanto pela propaganda da época que intervinha no conflito, como pela historiografia que procura reduzir o seu sentido a esse mesmo conflito. Um entendimento popular da religião é, então, facilmente confundido com uma defesa inequívoca da religião oficial (como se entre uma e outra os conflitos não tivessem sido tão ou mais frequentes do que o foram com a República), tal como ataques isolados e com significados conectados a um contexto particular e localizado, mesmo que imbuídos de uma linguagem anticlerical, são imediatamente associados à República e a algumas das suas formas de anticlericalismo anti-religioso – ainda que numa forma ingénua, interpretada como sendo ela própria involuntariamente religiosa, pela sua carga “mileranista” ou “messiânica”, tal como o fazem

terial bodily stratum or else combined and mixed with its images. We spoke of the grotesque swing, which brings together heaven and earth. But the accent is placed not on the upward movement but on the descent.” (1984 [1965]: 370-1).

abertamente Ramos (2001) e Moura (e.g. 2004), na linha de autores como o antropólogo espanhol Manuel Delgado (2001). O uso de termos como “iconoclastia” para descrever estas acções, como acontece para Portugal, mas especialmente, com muito mais recorrência, para contextos como o de Espanha, só reforça estas leituras: pela própria história do conceito, facilitam quer a atribuição de intenções religiosas aos “fanáticos” anticlericais, quer a sua associação a um “impulso instintivo”, a factores psicológicos ou a razões meramente passionais, sublinhando a confusão e o fanatismo dominantes nas suas intenções e esvaziando-as de sentido enquanto meros actos de barbárie e “vandalismo” (termos comummente reservados aos estratos mais baixos da sociedade e que nada explicam, derivando, por isso, mais de preconceitos de classe do que de qualquer utilidade epistemológica19).

Esse messianismo que vimos ser atribuído a estas acções por alguma historiografia, não resulta, contudo, apenas do papel que a violência nelas desempenha, mas também do seu entendimento enquanto pré-políticas ou “primitivas”, mais próximas das estruturas de sociabilidade primárias (a família, a comunidade, a religião) do que das estruturas modernas de acção política, i.e. centralizadas, organizadas e adaptadas às formas de participação e intervenção política liberais que caracterizam os Estados modernos. Quer aos olhos duma historiografia que parta dum materialismo cru, característico do marxismo mais ortodoxo, quer aos olhos duma historiografia narrativa tendencialmente conservadora, assente no “primado da política sobre todos os outros domínios da existência humana” e caracterizada por uma “notória aversão a qualquer referência ao «social»” (Cardoso, 2011: 44), estes actos de anticlericalismo popular distinguem-se mais pelo seu arcaísmo e espontaneidade inconsequente do que enquanto exemplos de política racional e planeada, algo, nesses casos, reservado às elites e às vanguardas. Desde logo, as suas intenções e demandas não são transmitidas pelos canais normais da política moderna, mas, sim, frequentemente, através de acções com algum grau de ritualização, por vezes imbuídos, como foi sublinhado, de elementos “carnavalescos” e conteúdos jocosos ou escatológicos. Além disso, o discurso que acompanha essas acções nem sempre é claro, caracterizando-se pela indefinição e abertura nos seus fins políticos, assim como pelo moralismo que o pauta, geralmente sintoma da ausência duma ideologia coerente. Parecem ter, no geral, um efeito mais simbólico do que substancial e efectivo. Recorrendo aos termos que Eric Hobsbawm usa para descrever os casos que analisa

Antropologia e performance

no seu célebre Primitive Rebels, livro onde, pelas suas características, caberiam perfeitamente estas “explosões de fúria irracional” (Moura, 2004: 238), “they are pre-political people who have not yet found, or only begun to find, a specific language in which to express their aspirations about the world” (Hobsbawm, 1971: 2).

Em suma, pode-se dizer que se a indefinição presente na dimensão performativa destas acções é o que permite a sua instrumentalização ou que se ignore o seu significado, também é, por outro lado, o que permite descobrir e reiventar formas de discursividade política outras (i.e., diferentes das existentes), na medida em que no “peformativo” se mescla o que é e o que não é político. Nos casos descritos, é perceptível que a origem de uma grande parte deles, talvez mesmo da maioria, era indissociável de conflitos locais, vinganças pessoais ou simplesmente de brincadeiras não muito consensuais. Por isso mesmo, não podem cingir-se aos termos de uma “questão religiosa” entre Estado e Igreja e, apesar da sua manipulação para fins políticos, muito menos podem ser considerados episódios de uma “guerra religiosa”, como o seu carácter esporádico e aleatório reforça. Podemos todavia ter uma certeza: o anticlericalismo ou a oposição à religião não chegavam para derrubar cruzes. Adaptando as palavras de Eire ao contexto por nós analisado, uma coisa é criticar a prática e a crença religiosa e outra coisa, totalmente diferente, é destruir um altar ou incendiar uma igreja20.

Perante a constatação do carácter isolado dos casos que estudámos, nunca adquirindo uma expressão nacional nem nunca se verificando uma concentração exagerada no espaço ou no tempo, esta disparidade entre as ideias que se defendem e aquilo que se faz, supostamente em nome delas, torna ainda mais premente a necessidade de realizar estudos mais concentrados. Um dos propósitos deste texto passou precisamente por sublinhar essa necessidade, contornando o que Edoardo Grendi chamou de “tendência triunfante de explicar o comportamento dos grupos sociais ignorando-os” (2009: 48; itálico no original).

0 - A frase de Eire a que me refiro é: “It is one thing to preach against idolatry, and quite another actually to smash an altarpiece” (1989: 105).

Fontes Primárias – Periódicos