3.2 Numerical investigation of SPR on Au/TiO 2 systems
3.2.2 Au nanodisk embedded in TiO 2 nanohole arrays
Em Paraipaba, apresentei-me, em primeiro lugar, à gerente administrativa da ADICP. Após o bom acolhimento e esclarecidos meus propósitos, tive acesso a dois estudos produzidos por outra fonte, já que antes de chegar à área irrigada, à exceção das contribuições de Mônica Martins (2006; 2008), minhas principais fontes – mapas, depoimentos, dados de produção e discursos que conceberam o projeto – faziam parte do acervo documental do DNOCS.
Destacando problemas, como a tendência de envelhecimento dos colonos, ou de esvaziamento da mão-de-obra familiar, a constituição de famílias extensas, a proliferação de
novas ocupações, etc., os dois estudos intitulados “Marco Zero 25” e “Versão” 32, realizados
por técnicos da Associação dos Irrigantes, foram os primeiros documentos em que acessei informações sobre a vida dos colonos e que informaram, como se pode ver na tabela 2, não só rupturas, mas também continuidades nas tradicões dos agricultores familiares do Projeto.
A pesquisa intitulada Marco Zero 25 – Levantamento sócio-econômico do Perímetro Irrigado Curu Paraipaba64 foi a primeira que traçou um perfil dos irrigantes. Entre a diversidade de dados, alguns se mostravam valiosos em meu percurso analítico. Assim,
retive que de acordo com esse levantamento existia “uma discreta maioria de irrigantes com idade entre 45 e 65 anos, com 49,7%”. A mesma pesquisa destacava, ainda, como “significativo o número de irrigantes com idade entre 65 e 85 anos, com 30.0%”. Esses números, conforme o estudo, apontavam “para a necessidade de envolver os jovens na vida social do Perímetro” pois os irrigantes estavam envelhecendo e “perdendo gradativamente sua força de trabalho.” (ADICP, 2001, p.5).
Nos dados do Marco Zero 25, olhando a tabela 2, notar-se-á que, em 2001, numa amostra de 548 irrigantes, que representava 68.5 % da totalidade de famílias assentadas, 404 casas foram agregadas aos 800 estabelecimentos originais, configurando uma das tendências da agricultura familiar, que é a formação de famílias extensas, que consiste em um conjunto de unidades nucleares, agrupadas em uma única estrutura (WOLF, 1976, p.98).
64Contratados, em 2001, pelo Convênio PGE-04/99ADICP/DNOCS, visando a emancipação do projeto, os técnicos, logo de início, realizaram a pesquisa “Marco Zero 25. In: ADICP, 2001.
Nos dados do Marco Zero 25, olhando a Tabela 2, notar-se-á que, em 2001, numa amostra de 548 irrigantes, que representava 68.5 % da totalidade de famílias assentadas, 404 casas foram agregadas aos 800 estabelecimentos originais, configurando uma das tendências da agricultura familiar, que é a formação de famílias extensas, que consiste em um conjunto de unidades nucleares (Ver figura 4), agrupadas em uma única estrutura (WOLF, 1976, p.98).
Foto 2. Três unidades nucleares agrupadas em uma única estrutura: o quintal residencial
Não obstante a pesquisa registrasse que 70.0% dos irrigantes utilizavam, regularmente, mão-de-obra de terceiros, o elevado adensamento populacional do projeto, marcado pela ampliação das famílias de irrigantes abria espaço para, além da visão de esvaziamento da mão-de-obra familiar, se pensar em descontinuidades nas estratégias ocupacionais entre diferentes gerações.
Seis anos passados, os resultados do estudo “Versão 32”, de 2007, mostraram que 29,0% dos titulares de lotes tinham entre 55 e 65 anos e 38,0% entre 65 e 85 anos, dados que, comparados ao estudo anterior, revelaram um aumento de 11.0% na população idosa, já que à época apenas 29,0% dos irrigantes tinham idade superior a 65 anos.
Por outro lado, revelou um processo de intensificação do adensamento populacional no interior das unidades domésticas, que como mostra a Tabela 2, passou de 404
construídas, em 2001, para 450, em 2007. O número de novas casas pode ter sido ampliado, se considerarmos que a pesquisa de 2001 contou com uma amostra que representava 68.5 % do total de titulares de Unidades Domésticas. Já em 2007, por recusa de participação, esta amostra caiu de 548 para 505 respondentes.
A segunda pesquisa trouxe um dado pioneiro para fortalecer o argumento de não esvaziamento da força de trabalho familiar do projeto, já que mostrou que as famílias expandiram-se para áreas contíguas aos lotes e quintais, as chamadas “áreas
mortas”65
. Nessas áreas, que embora marginais, pertencem ao Perímetro Público Irrigado, a população foi estimada em 3.980 pessoas, distribuídas em 979 residências.
Além disso, no interior das Unidades Domésticas, os dados mostraram a predominância de uma população jovem: 39.7% situada na faixa de 0 a 15 anos de idade e 32.2 % na faixa entre 15 e 35 anos (ADICP, 2007, p. 70 -72). O achado dessa população
jovem, deduziu a pesquisa, “demonstra que o perímetro possui uma mão-de-obra potencial”,
contraditando o que concluiu o estudo anterior de que a predominância dos idosos representava a perda da força de trabalho familiar.
Se, conforme mostram os dados, os filhos e netos permanecem agregados às suas estruturas de origem no interior das UD´s ou em “áreas mortas”, por que então 70.0% dessas unidades utilizam mão-de-obra de terceiros? O que persiste e o que se revela como descontinuidade no processo de aprendizado e de sucessão profissional nessas unidades de produção familiar? Onde estão e o que fazem as novas gerações de agricultores familiares? Que condicionantes internos ou externos ao estabelecimento familiar concorrem para ruptura de uma tradição, na qual, sob a orientação da autoridade paterna, as novas gerações (Martins, 2001) apropriam-se, desde a infância e ao longo da vida, de um saber, que as fazem profissionais altamente qualificados para a agricultura familiar?
Com efeito, as questões suscitadas a partir desses dois estudos evocavam a busca de novos caminhos de indagação e de verificação. Caminhos que pudessem trazer à baila, não apenas o que está nos relatórios oficiais do DNOCS ou da ADICP, mas a natureza do problema, na percepção que dele tem quem por ele é vitimado, pois como virtuosamente é lembrado por Cândido (1977, p.19) o sociólogo, em seu ofício, “fareja por toda parte o humano, no que tem de próprio a cada lugar, em cada momento, desce então ao pormenor, buscando na sua riqueza e singularidade um corretivo à visão pelas médias, daí o apego ao
qualitativo”.
65 As “áreas mortas” constituem-se de pequenas áreas intercaladas aos quintais e lotes dos oito setores do Perímetro, consideradas sem ou de baixo potencial para irrigação.
A opção que fiz de morar em Paraipaba guardava essa intuição, ou seja, o imperativo de enredar-me no cotidiano do Projeto de Irrigação, buscando, como dizia
Cândido (1997) na riqueza e singularidade das minúcias locais “um corretivo à visão
pelas médias.” A rigor, devo admitir que o acesso aos dados empíricos das pesquisas oficiais constituíram-se uma primorosa porta de entrada para, de um lado, enxergar a continuidade de uma das tradições da agricultura familiar que é a constituição de famílias extensas e, de outro, estranhar no universo ampliado dessas unidades domésticas, a quebra de uma outra tradição da agricultura de base familiar que é a sucessão profissional na atividade agrícola.
Entretanto, para perfilar essa oposição entre permanências e rupturas nas tradições da agricultura familiar, o mais insinuante eram os colóquios informais com comerciantes, empregados da prefeitura, do DNOCS, da ADICP e de algumas empresas agroindustriais acerca dos problemas do projeto, da agricultura local, das oportunidades de trabalho, da vida de agricultor, do futuro dos filhos etc. Sobre essas mesmas questões, e com a mesma informalidade, conversava quase que diariamente, com os irrigantes e seus familiares.
A organização dos diálogos variou entre pequenas anotações em cadernetas, registros nos diários de campo e gravação de depoimentos. A transcrição e leitura dos depoimentos evidenciavam, no confronto de opiniões, um consenso quanto à decadência do projeto atribuída, em maior grau, aos problemas ligados à sucessão. Já quando confrontadas em relação às possíveis causas, diferentes compreensões apontavam oposições.
Na opinião de técnicos do DNOCS a perda de vigor do projeto deve-se à acomodação de sua gente. Os técnicos da ADICP concordavam com isso, mas reputavam ao DNOCS a criação dessa e de outras mazelas. Na mesma direção o Pe. Pascoal66 faz a mesma referência, mas com o entendimento de que não se tratava de uma ação isolada do DNOCS, mas de sua inserção em uma malha institucional67 arquitetada para viabilizar a produção de álcool no Vale do Curu. Sem que aludisse ao fenômeno da acomodação, para ele, a obrigatoriedade de transformar agricultores de
subsistência em colonos produtores de cana subverteu uma cultura de labor diário “sol
66
Pe. Pascoal, pároco de Paraipaba, na implantação do projeto contou que os colonos enfrentaram a AGROVALE, e lutaram pela emancipação de Paraipaba e pela a instituição da Paróquia.
67
Compunha esta malha, além do DNOCS, o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste, o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e, da iniciativa privada, a AGROVALE. Os agentes financeiros só liberariam o financiamento se condicionassem as terras dos colonos para produção de cana.
a sol” em favor de uma outra que fomentava a ociosidade, pois o cultivo da cana os
ocupava por apenas três a quatro meses durante o ano.
Por seu turno, os depoimentos dos Irrigantes de Origem (I.O)68 têm um tom
contestador. Retrucando a pecha da “acomodação” que lhes tem sido facultada, eles
retorquiam: como poderíamos ir além da cana se tudo era proibido? O DNOCS ditava
as normas. „O que‟ e „para quem‟ plantar não era uma decisão dos colonos. “Era tudo controlado”. Alguns poucos que ousaram transgredir, passaram pelo desconforto “de ver o trator destruir seus campos de feijão florando.”69
De fato, a experiência do perímetro não parecia proverbial para que as novas gerações sucedessem aos pais no trabalho agrícola. Os plantios de laranja e de tomate, no começo do projeto, que poderiam ter proporcionado ocupação para os filhos, fracassaram. No caso do tomate, a CIVAC não precedeu ao plantio um estudo de mercado, tendo como consequência uma supersafra, parte dela jogada na BR 222, enquanto o plantio da laranja que inspirou-se em um modelo do Japão, não vingou nessas terras do semiárido brasileiro.
Outro contra-senso na formulação do projeto diz respeito ao peso, como um dos mais importantes critérios para ser aceito como colono, o fato de ter um maior número de filhos, principalmente homens.70 Era de todo incompreensível a ideia de recrutamento de um grande contingente de mão-de-obra para trabalhar no “tempo da
cana”71, quando não se tinha atividade durante o ano inteiro. “De fracasso em fracasso”, como diziam, o projeto ia perdendo seu vigor.
Assim, os desejos da terceira geração iam mudando. Quando veio a “febre do coco” os tempos eram outros. Mesmo assim, deu-se continuidade a uma
monocultura que, embora requisitasse cuidado o ano inteiro, era insuficiente para empregar tanta gente. Mesmo desfrutando de um pouco mais de liberdade, as unidades agrícolas eram pequenas para ampliar e diversificar a produção. Além disso, os pais não mais podiam levar os filhos para trabalhar, tendo em vista a política de proibição do trabalho infantil, pela Constituição Federal de 1988.72
68 A categoria Irrigantes de Origem (I.O.) refere-se aos chefes de família que chegaram, a partir de 1975, e permanecem até hoje. Alguns mais velhos já traziam filhos rapazes e moças que aqui casaram e conseguiram ser selecionados, pois o projeto levou mais de 10 anos para ser concluído. Trato, portanto, de famílias trigeracionais. 69Pé-de-Leão, irrigante do Setor D2, chegado ao projeto em 1980, foi um dos vitimados pela ação autoritária do DNOCS, tendo o campo de feijão destruído por tratores. Indagado, ele disse: fiquei sem ação, eu só num tô morto porque num acreditei que eles tivessem coragem de passar o trator num plantio de feijão florado.
70As fichas de irrigantes, apêndice de n. 2, mostra os critérios para admissão de um irrigante.
71É corriqueiro no projeto uma divisão do tempo marcada pelo “tempo da cana” e “tempo do coco”. Quando se trata do tempo da cana, muitas vezes se complementa como o “tempo da ditadura”.
72O Artigo 7º, XXXIII rege a proibição do trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos.
A implantação da cultura do coco, ampliou as esperanças de ocupações, fosse pelo emprego em atividades como decascadores e apanhadores de coco, fosse pela expectativa de trabalho nas nascentes indústrias de beneficiamento. Por outro lado, Paraipaba, sede do município, crescia, ampliando as ofertas de empregos para os mais jovens, especialmente nos serviços públicos73, no comércio, nos transportes e nas atividades ligadas ao turismo.