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Uma vez que os livros de M. Delly são ambientados, na maioria das vezes, na Inglaterra ou na França, o recorte da ―História da Mulher‖ apenas precisará ser feito para esses dois países e focado na classe alta, aristocrata. Sabemos que, no Brasil, a mulher vivia, nos anos oitocentos, uma realidade completamente diferente da mulher europeia; entretanto, a brasileira nunca é mencionada nesses romances, seja porque os autores não são brasileiros, seja porque a tradição de príncipes, duques, marqueses, condes etc. é mais pertinente ao mundo europeu. E como a brasileira não era a primeira leitora desses romances, não podia estar no público imaginário dos autores.

O século XIX, na Inglaterra, é chamado de Era Vitoriana, devido à Rainha Vitória ter sido coroada em 1837 e permanecido no poder até 1901. Tanto a aristocracia quanto a burguesia experimentaram prosperidade nesse período por causa do aparecimento de novas tecnologias e invenções, dos lucros advindos da expansão do Império Britânico e da mão de obra barata formada por homens, mulheres e crianças que se encontravam na extrema miséria. Acelerou-se a urbanização devido à industrialização, havendo grandes migrações do campo para as cidades maiores. A população inglesa quase duplicou, chegando a 30,5 milhões em 1901. Essa miséria do operariado e a diferença que se formou entre o norte, que se industrializou primeiro, e o sul, que manteve, até depois da metade do século XIX, ainda o modo de vida mais aristocrático e campestre, está bem relatada na obra

Formou-se uma classe média educada e numerosa. Não tinha sangue nobre, é verdade, mas capital suficiente para ser bem educada e conviver, ainda que sempre com um pouco de humildade, com a classe alta. Podemos ver essa realidade bem ilustrada nos livros de Jane Austen, no início do século XIX, pois suas protagonistas, como as irmãs Bennet de Orgulho e preconceito, ou as irmãs Dashwood, de Razão e sensibilidade, eram filhas de cavalheiros e não de nobres; entretanto, receberam boa educação, sabiam ler e escrever com algum mérito, pintavam, tocavam piano, iam a bailes, viajavam e conviviam com a classe alta, ainda que esporadicamente. Os pais das moças não tinham uma ocupação, recebiam os juros – sempre especificados pela autora em cifras, mais de uma vez ao longo do livro – de um montante guardado no banco, recebido de herança. As Bennet tinham um tio comerciante em Londres, o que as rebaixava socialmente na visão da família e dos amigos de Mr. Darcy, pertencentes à classe alta, de sangue nobre.

Na primeira metade do século XIX, os trabalhos considerados dignos da classe média bem educada eram a Marinha, o Exército, a Advocacia, a Medicina e a Igreja. Fazia parte da tradição o filho mais velho receber as terras, o imóvel da família e um montante mais substancial para que pudesse viver de renda, enquanto os demais irmãos varões escolhiam uma dessas ocupações. Às mulheres restava a esperança de se casar bem. Todos os livros de Jane Austen retratam essa preocupação das mães ou das mulheres mais velhas por casar as filhas, ou as jovens sob sua tutela, com bons partidos (leia-se homens que ganhavam mais de mil libras anuais). Já na segunda metade do século XIX tornou-se aceitável os ―ricos emergentes‖, homens que tinham enriquecido por meio de suas fábricas, como Mr. Thornton, de North and South, e vários personagens de Charles Dickens, algo inimaginável nos livros de Jane Austen.

Apenas a mulher de classe inferior trabalhava, geralmente como criada nas casas de família ou operária nas fábricas. O trabalho que uma mulher de nível superior poderia fazer, sem ser rejeitada pela sociedade, era o de tutora (como é o caso da jovem governanta de Emma, de Jane Austen, que permanece amiga da família e casa-se após o crescimento de sua pupila) ou, até, escritora, como é o caso da própria Jane Austen e, mais tarde, das irmãs Brontë. Para as mulheres que queriam ostentar educação e refinamento, todo o trabalho considerado ―inferior‖ – cozinhar, passar, limpar, lavar, etc. – ficava a cargo das criadas. Podemos ver isso

bem ilustrado quando o insolente primo Bennet, em Orgulho e preconceito, encantado com a refeição, pergunta a quais primas deveria agradecer pelo prato; ao que a Sra. Bennet responde, quase indignada, que a família tinha posses suficientes para contratar empregados para que suas filhas se mantivessem longe da cozinha.

Para ocupar o tempo, essas mulheres dedicavam-se ao bordado, ao arranjo de flores, à tapeçaria, à pintura, a algum instrumento (harpa ou piano, geralmente) e ao canto, além da leitura, da escrita de várias e longas cartas, dos passeios ao ar livre e dos eventos sociais, como os bailes. Outra ocupação importante eram as visitas, quando se ia, sem prévio convite, à casa de um amigo ou conhecido levando os ―cartões de visita‖, também fielmente retratadas por Jane Austen, em especial em

Razão e sensibilidade, quando as senhoritas Dashwood passam uma temporada em

Londres e recebem visitas quase todos os dias, além de, ao voltarem de um passeio, saberem quem bateu à sua porta, através dos cartões deixados com o empregado.

Aos 15/18 anos, na época do baile de debutante, a moça já era considerada preparada para se casar. Se fosse da camada mais pobre, essa idade poderia ser ainda menor. Todas as protagonistas de Jane Austen, exceto Anne Elliot de

Persuasão, se casaram entre os 18 e os 23 anos. Passar dos 25 sem se casar era

considerado uma infelicidade e foi o que quase aconteceu com Anne Elliot, que recusou o pedido do capitão Frederick Wentworth e só se redimiu quase oito anos depois, aos vinte e sete anos, casando-se com ele. A própria autora, que não contraiu matrimônio, casa todas as suas protagonistas e coloca na fala de outras personagens o ―medo‖ de ficar solteira.

Da mulher de posição na sociedade esperava-se virtude, responsabilidade, inocência, candura, afabilidade, respeito aos ditames da boa conduta, boa educação e fidelidade. Deveriam saber controlar o próprio temperamento, nunca discutir nem falar com veemência. Isso é fartamente mostrado nos livros de Jane Austen, quando as protagonistas são insistentemente difamadas pelas antagonistas, mas reagem apresentando seu pensamento contrário ao que lhes foi dito com toda a cortesia e respeito.

— A senhora agora não deve ter nada mais a dizer – respondeu ela, ressentida. — Já me insultou de todas as formas possíveis. Devo lhe solicitar que voltemos à casa. (Fala de Elizabeth Bennet, em discussão com Lady Catherine, que lhe dizia sobre a impropriedade de se casar com Mr. Darcy, em Orgulho e preconceito, p. 362)

Já outras mulheres, que não tiveram a oportunidade de receber educação, são descritas como indiscretas, inconvenientes, fúteis e outros adjetivos piores. É o caso de Lucy Steele, a rival de Elinor, em Razão e sensibilidade:

Lucy era inteligente, esperta; em geral, seus comentários procediam e eram divertidos. Tratava-se de uma companhia que Elinor considerava agradável por meia hora. Os dotes naturais de Lucy não haviam recebido o reforço de uma boa educação; ela era ignorante, iletrada e a deficiência de qualquer aperfeiçoamento intelectual, a falta de informação a respeito dos assuntos mais comuns, não podiam passar despercebidos […] a falta de delicadeza, de retidão moral e de integridade de opiniões […] pela bajulação e dissimulação […] cuja falta de instrução impedia que conversassem em pé de igualdade […]. (Razão e sensibilidade, p. 137)

Assuntos como política e economia eram quase totalmente ignorados pelas mulheres. Em diversos trechos de seus livros, Jane Austen parece criticar essa falta de assunto, comum às mulheres; entretanto, não trata deles em seus romances. Geralmente, o momento criticado é o término das refeições, quando os homens iam fumar e beber, e as mulheres se retiravam para uma sala à parte. A autora costuma valorizar a volta dos homens, relacionando-a com a volta da sensatez e de assuntos mais interessantes, o que nos faz supor que, assim como ela, outras mulheres se interessavam por temas mais abrangentes, fato ainda mais comum na segunda metade do século XIX.

Os dois cavalheiros chegaram no dia seguinte na hora do jantar, transformando-o quase em uma alegre festa, e os temas diferentes de conversa que eles trouxeram foram muito bem-vindos, depois de um dia de chuva e dos mesmos assuntos, e tornaram o ambiente bastante animado. (Razão e sensibilidade, p. 318-319)

A educação dos meninos normalmente era ministrada por um professor particular. Mais crescidos, eram enviados a faculdades, onde aprendiam Ciências, História, Latim, Grego, Literatura Inglesa e Línguas Estrangeiras. Foi o que ocorreu com Edward, o par romântico de Elinor, em Razão e sensibilidade: foi educado na casa do tutor, o Sr. Pratt, e, aos 19 anos, ―entrei para Oxford e me entreguei dignamente ao ócio‖, para usar suas próprias palavras (p. 113). Entretanto, a ociosidade excessiva não é bem vista pela autora, uma vez que a Edward só traz infelicidade. Nas palavras de Elinor: ―você seria um homem mais feliz se tivesse alguma profissão, um trabalho ao qual dedicar o seu tempo‖ (p. 112) e ―a ociosidade não traz felicidade‖ (p. 113).

Já as meninas de elite eram educadas pela governanta ou tutora, como em

estudos básicos, continuassem aprimorando seu intelecto por meio de leituras e práticas manuais (música e bordado). Identificamos essa orientação nos seguintes trechos:

Tenho a intenção de me levantar sempre antes das seis horas e desde a manhã até o jantar pretendo dividir cada momento entre a música e a leitura. Planejei tudo e estou determinada a seguir um curso de estudo sério. […] Lendo apenas seis horas por dia, no decorrer de um ano ganharei boa parte da instrução que desejo. (Fala de Marianne, em Razão e sensibilidade, p. 359)

Marianne, que sempre tinha o dom de descobrir a biblioteca em qualquer casa em que se encontrasse, mesmo que não costumasse ser utilizada pela família, não demorou a estar com um livro nas mãos. (Razão e sensibilidade, p. 318)

No senso comum, acredita-se que, no século XIX, as esposas praticamente existiam para procriar, acompanhar os maridos em eventos sociais e administrar o lar, enquanto aos homens era dada toda a liberdade para a infidelidade, jogos, viagens... Entretanto, nos livros de Jane Austen, Charlotte Brontë e Charles Dickens a realidade é um pouco diferente. A mulher, especialmente a mãe, é uma figura forte, que faz páreo ao marido. Sem nunca entrar em discussão aberta, com bom humor ou às vezes com o ―jeitinho feminino‖, a mulher é retratada como capaz de fazer o marido mudar de opinião e realizar o que ela deseja. Não raro é ilustrado um casal em que é a mulher ―o cabeça‖, sendo o marido um ser mais frágil psicologicamente, que acata as vontades da esposa, mesmo aquelas que vão contra seus princípios. É o que vemos na figura do Sr. Dashwood, irmão mais velho das protagonistas:

A Sra. Dashwood determinou que as jovens não deviam ficar nem mais um minuto em sua casa e o marido foi obrigado a se pôr de joelhos, também, para persuadi-la a pelo menos permitir que as irmãs Steele arrumassem a bagagem. (Razão e sensibilidade, p. 270, grifo meu)

É claro que os personagens são fruto da imaginação das autoras, que não podemos tomá-los como fiéis aos homens reais; entretanto, era de se esperar, pelo que aprendemos sobre o século XIX, que o marido tivesse a palavra final, que pudesse até ser rude ou violento com uma esposa que o desobedecesse. Entretanto, as atitudes masculinas não coincidem com essa premissa nos livros pesquisados escritos por Austen e Brontë. Ao contrário, nos casos em que a paixão ou mesmo a mera admiração há muito desapareceram no relacionamento matrimonial, como é o caso dos Bennet de Orgulho e preconceito e dos Palmer de

alguma ironia. O motivo da perda do afeto sempre é devido ao fato de o marido ter- se casado motivado pelo dinheiro ou pela beleza da mulher, que, com o tempo, se mostra tola, frívola e ignorante.

― O sr. Palmer é tão divertido! ― disse ela a Elinor, em um murmúrio. ― Ele está sempre de mau humor.

Elinor não se sentia inclinada, depois de ligeira observação, a dar ao sr. Palmer o crédito de ser real e naturalmente irritadiço ou mal-educado como fazia questão de aparentar. Seu gênio forte talvez estivesse um tanto exasperado por ver-se, devido à incontrolável atração pela beleza, transformado no marido de uma mulher completamente tola. Sabia que esse tipo de estupidez costumava ser cometida por qualquer homem sensível, por isso não se chocava com as atitudes dele. Acreditava que era mais o desejo de atingir a distinção que provocava aquela maneira agressiva de tratar a todos. Era a vontade de parecer superior aos demais que se tornava um motivo, aliás muito comum, de ele achar que merecia maiores atenções; mas, na verdade, se bem que assim o sr. Palmer conseguisse estabelecer sua superioridade acima dos demais apenas em má educação, não podia fazer com que ninguém, a não ser sua esposa, se apegasse a ele. (Razão e sensibilidade, p. 122, grifo meu)

Sobre tudo isso podemos concluir que, se uma mulher mostrava-se bem educada e disposta a obedecer a todos os preceitos da boa conduta valorizada na época, era de se esperar que fosse bem tratada pelo marido. O ser ―bem tratada‖ é especialmente importante para as chamadas ―mulheres de famìlia‖, pois, caso não fosse, teria o pai, os irmãos e os tios dispostos a lavar a sua honra em um duelo. É o que o coronel Brandon explica ter feito por sua pupila Eliza, quando foi maltratada por Willoughby:

― Eu não poderia procurá-lo de outra maneira. Apesar de relutar, Eliza acabou por me dizer o nome de seu amante e, quando ele chegou à capital, o que aconteceu quinze dias depois da minha chegada, marcamos um duelo; ele para defender, eu para punir sua conduta. Saímos do encontro sem nenhum ferimento e ninguém ficou sabendo de nada.

Elinor estremeceu; tinha horror por duelos, mas não podia reprovar essa atitude em um homem, principalmente em um soldado. (Razão e sensibilidade, p. 222, grifos meus)

A influência da religião (protestantismo para os ingleses e catolicismo para os franceses) na vida dos homens e, em especial, das mulheres oitocentistas sempre foi indiscutível. Entretanto, na maioria dos livros desse período (em especial Jane Austen, Charlotte Brontë, Elizabeth Gaskell e Charles Dickens) o assunto não é abordado diretamente, nem se verifica a intenção do autor em doutrinar o leitor de acordo com a sua religião, como se verá mais adiante em M. Delly. Jane Austen, por exemplo, deu vida a vários clérigos em seus romances, às vezes considerados excelentes pessoas, como é o caso de Edward, em Razão e sensibilidade, e de

Edmund, em Mansfield Park; em outras como alguém inconveniente, como o primo Bennet, de Orgulho e preconceito, e o Sr. Elton, de Emma. Elizabeth Gaskell vai mais longe e apresenta o pai da protagonista como um pastor que perdeu a fé. Embora nenhum dos autores se dedique a ressaltar a importância da religião na sociedade, destacam, de certa forma, os valores ditados por ela – como a castidade e a virtude femininas, a caridade e o matrimônio – e rechaçam os defeitos de caráter condenados pela Igreja – como a licenciosidade, a libertinagem, o ócio, os vícios, a ambição e a cobiça, a indiscrição, entre outros.

Aparecida Paiva, na obra A voz do veto – A censura católica à leitura de romances, analisa o manual de censura Através dos romances: guia para as consciências, do frei alemão, naturalizado brasileiro, Pedro Sinzig, que, em sua

última edição, de 1923, comentou 21.553 livros e 6.657 autores. O guia era dirigido à mulher, considerada a guardiã da moral e da fé católica na família, e estabelece metáforas, descrevendo o livro como um fruto sedutor e venenoso, as editoras como jardins profanos, os autores como portadores de venenos e as livrarias como árvores propagadoras dos frutos infectados. Sinzig buscou complementar ou atualizar o

Index Librorum Prohibitorum da Inquisição ou o Index da Santa Sé.

É importante ressaltar que havia também uma literatura oposta ao romance moralista, melodramático e sentimental. Um bom exemplo é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, que justamente satiriza o fato de as mulheres se iludirem com a leitura de romances de amor, ficando alienadas, e à mercê dos sedutores. Entretanto a sociedade não parecia preparada para tal obra, visto que sua publicação em 1857 resultou num escândalo, levando o autor até a julgamento.

Portanto, estudar romances pode significar compreender uma época, seus leitores, costumes, culturas e hábitos. A heroína pode ser o que a leitora espera de si mesma, ou o que a sociedade deseja para a mulher. Em parte consciente, em parte inconscientemente, o autor coloca em sua obra seu ideal de mundo, que dificilmente será diferente dos valores cultuados no momento histórico e cultural em que vive.