A expectativa de que a instalação de siderúrgicas independentes na Amazônia seria capaz de impulsionar o crescimento de outras empresas e aumentar o produto global da economia local, em conjunto com a noção de crescimento desequilibrado, fundamentava-se em concepções teóricas que preconizavam que, no tocante às dinâmicas de desenvolvimento, o necessário seria, em termos fundamentais, ampliar as taxas de crescimento econômico (produto, emprego e renda), de forma que desenvolvimento local se estabeleceria como conseqüência deste crescimento.
Dentre as inspirações teóricas para o crescimento e desenvolvimento regional, incluíram-se as noções de polos de crescimento de Perroux (1955) e a noção de crescimento
equilibrado e o desenvolvimento por efeitos em cadeia, de Hirschman (1985). Com base
nestas noções, pensou-se de forma equivocada que qualquer indústria – incluindo-se a indústria de base – configurar-se-ia como empresa-chave e motriz, que poderia contribuir dinamicamente para a estruturação de uma articulação regional, polarizando a região e, consequentemente, avançando da condição de atraso que a Amazônia vivia na época.
No processo de polarização, o crescimento seria permitido quando a intensidade das relações técnicas e comerciais entre empresas regionalmente localizadas fossem intensivas (PEALINCK, 1977). Os fluxos, as relações e a produtividade deveriam se ordenar de forma a se produzir circunstâncias que promovessem o crescimento e confirmassem a intensificação das relações técnicas e comerciais.
As circunstâncias produzidas pelas relações estabelecidas entre aqueles fatores desencadeariam desigualdades inter-regionais que, para Hirschman (1985), seriam pertinentes e inevitáveis aos polos de crescimento durante o processo de desenvolvimento, configurando, portanto, o que o autor define como crescimento desequilibrado.
Dentro deste escopo analítico, estas desigualdades provocariam pressões e tensões de crescimento entre outros pontos, na medida em que gerariam dissidências entre as populações envolvidas, acerca de suas necessidades e prioridades econômicas.
Os desequilíbrios apresentam-se, por inúmeras vezes, nos reflexos gerados pelas relações produtivas e fluxos estabelecidos entre os agentes econômicos, sob a forma de lucros ou perdas, crescimento ou atraso, ou outra situação que derive das relações econômicas engendradas por esses agentes.
Por outro lado, a geração de efeitos em cadeia poderia, supostamente, contribuir para a atenuação do problema das desigualdades regionais, pois produziria efeitos de cadeia
retrospectivos e prospectivos, contribuindo para o crescimento regional. Isso se daria, no caso
de Açailândia e Marabá, na intensidade das relações e investimentos com as empresas fornecedoras de insumos e serviços para as guseiras; e nos investimentos realizados no setor de produção e, também, na intensidade das relações com empresas consumidoras dos produtos.
Ocorre que em ambos os municípios estudados, a siderurgia independente só conseguiu produzir efeitos para trás, pois articulou somente fornecedores, contratados e sub- contratados para suas atividades, não apresentando a capacidade de gerar efeitos para frente, representados pela formação de um complexo metal-mecânico, através de investimentos de outras firmas na utilização da produção da siderurgia independente (output-using). A siderurgia integrada e semi-integrada, diferentemente, conseguem produzir os dois efeitos, pois há a utilização de seu produto, para diversos tipos de demanda.
Através do índice de Hasmussen-Hirschman, apresentado no Gráfico 1, é possível se visualizar que a siderurgia integrada e semi-integrada apresenta índices de 1,18 para trás e 1,86 para frente, demonstrando produzir ambos os efeitos.
Gráfico 1 - Índice de Rasmussen-Hirschman para setores industriais
Portanto, considerando as diversas formas de efeitos em cadeia, o sistema deveria ser capaz de, estruturalmente, gerar trajetórias alternativas (HIRSCHMAN, 1985) na direção do desenvolvimento das siderúrgicas independentes para que, na alternância equilibrada desses efeitos, o crescimento das atividades produtivas das contratadas e consumidores obtivesse vantagens econômicas.
A ideia de mecanismos de indução do autor mostra que o crescimento pode ser transmitido de uma região (ou firmas) para outra, de forma que os benefícios decorrentes do progresso técnico se estendem a toda a cadeia produtiva do setor e a setores próximos àquela cadeia produtiva. De fato, a transmissão desses benefícios ocorre (e ocorreu no caso da siderurgia em Açailândia e Marabá), mas a intensidade e a forma como ocorreram mostra que o progresso obtido provocou pressões, tensões e coerções que se irradiaram de forma positiva e negativa na socioeconomia local, caracterizando um processo de crescimento
desequilibrado.
Na visão dos planejadores, os efeitos provocariam o crescimento das atividades produtivas e da economia em níveis local e regional, onde os possíveis problemas que poderiam surgir não teriam impactos de dimensões extrarregionais, não tendo sido também considerados no escopo dos projetos de investimento. A incapacidade da população para mensurar tais problemas era um dos fatores que contribuía para o prosseguimento do planejamento, o que possibilitava a racionalização de recursos, e seu consequente uso insustentável, na execução dos projetos.
Dentro da concepção teórica de efeitos de encadeamento que capitaneou os objetivos dos projetos de investimento e o cenário desenhado após a implantação das siderúrgicas, destaca-se a contradição presente nos efeitos gerados regionalmente, os quais não tencionaram para processos sustentáveis e dinâmicos de desenvolvimento, tendo em vista que apresentaram assimetrias significativas, marcadas por degradações socioambientais e contrastes econômicos. Não obstante, a base do elo da economia regional com as siderúrgicas calçou-se sobre uma forma e estrutura de produção desligada de elementos de competitividade e tecnologia dinâmicos, com forte pressão sobre os recursos naturais e a força de trabalho.
5 AS ESTRATÉGIAS DE INDUSTRIALIZAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS PARA