Auslander-Reiten-teori
4.2 Auslander-Reiten-translasjonen og eksistens av nesten splitte eksakte sekvenser
Os projetos de “combate à pobreza”, como o PCPR-MA, inserem-se no contexto das políticas desenvolvimentistas, voltadas para a “modernização” de segmentos considerados atrasados, percebidos enquanto empecilhos ao desenvolvimento. Tem-se nesse contexto, as comunidades rurais e os povos indígenas como principais alvos dessas políticas.
Escobar (1996) utiliza o aporte teórico oferecido por Michel Foucault sobre a dinâmica do discurso para caracterizar o que ele denomina de “Invención del Tercer Mundo”, demonstrando como no processo de “reconstrução”47 do pós-guerra, os
Estados Unidos e os países euro-ocidentais industrializados construíram as noções de “subdesenvolvimento” e “pobreza”, aplicando mecanismos de controle nas sociedades latino-americanas.
Escobar (1996) utiliza esse recorte teórico-metodológico para apresentar a forma como a noção de desenvolvimento foi construída historicamente e os mecanismos para sua construção.
O discurso e as práticas desenvolvimentistas apresentadas por Escobar se assemelham ao discurso colonial, através do qual as populações atendidas pelos agentes do desenvolvimento são percebidas enquanto segmentos em situação de precariedade necessitando de salvação. Bhabha (1998, p.111) afirma que o discurso colonial:
É um aparato que se apóia no reconhecimento e repúdio de diferenças raciais/culturais/históricas. Sua função estratégica predominante é a criação de um espaço para “povos sujeitos” através da produção de conhecimentos em termos dos quais se exerce vigilância e se estimula uma forma complexa de prazer/desprazer.
Tanto o discurso quanto a prática do PCPR-MA se configuram com base nesse modelo “colonial-desenvolvimentista”, pois descaracterizam as diferenças existentes
entre segmentos muito específicos como comunidades rurais, povos indígenas e comunidades quilombolas, pensadas homogeneamente.
A descaracterização sócio-organizacional desses segmentos, que são postos pelo PCPR-MA como marginalizados e carentes de infra-estrutura, tem servido para a legitimação do que Bhabha chama de “sistemas de administración e instrución”, ou o que Escobar caracteriza como um “regimen de gobierno sobre el Tercer Mundo” (30).
Em torno dos grupos considerados marginalizados, forma-se um aparato de atenção envolvendo especialistas e práticas de controle e administração, no caso em questão da pobreza, visando o “combate”.
A política do desenvolvimento, e, nesse caso, a política de “combate à pobreza” do PCPR-MA, inserem-se num contexto racionalista ocidental que representa a realidade social como objetiva e universal, desprezando as construções sócio-históricas e simbólicas produzidas pelas sociedades.
Os gestores de políticas como o PCPR-MA operam através de uma racionalidade que no plano teórico é classificada por Semprini (1999) como “epistemologia monocultural”. Por essa perspectiva, todas as organizações sociais que fogem do padrão euro-ociodental são lidas como “atrasadas” ou “subdesenvolvidas”.
Semprini (1999) caracteriza essa epistemologia pelo “essencialismo”, “universalismo”, “igualdade” e “objetivismo”, e a põe em oposição à “epistemologia multicultural”, caracterizada pelo “construtivismo”, “relativismo”, “diferença” e “subjetividade”. O mesmo autor percebe que a utilização de uma perspectiva monocultural está enraizada em um padrão universal que descarta qualquer possibilidade de cosmovisões específicas.
No caso do PCPR-MA, os gestores operam com uma concepção universal de “pobreza”. No entanto, cabe questionar que concepção de “pobreza” cada um dos segmentos atendidos pelo projeto tem construído e que variações podem ser encontradas internamente. Quantas concepções de pobreza podem ser encontradas em um estado como o Maranhão, com diversidades regionais e étnicas?
Segundo Semprini (1999, p.33):
O universalismo não é assim somente um engodo, mas uma impostura e violência. Ele pode realizar-se somente eliminando-se a diferença, reduzindo ao silêncio as vozes
discordantes e transformando em obrigação universal o que é somente um ponto de vista particular.
A universalidade vem sendo atacada pelo seu caráter unilateral que despreza a diversidade. Nos moldes de Semprini, Lander (2005, p.26-7)) afirma:
Ao construir-se a noção de universalidade a partir da experiência particular (ou paroquial) da história européia e realizar a leitura da totalidade do tempo e da experiência humana do ponto de vista dessa particularidade, institui-se uma universalidade radicalmente excludente.
Percebe-se assim, uma continuidade entre o discurso do desenvolvimento e o pensamento evolucionista do século XIX. Sobre o pensamento evolucionista Copans (1974, p.26) afirma que:
Decalcando-se o modelo do evolucionismo biológico, buscam- se os estádios da evolução humana e, em conseqüência, as sociedades primitivas aparecem como antepassados naturais das sociedades ocidentais actuais. Trata-se de um evolucionismo unilinear, quer dizer, tal sucessão de estádios é necessária e obrigatória: por uma série de transformações passa-se do inferior ao superior.
Nas relações entre o Estado e as minorias nacionais48 e sociais, o princípio colonizador permanece. Observe-se que, no caso dos povos indígenas, opera o equivalente lógico que os classificou como “sociedades primitivas”, no período áureo do evolucionismo, e como “pobres”, no desenvolvimentismo49. Além disso, são
percebidos como inferiores política e economicamente e assistidos por programas que “visam” superar tal desigualdade.
A colonialidade (Mignolo, 2003) se apresenta de variadas formas. Por exemplo, através dos conceitos universais (pobreza, subdesenvolvimento, atraso) que impõem a realidades diversas, noções muito particulares e localizadas. Tais noções compreendem
48 Kymlicka, 1996
um conjunto de práticas que devem ser realizadas como forma de superar estágios e caminhar rumo ao crescimento, desenvolvimento, progresso...
No PCPR-MA, um dos instrumentos utilizados para medir a “pobreza” do público a ser atendido era a renda familiar50. Além da renda, salta aos olhos a
quantidade de projetos de infra-estrutura (74% do total dos projetos financiados) que foram financiados. A infra-estrutura (energia elétrica, fossa sanitária, estradas, sistemas de abastecimento d’agua), oferecida aos atendidos pelo PCPR-MA, estava baseada em uma concepção desenvolvimentista, incluindo também a transposição do modelo de vida urbana à segmentos sociais que podem ter outras necessidades infra-estruturais para sobreviver em seus habitats.
Percebe-se, inclusive, que no PCPR-MA os projetos produtivos (voltados para a geração de renda) e os projetos de infra-estrutura são interdependentes. Ou seja, o Estado tem procurado proporcionar os meios necessários à produção, escoamento e comercialização. Além de buscar “tirar” os segmentos sociais atendidos de uma possível situação de “exclusão”, o PCPR-MA seria uma forma de elevar a produção agrícola e pecuária no Estado, atuando não como um ato filantrópico, mas movido por muitos interesses que estão além do que foi proposto, ou seja, “tirar” os maranhenses da “pobreza”.