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3 Adaptability to the Tactical Environment

In document 14-00943 (sider 21-34)

Quando retornavam ao seu país de origem, os portugueses encontravam poucas mulheres que ainda desejavam se casar ou mesmo constituir família, uma vez que muitas acreditavam ter passado da idade de ser mãe e outras se dedicavam a cuidar dos pais já idosos e dos irmãos mais novos. Por conseguinte, Portugal contava com um alto número de mulheres solteiras. Por outro lado, alguns regressavam com dinheiro suficiente para formar um novo agregado familiar ou comprar terras.

Os pais desempenharam um papel importante na escolha dos companheiros de suas filhas, exercendo grande influência na constituição de casamentos por interesse. Eram incentivados os matrimônios entre parentes, entre rapazes novos e mulheres mais velhas e entre homens solteiros e viúvas. Os casamentos entre parentes eram estimulados no intuito de se impedir a fragmentação das terras e de se manter os bens dentro da família, especialmente porque as mulheres tinham a mesma probabilidade de herdar os bens que os homens. Mesmo no decorrer do século XX, este fato se repetiu entre os primos de segundo ou terceiro graus, embora em menor número.

A possibilidade das mulheres serem herdeiras tanto quanto os homens tornava os casamentos entre primos economicamente interessantes. Do mesmo modo, as viúvas e as mulheres mais velhas, em geral, eram bons partidos para os jovens. Vale ressaltar que mesmo para aqueles que escolhiam livremente o seu par as considerações econômicas eram de vital importância e determinavam o momento adequado para o matrimônio.

No final do século XIX e início do XX, em Portugal, o celibato entre as mulheres era evidente, seja porque as noivas esperavam pelos noivos que nunca regressavam, seja pelo caráter patriarcal e pela dominação masculina da sociedade rural. Estas razões foram tão marcantes que as mulheres casadas não podiam emigrar sem autorização dos maridos e as solteiras com menos de vinte

e um anos sem a licença do pai. Quando se obtinha a permissão era para se deslocarem por pouco tempo para um local próximo, onde se dedicariam ao serviço doméstico ou ao trabalho agrícola. As leis de restrição à emigração feminina mantiveram-se em vigor durante várias décadas.

Em Portugal, as mulheres desempenhavam um importante papel nas tarefas agrícolas, umas porque assumiam o papel do marido emigrado ou falecido, outras porque tinham que auxiliar os pais a administrar os negócios. Nesse sentido, a mulher portuguesa tinha certa liberdade de movimentos fora de casa, sobretudo a mulher solteira com mais de vinte e um anos, a mulher casada com homem emigrado e a viúva, as quais exerciam grande influência dentro da família.

Lá, em Portugal, ela [a mãe] não vivia em cidades, mas em aldeias e a atividade lá era mexer com a terra, plantar, agricultura... Com a morte de meu bisavô, a bisavó passou a tomar conta da adega, que ficava na beira da estrada, lá ela organizava tudo e não deixava faltar nada. Os irmãos e irmãs lhe deviam obediência, e a minha mãe era tratada com muito carinho por todos, porque só havia adultos na casa, então ela era a menina da casa.50

A mulher detentora de poder econômico era prestigiada e respeitada dentro da família. O pai, por sua vez, preferia manter sua filha solteira o maior tempo possível, ou mesmo para sempre, no intuito de reter recursos econômicos. Muitas aguardavam o falecimento do pai para se casarem, sendo que algumas esperavam tanto que a idade passava, até que, quando finalmente poderiam se casar, não eram mais desejadas.

O casamento seria desejável ou mesmo viável por uma série de fatores sociais e culturais, mas o celibato feminino ou masculino também não era descartado. As mulheres que podiam se sustentar sem a ajuda de um marido, por meio do trabalho agrícola ou da herança de terras ou casas, consideravam o

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celibato econômica e socialmente viável. O Código Civil concedia um certo grau de autonomia às mulheres solteiras com idade superior a vinte e um anos, colocando as casadas inteiramente sob a autoridade do marido. Nesse sentido, o celibato era interessante do ponto de vista legal.

Nesse período, julgava-se que as raparigas que deixassem a casa paterna iriam se “perder” e se tornariam “produtos usados e usáveis”, o que inibia os jovens a se casarem com elas. Assim, a moça que pensava em se casar refletia muito antes de decidir emigrar. Por outro lado, o pai que se via obrigado a mandar uma filha para fora do país, para trabalhar, era uma prova de extrema pobreza, fato que a tornava ainda menos desejável como esposa.

Claro que, ao desencorajar o casamento das filhas, os pais agiam a favor da sua geração, assegurando, assim, a presença de alguém que cuidasse deles na velhice. Esta preocupação era prioritária em seus testamentos, que eram meios de poderem recompensá-las pelos seus serviços, legando-lhes o terço. Deixar o terço a uma filha solteira era uma manobra que fazia com que as terras fossem reunidas, ao invés de redistribuídas. As tias solteiras, por exemplo, favoreceriam um sobrinho ou uma sobrinha, em especial o que vivesse com ela desde criança e a estimasse. No caso da mãe de Clara, a sua bisavó, ao falecer, teria deixado uma parte dos seus bens para ela, que, no entanto, não aceitou a herança, o que gerou controvérsias entre ela e sua mãe (avó de Clara).

A bisavó, quando faleceu, no testamento, fez questão de deixar uma parte das terras para a minha mãe, mas como ela já havia se casado, ela não aceitou a doação, para o desgosto da minha avó. Depois disso, elas nunca se deram bem, porque a minha mãe não ligava para isso. Ela gostaria de ter voltado para lá e vivido com a bisavó, que ela considerava como mãe.51

A mulher, segundo demonstra a literatura, apesar de exercer grande influência sobre a família, sempre ocupou um papel secundário na sociedade

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portuguesa. Mesmo as feministas são percebidas como moderadas e pacíficas, não oferecendo “perigo” à primazia masculina. Até mesmo o direito da mulher ao voto só foi possível após uma longa trajetória de lutas, ocorrendo somente na contemporaneidade.

Os homens que em geral costumam ter opiniões diversas acerca de diversos assuntos e inúmeros argumentos com que gladiam inúmeras pretensões numa só coisa são unânimes e estão de acordo: negar à mulher o direito de voto. Uns compreendem que ela possa exercer todas as profissões liberais e manuais; mas mulher-política... abrenuntio para ser tão execrável. No que respeita ao trabalho, sim senhor, conceda-lhe esse favor: trabalhar no que quiser, mas não se lhe permitam opiniões e, menos ainda, que ela as manifeste.52

As idéias políticas seriam desenvolvidas e articuladas pelos homens a qualquer momento ou tempo. Entretanto, o comportamento participativo da mulher também no que se refere à política seria repelido, assim como qualquer manifestação feminina nesse sentido. Desse modo, sem a possibilidade de expressarem as suas conjeturas, as avós e mães das entrevistadas não gostavam de falar ou de saber de política, conforme relata Glorinha: “A minha mãe não gostava de política, ela fugia disto [...] ela foi ensinada a respeitar, a ajudar e obedecer ao marido, cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos.”53 No entanto, isto não significava que na prática não a exercitassem.

À mãe cabia, como em outras gerações, desempenhar o seu papel doméstico no lar e estar ao lado do seu companheiro. A este papel cabiam muitas críticas, pois se acreditava que a mulher, além de desempenhá-lo, poderia fazer muito mais, como, por exemplo, participar ativamente da política por meio do voto, como foi exposto nesse discurso:

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CASTRO E GOUVEIA, Aurora de. “Ainda o direito de voto na Alma Feminina, 1921.” In: SILVA, Maria Regina Tavares. Feminismo em Portugal, na voz de mulheres escritoras do início do século XX. Lisboa: Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, s/d. p.41.

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A mulher perante a vida social: para isso recordar-lhe-á o papel que tem a desempenhar na Família, na Sociedade, na Política, na Civilização em geral; evidenciará a sua poderosíssima influência educativa na alma das crianças que serão os homens e as mulheres d’amanhã; examinará tudo quanto represente um progresso na vida e na ação sociais da mulher em geral e da portuguesa em especial. 54

Todos, homem ou mulher, podem assumir o seu papel responsável diante da sociedade, que é a base de todo ser humano para desfrutar do bem comum, conduzindo uma crítica em relação à educação e ao comportamento ensinado e esperado da menina, em particular, porque a ela cabem os “deveres” domésticos, a preparação dos alimentos, enfim, a responsabilidade pelo trato da casa.

Em Portugal, a minha bisavó tinha uma adega na beira da estrada. Os viajantes paravam para se alimentarem, pousar, para depois seguirem caminho. A minha mãe, bem menina ainda [...] ia no moinho buscar farinha para fazer pão [...].55

Relendo este importante depoimento de Clarinha, que comenta sobre as atividades de sua mãe ainda pequena, em Portugal, e refletindo sobre os parágrafos anteriores, pode-se entender que a mulher, desde a infância, recebia uma educação distorcida e, quando adulta, compactuava com a inércia intelectual e dependente.

A ausência da alfabetização estava ou ainda está presente nas camadas inferiores e superiores, isto tanto no aspecto intelectual como no cultural. Este assunto conduziu ao seguinte comentário sobre a questão do analfabetismo em Portugal:

Publicou-se há pouco o último censo da população do reino. Pelo que respeita à instrução, os números são pavorosos. Deante d’esta cruel evidencia não pode restar-nos a menor ilusão, a

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OSÓRIO, Ana de Castro. “A propaganda feminista.” In: SILVA, Maria Regina Tavares. Op. cit., s/d. p.40.

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menor velleidade. Somos, de direito, o paiz barbaro da Europa [...]. Portugal é um paiz de analphabetos.56

As questões sobre o analfabetismo, o celibato, o casamento arranjado ou não, o feminismo, a educação formal, a religiosidade e a política passavam ao largo das bisavós, avós e mães das mulheres entrevistadas neste estudo, uma vez que viviam em aldeias muito distantes dos tumultos da cidade. Mesmo as que residiam nas proximidades do Porto poderiam não estar envolvidas nestas questões, conforme suas descendentes relatam: “A minha mãe [natural de Conselho de Macedo], ela não gostava de política, era mais romântica e familiar.”57 “Ela [a mãe, natural do Porto] nunca aprendeu nenhum ofício, só aquilo mesmo, tudo aquilo que uma mulher sabe fazer ou suponha-se que saiba,

como fazer uma comidinha, uma limpeza, costurar e bordar.”58

Portanto, mesmo sabendo que o trabalho era uma forma de emancipação feminina, apesar de também ser a sua maior opressão, unindo-se à autonomia pessoal, financeira e psicológica, a mulher acabava direcionando a sua vida para o aspecto afetivo, estando condicionada a ver no casamento o seu futuro socialmente aceito e o seu meio de subsistência.

A mulher, desde a mais tenra idade, recebia uma educação direcionada e, quando adulta, não se permitia ser independente. Porém, ao emigrarem, deixando para trás a família e a terra onde nasceram e cresceram, vivenciavam outras experiências e sentiam-se motivadas a exercitarem suas funções conscientemente, com lógica e justiça, gerando mudanças em seus comportamentos e para as suas proles. Dessa forma, por um lado, preservaram a cultura e as tradições e, por outro, adaptaram-nas de acordo com as mudanças que a nova terra lhes proporcionou.

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CAIEL. Comentários à vida. Lisboa: Parceria Antônio Maria Pereira, 1900. p.141. Apud SILVA, Maria Regina Tavares. Op. cit, s/d. p.51.

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Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2004.

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CAPÍTULO II - CÁ (BRASIL)

FIGURA 4 – Imagens que representam os avós, pais e tios das entrevistadas, reforçando, assim, os seus primeiros anos vividos no Brasil. Fonte: Álbuns de família das entrevistadas.

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