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Autonomi, tillit, trygghet og toleranse

De acordo com Recuero (2009), os atores são o primeiro elemento da rede social, representados pelos nós (ou nodos). Trata-se das pessoas envolvidas na rede que se analisa. Como partes do sistema, os atores atuam de forma a moldar as estruturas sociais através da interação e da constituição de laços sociais. Quando se trabalha com redes sociais na internet, no entanto, os atores são constituídos de maneira um pouco diferenciada. Por causa do distanciamento entre os envolvidos na interação social, principal característica da comunicação mediada por computador, os atores não são imediatamente discerníveis. Assim, nesse caso, trabalha-se com representações dos atores sociais, ou com construções identitárias do ciberespaço.

Essa representação pode ser mediada, por exemplo, através de um perfil no Facebook. Dou o nome para este ator social de indivíduo conectado mencionado anteriormente. Ele é uma representação do seu indivíduo e realiza diversas tarefas na rede social para expressar elementos de sua personalidade, individualidade e assim obter a qualificação de sua

existência. Recuero (2009) analisa o ator social utilizando sites pessoais como meio de construção do self e apropriações individuais do ciberespaço. Atualmente pode-se empregar essa análise para o feed de notícias do Facebook. A diferença é que, como o volume de interações dos outros usuários é muito maior e mais rápido que as páginas pessoais, há uma ansiedade maior pelo feedback. O indivíduo conectado é uma expressão virtual e identitária criada pelo indivíduo e, para que ele exista, precisa ser alimentado com a percepção do outro. Ele precisa ser notado, ser visto por outros conectados na rede. Recuero (2009, p. 27) busca autores como Sibília e Efimova para analisar essa criação do indivíduo da rede social:

Sibilia (2003) chama de “imperativo da visibilidade” da nossa sociedade atual essa necessidade de exposição pessoal. Esse imperativo, decorrente da intersecção entre o público e o privado, para ser uma consequência direta do fenômeno globalizante, que exacerba o individualismo. É preciso ser “visto” para existir no ciberespaço. É preciso constituir-se parte dessa sociedade em rede, apropriando-se do ciberespaço e constituindo um “eu” ali (Efimova, 2005). Talvez, mais do que ser visto, essa visibilidade seja um imperativo para a sociabilidade mediada pelo computador. Assim, entender como o os atores constroem esses espaços de expressão é também essencial para compreender como as conexões são estabelecidas. É através dessas percepções que são construídas pelos atores que padrões de conexões são gerados.

Outra autora citada por Recuero (2009), Judith Donath (1999), sustenta que a percepção do outro é essencial para a interação humana. Ela mostra que, na internet, pela ausência de informações que geralmente permeiam a comunicação face a face, as pessoas são julgadas e percebidas por suas interações. Essas interações, constituídas como expressões de alguém, legitimadas pelos grupos sociais, constroem as percepções que os indivíduos têm dos atores sociais. A construção deste indivíduo conectado passa por todas as informações do indivíduo inseridas em seu perfil na rede social: suas informações demográficas, fases de vida, fotos, informações da família, emprego, objetos de desejo e outros interesses. As suas conexões e os grupos aos quais pertencem na rede também ajudam a construir o seu perfil. Para o indivíduo conectado viver na rede, ele precisa estar ligado ao seu indivíduo. Os dois são a mesma pessoa e compartilham das mesmas informações. Na rede social ele pode se valer de representações para compor positivamente suas interações e relações. O Facebook especificamente não permite que usuários criem perfis falsos e, mesmo que o usuário crie um perfil verdadeiro com informações falsas, esse tipo de atitude seria antagônico à composição de seu individualismo com interações de suas conexões prejudiciais ao seu indivíduo conectado.

Os indivíduos projetam a mesma expectativa dos relacionamentos no mundo físico para o mundo virtual, o seu indivíduo para sua representação conectada. A questão é que nas

redes sociais, o número de conexões é muito maior e invariavelmente o feedback dos outros usuários não vai acontecer da maneira que se espera. Imagine a seguinte situação: tudo ou quase tudo o que você fala é ignorado; você faz uma apresentação em um auditório vazio; você concorda com uma opinião de um amigo, mas ninguém o percebe; você faz uma pergunta e ninguém lhe responde; você chama um amigo e faz uma pergunta ou comentário e ele simplesmente não o vê e sai. Isso seria muito triste, frustrante e angustiante. Em nossa vida, isso dificilmente poderia acontecer, principalmente porque sua rede é formada por pessoas mais próximas. Sua característica é mais partilhada e não individual. Mas nas redes sociais essa possibilidade é muito factível e causa angústia, ansiedade e medo nos usuários de não serem percebidos e assim não existirem na rede. Um exemplo que ilustra a relação de interação e o impacto do indivíduo no indivíduo conectado é um estudo que o Facebook divulgou identificando quando um usuário está prestes a iniciar um relacionamento a partir de suas interações na rede social. Utilizando dados anônimos, a rede social examinou a média de postagens compartilhadas entre duas pessoas antes de iniciarem um namoro e mudarem seu

status de “solteiro” para “em um relacionamento sério”. Durante os 100 dias que antecederam

essa mudança, os pesquisadores observaram um aumento lento, mas constante no número de postagens entre o futuro casal. A partir do primeiro dia com a mudança de status, a quantidade de posts compartilhados começa a cair. O Facebook atribuiu essa atitude a uma decisão do casal de passar mais tempo juntos, criando uma interação no mundo físico (figura 12).

Figura 12 – Gráfico sobre a mudança de comportamento entre os usuários do Facebook de acordo com a mudança de relacionamento através do volume de publicações

Mas essa queda na interação não significa algo ruim. Pelo contrário. Segundo a rede social os compartilhamentos se tornam mais carinhosos e positivos. Os pesquisadores analisaram o número de palavras associadas a emoções positivas como “amor” e “feliz” em comparação a palavras negativas como “ódio” e “mágoa”. E a proporção de palavras positivas aumentou drasticamente dentro dos primeiros dias de namoro (figura 13).

Figura 13 – Gráfico sobre a mudança de comportamento entre os usuários do Facebook de acordo com a mudança de relacionamento através do volume de publicações emotivas

Fonte: Diuk (2014).

O Facebook também observou o volume de interações com usuários que recentemente terminaram um relacionamento e mudaram seu status para “solteiro”. A rede social registrou um aumento de 225% nessa interação, que atribui a palavras de conforto enviadas por familiares e amigos por meio de mensagens privadas, comentários ou postagens na timeline. No Facebook há uma forma de visualizar a amizade entre duas pessoas através das histórias compartilhadas em que os dois estiveram presentes através de algum tipo de interação. É interessante observar que essa amizade entre os dois indivíduos são retratadas no Facebook para seus indivíduos conectados e suas histórias na rede. Na figura 14, o Facebook chama de “Amigos no Facebook desde 2009” o período em que os indivíduos conectados se tornaram amigos, mesmo que no mundo real eles já se conheçam há mais tempo. Os indivíduos são os mesmos, mas com representações e relações próprias no meio.

Figura 14 – Visualização da relação de dois indivíduos conectados no Facebook

Fonte: Facebook (2015).

Heidegger (2006), em seus estudos sobre a existência do indivíduo, afirmou que a angústia é provocada pela pura e simples exposição ao mundo, pela incerteza e pela indecisão, como não se sentir em sua própria casa e o medo referente a um fato preciso. Exemplificando: se o medo da morte coloca o indivíduo na impropriedade (não aceitando quem realmente ele é), a angústia produz o efeito contrário, ela provoca a sensação de “ficar sem chão”. Ela revela ao indivíduo uma compreensão do seu morrer. Ele percebe que não pode escapar da convocação e a angústia o faz viver na propriedade (quem realmente ele é). Ou seja, a possibilidade de ser ele mesmo. Fazendo um paralelo com as redes sociais, há esta mesma relação. O medo de não ter uma relação “correspondida”, um feedback dos outros usuários e a angústia permanente pelo fato de estar lá e viver conectado à sombra da solidão. A percepção do indivíduo na rede social está condicionada ao feedback de outros indivíduos. Ele não consegue se perceber somente com suas ações. Essa percepção de sua existência está dependente de suas conexões fortes ou fracas, ou seja, para ter o feedback de outros indivíduos, é essencial a participação na rede. É importante salientar que o fato de existir uma participação do indivíduo na rede não quer dizer que existirá uma interação, pois toda ação no Facebook é mediada pelo próprio Facebook antes de “vencer” o algoritmo de relevância e se tornar uma história, uma interação. Com a interação realizada pode ocorrer ou não o retorno do grupo e assim transmitir a percepção de que o indivíduo existe na rede. A cada interação realizada e trocada, essa existência do indivíduo é mensurada pelo algoritmo em forma de pontos de afinidade e por ferramentas medidoras de influência que o próprio indivíduo pode utilizar como seu prêmio de existir e influenciar seus pares. Ou seja, para existir, é preciso que haja interação entre as partes. Para existir interação, é necessário que o algoritmo do

Facebook considere relevante para o usuário destinatário o conteúdo enviado baseado nas variáveis do EdgeRank. E, antes de tudo, para que haja interação, é necessária a participação do usuário.

Figura 15 – Fluxograma da percepção de existência dos indivíduos no Facebook

Fonte: Elaborada pelo autor.

No fluxograma da figura 15 é possível observar onde estão as posições decisórias que podem transformar uma ação em história na timeline de um usuário ou gerar a partir dessa história um feedback, uma ação que torne tangível esse retorno do usuário mediado através da rede, emulando o feedback do mundo real (um sorriso, um comentário, um abraço, um agradecimento). Quando o usuário A compartilha um conteúdo para a sua rede, essa ação é processada pelo algoritmo do Facebook que determina quais usuários devem receber o conteúdo ou não. Essa ação pode morrer antes de se tornar uma história – uma ação conectada a um determinado número de pessoas num determinado tempo. A relevância com que o algoritmo busca é calculada sob as três variáveis (afinidade, peso e deterioração do tempo) divulgadas pelo Facebook, denominada EdgeRank. Quando o algoritmo determina que o conteúdo direcionado a um determinado grupo de usuários não é relevante, a ação do usuário A não chega ao destino e consequentemente não há feedback, mesmo havendo participação. Com o score do EdgeRank ultrapassando o limiar de aceitação do algoritmo, a ação do usuário A se transforma numa história na timeline dos usuários (representados na ilustração pelo B) que de acordo com o algoritmo estão aptos a receber o conteúdo. Para que haja a percepção de existência do usuário A, os usuários ainda precisam se decidir se interagem ou não com a história. As variáveis de decisão passam por influência, relevância e reputação, desta vez não analisadas pelo algoritmo, mas sim pelos usuários. Com o feedback gerado na

rede social, finalmente o usuário A recebe de forma tangível uma ação de resposta à comunicação original e passa a perceber que existe na rede, que é correspondido. A sua participação o qualifica para existir na rede, mas há dois limiares de decisão para o trânsito da informação: o do algoritmo e o do próprio usuário destinatário.