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Automatic pit detection using statistical classifier

6 Semi-automatic detection of cultural heritage in lidar data

6.3 Data and methods

6.3.8 Automatic pit detection using statistical classifier

4.1 Lembranças de Mãe Júlia

Meu olhar irá se dirigir a uma personagem sobre a qual existem algumas informações; falo aqui, especificamente, da memória sobre Júlia Condante, entrecruzada com a história da Umbanda no Ceará – já que a pesquisa biográfica permite a apreensão das relações entre a vida individual, as estruturas e as regras sociais.

O interesse em tratar das mães-de-santo da Umbanda me foi despertado pelo entendimento e a constatação de que a história dessas mulheres e das religiões afro-brasileiras é uma história de silenciamentos. Há uma invisibilidade do grupo de adeptos, da religião como prática cultural, o que resulta em poucas informações, uma escassez de documentação. Assim, é de grande valia a história oral temática, mediante a história pessoal do narrador. Reuni fontes importantes de informação sobre a trajetória de Júlia Condante como mãe-de- santo, sendo possível traçar um perfil dessa liderança feminina na religião de possessão, na perspectiva de perceber a tendência e a multiplicidade de formas de exercer esse sacerdócio.

A trajetória individual de Mãe Júlia guarda relações com o sistema social como um todo e está arraigada em um contexto. A biografia de Mãe Júlia esclarece a ambiência da década de 1950 e da história da Umbanda na realidade cearense fragmentada e conflitante. A história dessa mãe-de-santo é relevante, representativa, e possibilita identificar o que está latente na Umbanda como religião da tradição, cuja documentação é escassa e fragmentária.

Apresento uma dentre várias formas de interpretação do projeto religioso de Mãe Júlia. Considerei as estruturas de poder, as diversas formas de dominação e a dinâmica das resistências nas condutas coletivas que seguiram como sistema de relações. Entendo a religião como uma das razões de o ser humano crer e elaborar sentido para sua existência, depositando nela a esperança da realização imediata de seus desejos subjetivos. Nesse sentido, tem papel preponderante a mãe-de-santo com sua função sacerdotal de ajudar na organização e estruturação da vida individual e espiritual dos filhos-de-santo, reanimando-os para viver dias melhores ou mais suportáveis.

Aqui, ao tratar da biografia de Mãe Júlia, fiz uso da história oral e compartilho da compreensão de que as memórias se relacionam às perspectivas e aos códigos existentes entre grupos de pertencimento, e de que elas podem fornecer dados importantes sobre contextos, processos e conflitos sociais que fazem parte da vida dos diversos narradores. Tem importância a memória como fonte de informação; vale, então, recordar fatos relacionados à

Umbanda, à liderança da mãe-de-santo nos terreiros. O espaço da religião se configura como lugar de conservação da memória.

Colocou-se como primeiro problema o modo de conseguir informantes-chave para ajudar a construir a história de vida dessa mãe-de-santo. Contei com a indicação dos próprios adeptos, daqueles que conheceram o terreiro liderado por Mãe Júlia, bem como dos conhecedores do trabalho de cura, assistência e orientação espiritual por ela desempenhado. Tentei levantar seu perfil social, relacional e espiritual e compreender os motivos que a levaram a integrar a religião, a forma como se deu seu desenvolvimento, formação e preparação espiritual para ser mãe-de-santo, além de perceber sua relação com o orixá dono de sua cabeça – Ogum. Por fim, interessava saber acerca da transmissão do axé após sua morte, em 1984.

Essa metodologia da tradição oral é importante para compreender a permanência dos mitos e a visão de mundo das comunidades em relação a um passado recente. Tive como fonte primária a narrativa de sua filha-de-santo, Stela Pontes, que demonstrou sempre boa vontade ao me receber. Conversamos por longas horas, de modo que ela me forneceu referências históricas para o entendimento das particularidades do exercício sacerdotal de Mãe Júlia.

Compreendo que a memória social da filha-de-santo Stela Pontes se modifica com o tempo, já que, não sendo memória documental, não há a função ou a obrigação de ser fixada. Contando com as narrativas de Mãe Stela, fiz, por meio de suas lembranças, uma reconstrução ou construção imaginativa a partir das experiências passadas e organizadas por ela. Como filha-de-santo, conviveu no terreiro e compartilhou daquele grupo, o que possibilita a descrição de detalhes importante para a feitura de uma biografia.

Assim, são elucidativas as palavras de Pordeus Júnior:

Para que as lembranças permaneçam, é necessário que façam parte do pensamento de um grupo. No entanto, é necessário que essa memória seja articulada entre os membros desse grupo. Isso vale para a sociedade mais ampla. A memória possui características que se manifestam em seus aspectos afetivos e sociais. (PORDEUS JÚNIOR, 2002, p.7)

As lembranças de Mãe Stela têm um papel importante, pois a história oral não se trata somente de registros falados, mas também da memória relacionada a sentimentos e emoções. Certamente seus depoimentos guardam relações com o grupo de que fez e faz parte.

A história oral se volta para a narração das pessoas comuns, para a importância delas para a história. A narração é recolhida mediante técnicas de depoimentos e de entrevistas. Ao trabalhar com a memória oral, no entanto, o zelo metodológico se faz necessário para não se cair no sensacionalismo, na primazia pelo o exótico, numa postura reificadora de certos grupos historicamente discriminados – em particular as mulheres e os adeptos da Umbanda.

A linguagem é uma forma de memória que nos antecede. As construções coletivas do presente também guardam rememorações de experiências passadas. A memória se cristaliza fora de nós, em lendas, monumentos e objetos que estão longe de ser reflexos de verdades históricas.

Segundo Amado e Ferreira (2002), a alternativa encontrada por muitos autores foi a de procurar compreender o passado através de representações ou memórias coletivas, ou seja, a partir de uma abordagem que procura o sentido atribuído aos fatos passados pelas pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidas com eles. O passado é recuperado pelo presente através de processos de interação social. A compreensão do passado, neste caso, é composta de uma rede bem mais complexa de significados. São indivíduos em contato com outros, em determinados contextos sociais, trazendo o passado para o presente. O conceito de memória, portanto, nos permite entrelaçar passado e presente, por um lado, e ultrapassar a antinomia teórica clássica entre indivíduo e sociedade, por outro.

Para Halbwach (1990), memória é uma forma de pensamento, percepção ou prática que tenha o passado como principal referência. Ela está nos sentimentos e nas percepções, bem como na imaginação. Tudo o que sabemos ou que podemos aprender se deve às memórias que possuímos ou que iremos adquirir.

A memória é seletiva: não memorizamos tudo, apenas aquilo que nos é interessante. A memória envolve o esquecimento e não está sob nosso controle, pois o que lembramos ou apagamos não é resultado apenas de nossas intenções e desejos declarados. Nós nos lembramos de detalhes aparentemente sem importância e esquecemos outros relevantes. Temos, portanto, de buscar uma compreensão das lembranças de Mãe Stela nesta trama.

Embora a memória seja sempre resultado de um processo interativo, há casos em que a experiência pessoal é fundamental e outros em que as determinações coletivas precisam ser consideradas. Há historiadores, no entanto, que se voltam para uma etnografia da teia de relações sociais do passado a partir da interpretação de construções simbólicas que não só antecedem como ultrapassam o conteúdo de relatos obtidos.