6 Overview of State of the Art
6.2 Audio and Video Conferencing
Os avós e, em seguida, os pais das entrevistadas emigraram entre as décadas de 1910 e 1930. Nessa ocasião, o Brasil vivia a experiência republicana. São Paulo, particularmente, crescia com base na produção cafeeira e nas políticas de proteção ao café.
Sabe-se que o início da cultura cafeeira se deu nas regiões montanhosas do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, esta área não era apropriada para este tipo de cultivo, que necessitava de clima e solo adequados para o seu desenvolvimento e, por este motivo, não gerou rendimento econômico satisfatório. Paulatinamente, ocorreu o deslocamento do plantio para São Paulo, inicialmente no Vale do Paraíba e posteriormente no oeste paulista. “A produção paulista, que correspondia a 16% do total nacional, por volta de 1870, já em fins do século atingirá a cifra de 40%.”73
A transferência da produção de café para São Paulo motivou o seu crescimento populacional. Desse modo, este Estado se tornou o centro econômico-financeiro dos negócios do café, e a cidade de São Paulo se tornou a sua sede administrativa. Santos, porém, permaneceu como o pólo comercial, já que era dessa cidade que partiam as principais vias de acesso e circulação. Além disso, as cidades presenciaram o advento do transporte ferroviário, que interligava as regiões produtoras ao porto de Santos, onde desembarcavam os imigrantes europeus.
Os meus avós [maternos] não ficaram em Bauru porque o fazendeiro, que contratou o meu avô, não cumpriu o combinado. Então ele pegou as suas economias, juntou a minha avó e vieram para São Paulo. Ele [o pai] sempre contava que desembarcou em São Salvador, na Bahia, que ele era um português baiano. A primeira aportagem dele foi na Bahia, se eu não me engano, a carteira modelo 19, dele, foi tirada na Bahia. E depois ele pegou
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EMPLASA. Memória Urbana: a grande São Paulo até 1940. Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2001. p.20.
o navio para o porto de Santos, onde a tia Glória foi buscá-lo e o trouxe para São Paulo, onde ficou até morrer [...]. A minha mãe veio com quatorze anos para o Brasil porque o meu avô mandou uma carta de chamada. Ela desembarcou em Santos, de onde foi conduzida pelo tutor até o meu avô, em São Paulo.74
As palavras desta depoente reforçam a dinâmica de proteção ao imigrante, bem como os seus problemas referentes ao acolhimento dos trabalhadores. Demonstra, ainda, a prosperidade e o destaque sócio-econômico de São Paulo.
[...] E aqui São Paulo foi o norte para muitos milhares que jamais o esquecem. Ei-los logo prontos – ao receberem o impacto desta metrópole e deste Estado que atraem como um imã de singular poder aglutinador e realizam o sonho de um país em cada dia – a tornarem-se partícipes entusiastas “do que falta fazer e jamais terá fim”. 75
Chega o emigrante pronto a sujeitar-se a tudo, porque do nada vem. É o integrante anônimo e apagado da imensa legião que em levas sucessivas, a um ritmo cadenciado e permanente por largas décadas, atravessa, decidido, o Atlântico.76
A imigração portuguesa teve como características a concentração nas áreas urbanas e a dedicação a serviços urbanos – como os desenvolvidos por calceteiros, motorneiros, cobradores e fiscais – e a atividades do comércio e da indústria. Em 1920, havia 65 mil portugueses no Estado de São Paulo, número que representava cerca de 11% do total da população. No Rio de Janeiro estavam instalados 172 mil imigrantes também desta nacionalidade, totalizando 15% da população.
Tenho saudades da São Paulo que encontrei, cidade amiga, tranqüila. Cidade com 579.000 habitantes em 1920; 1.320.000 habitantes em 1940, ainda não mudara a alma a sua maneira de ser, mesmo se o crescimento começara a ser vertiginoso,
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Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
75
VIDAL, Frederico Perry. “Biografia de uma Instituição Luso-Brasileira.” In: Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo (1912-1992). São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.47.
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intensamente rápido. Cidade que permanecera acanhada e pobre nos primeiros séculos e que, em fins do século XIX, tornara-se entreposto de café e, mais tarde, centro do comércio, de indústria, sede de bancos. Passara a ter atividade intensa e afã de progresso.77
Diante desses dados, pode-se inferir que o café proporcionou salários aos trabalhadores que se dedicaram ao seu cultivo e à sua distribuição. Este produto atraiu consumidores fora do seu núcleo gerador, extrapolando a zona rural e conquistando a zona urbana. Dessa forma, beneficiou principalmente a capital paulista, que, nesse momento, esboçava o início do processo de industrialização nacional.
Com a expansão da lavoura cafeeira, que favoreceu os saldos da balança comercial brasileira ao gerar recursos para novos investimentos no setor industrial, esforços foram empreendidos para a expansão dos meios de transporte, interligando as áreas agrícolas aos centros urbanos e instituindo
condições para um maior intercâmbio comercial.78
Depois da Primeira Guerra Mundial (1914/1918), a indústria brasileira passou por dificuldades geradas pela política intervencionista que propunha a elevação da matéria-prima e a diminuição dos manufaturados de produção estrangeira.
A valorização cambial facilitou os investimentos dos altos lucros obtidos durante o período bélico em equipamentos e maquinária. A valorização embutia uma política de ampliação de créditos que iria produzir um efeito positivo na retomada da expansão industrial.79
77
BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. Op. cit., 1992. p.166.
78
CARONE, Edgard. A República Velha I – Instituições e Classes Sociais. Rio de Janeiro: DIFEL, 1978. p.72-95.
78
Ibidem. p.166.
79
MATOS, Maria Izilda Santos de. Trama e Poder. A trajetória e polêmica em torno das indústrias de sacaria para o café (São Paulo 1888-1934). Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora Ltda, 2002. p.168-183.
Para a industrialização, era necessário algum tipo de protecionismo,
“identificado como o suporte ao crescimento industrial e ao desenvolvimento da
nação [...]. E as tarifas alfandegárias representavam a solução capaz de assegurar a sobrevivência das indústrias”.80
A partir de 1930, passou-se a considerar a atividade industrial superior a da lavoura e a do comércio.81 No âmbito econômico da década de 1930, o governo pôs em circulação cada vez mais crescente a sua intervenção, com o propósito de acelerar o processo de industrialização; contudo, as alternativas da economia de exportação não haviam se esgotado.
No decorrer da fase provisória, o governo Vargas acreditava que, de certa forma, os infortúnios gerados nos anos anteriores ao conflito mundial pudessem ser reorganizados. Portanto, as medidas tomadas serviriam para salvar
um sistema já existente, e não para empreender um novo sistema.82
Todavia, como inovação do período se sobressaiu uma espécie de paternalismo de reformismo social, oriundo da melhoria da classe média. Pretendia-se afastar uma crise política, e não ampliar o mercado para os artigos manufaturados, tampouco melhorar a qualidade das contribuições da mão-de- obra.
A queda do preço do café não fez com que o valor total das exportações diminuísse. Os danos eram compensados pela exportação de outros produtos que haviam melhorado de preço ou que estavam sendo vendidos em maior quantidade. A crise econômica foi evitada não porque o preço do café havia caído, mas porque os importadores brasileiros, sob a influência da provável elevação dos preços do café, haviam investido em estoques de proporções consideráveis.83 80 Ibidem. 81 Ibidem. 82
DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo (1880-1945). São Paulo: DIFEL, s/d. p.219-220.
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Buscando atender essa demanda em formação – que se encontrava insatisfeita com essa situação, mas, por outro lado, estava estimulada pelo grande número de imigrantes europeus que ampliavam o mercado interno e forneciam mão-de-obra e experiência aos nacionais – foram dados os primeiros passos nesse processo de industrialização, instalando-se algumas unidades fabris, principalmente no setor têxtil.
Era o momento crucial da mudança de uma cidade grande para uma megalópole intensa que crescia para todos os lados e para o alto. Viam-se belas casas serem derrubadas para dar lugar a apartamentos, sentia-se o pó das demolições e seu barulho: a cidade foi mudando diante dos olhos. A cidade crescia e eles (os portugueses empreendedores ou não) cresciam com ela, acompanhando seu gigantismo. Diversificaram suas atividades, do mesmo modo que se tornaram sempre mais variadas aquelas que foram surgindo na Paulicéia.84
Até mesmo o segundo conflito mundial (1939/1945) impulsionou a indústria paulista, que se caracterizava pela variedade de gêneros produzidos e respondia por cerca de 28% do total da produção brasileira, consolidando a sua liderança no país e na América do Sul. Porém, cabe ressaltar que os industriais se dedicaram mais a proteger os lucros imediatos do que a se aparelharem para o
futuro, já que não tiveram a preocupação de treinar técnicos ou engenheiros.85
Depois do conflito mundial, para não repetir a teoria do comércio liberal, o governo viu-se obrigado a contar com o capital estrangeiro nas condições por ele impostas, concluindo, de certa maneira, que os industriais não apresentavam
ao Brasil outra solução senão a sua própria crise econômica.86
84
BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. Op. cit., 1992 p.166.
85
DEAN, Warren. Op. cit., s/d.
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2.3 TRABALHO
Com o tempo, o meu avô passou a trabalhar na prefeitura, como chefe de pessoal que trabalhava no calçamento. Mas ele não era chamado de chefe, era chamado de feitor do calçamento... mas ainda mantinha a chácara de flores, que ele tinha orgulho, pois com elas ajudava a enfeitar a igreja aos domingos.87
Embora a cidade de São Paulo estivesse se modernizando rapidamente, atividades como o cultivo de flores eram mantidas. Ainda existiam “as chamadas pequenas oficinas caseiras, nas quais muitos portugueses exerciam atividades como carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, calígrafos, alfaiates, seleiros, gravateiros”.88 Havia também os que saiam às ruas para oferecer os seus serviços
[...] como empalhadores de móveis, manutenção e consertos de artigos domésticos, capinadores, jardineiros, lavadores em geral, pedreiros, pintores, leiteiros, verdureiros, peixeiros, floreiros, o “afiador” de objetos lâminados, tintureiro, baleiro, sorveteiro, doceiro ou o cesteiro de vime e os utensílios domésticos.89
As ruas da cidade favoreciam os trabalhos citados e, ainda, possibilitavam outros tipos de empregos, como os de calceteiros, que pavimentavam com paralelepípedos as avenidas e ruas principais, os de limpadores de ruas (atuais garis) e os de coveiros, entre outros. Uma vez que eram trabalhos diretos, estes serviços ficavam a cargo da Prefeitura Municipal.
Meu pai começou a trabalhar na Prefeitura. Ele contava que abria valas para enterrar as pessoas. Também comentava muito sobre a gripe espanhola, fazia valas porque morriam muitas pessoas e não dava tempo de fazer os caixões, então enterrava nas valas. Ele comentava que com o sereno da noite, não dava
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Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
88
MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e Cultura. História, Cidade e Trabalho. Bauru, SP: EDUSC p.78.
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AMERICANO, Jorge. São Paulo Naquele Tempo (1885-1915). São Paulo: Carrenho Editorial / Narrativa Um / Carbono 14, 2004. p.103-112.