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5.4 Atomhendelse

essencial que haja amor pelo universo, que haja gosto da vida e que existir seja um perpétuo entender e extasiar-se perante o que a vida pode ser e para tão raros tem sido, já que ser pobre estraga a existência do pobre, a material e a espiritual, e já que haver pobres estraga, mesmo sem que ele de tal se aperceba, a existência do rico, a espiritual decerto e a material também, pois que, mesmo que pareça o contrário, inseguro anda e inquieto e com medo de sombras” (2001, TE, p. 306).

Pensar é, com Agostinho da Silva, um acto de amor que exige uma nova concepção de inteligência, de uma inteligência indesligável da acção moral e ética. A inteligência não pode ser separada do amor, como o pensamento não pode ser separado da caridade. Impensável é, para Agostinho, a existência de um filósofo que não ame e que apenas procure pensar o mundo abstractamente, que se pretenda alhear da miséria concreta desse mesmo mundo, bem como do sofrimento de todos os seres.

Aquilo que possamos entender por luxúria do pensamento, melhor, do “querer parecer pensar”, é contrário ao exercício vital do efectivo pensar, do pensar que é acontecimento íntimo, como propõe Paula Cristina Pereira50 ao defender um saber que nunca se deixe de surpreender, como manifestação da espiritualidade humana, porquanto este não pode ser tomado por qualquer ortodoxia de pensamento, de comportamentos ou de modus vivendi. O pensamento nunca pode ser alheio à capacidade de se surpreender com o mundo, tal defende Paula Cristina Pereira, como também defende Agostinho da Silva, segundo o qual teremos de re-aprender a olhar para o mundo como o fazem as crianças.

Um determinado conhecimento não pode querer tornar-se ciência fechada (de fachada), legal, que já não se admire com o mundo, que apenas o queira prever para dominar. Porque, como defende Agostinho da Silva, esse é um conhecimento já morto, que não serve ao intento criador que todo o humano traz consigo.

Pensar é des-encobrir o óbvio, é cuidá-lo a uma nova luz. “Des-encobri-lo” e “descobri-lo” tirando-lhe a capa torpe do hábito, e aí deixará de ser óbvio e passará a ser possibilidade de acontecimento. No acontecimento algo rompe e irrompe, algo fica dilacerado e algo se descobre a nova luz. É como um movimento simultâneo de vida e de morte, em que um elemento é aparentemente deixado para trás e um outro o ultrapassa de algum modo. Mas não esqueçamos que uma revelação implica uma segunda velação, um velar, um esconder, o aparecimento de algo que se dá e que, nesse dar-se, se esconde num jogo desafiador de luz-sombra. Esse jogo é o jogo da realidade que Agostinho da Silva sempre procurou defender contra o cousismo generalizado do pensamento moderno51, sempre referindo que as nossas categorias não podiam ser

50 “O pensar como com-padecer é, como “sentiu” Pascoaes, perceber/intuir em empatia

ontológica; persistir pelo pensamento poético, num pensamento provocado e surpreendido pelo acontecer”(Pereira, 2006, p. 53). Sendo que compadecer é estar em ocasião de possibilidade de partilha na criação e compreensão de visões/criações de mundo; é resistir em/pela criação segundo a autora. Assim, pensar surge-nos como convocação, como com-padecer, aproximando a ontologia a uma dimensão relacional, da implicação afectiva, da profundidade estética (cf., id., ibid., p.55).

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pretensiosas ao ponto de querer exaurir a realidade no seu todo, querendo desapropriá-la de toda a sua graça (dom), que é o mesmo que dizer: imprevisibilidade. Até porque aquilo que tomamos por realidade pode ser ficção52, movimento. O importante é não ter uma concepção estática da realidade, para que estejamos sempre disponíveis para o seu desafio ontológico.

A vida é inseparável do conflito53, da incerteza, do sofrimento, da dúvida, nela (e não face a ela) a atitude sapiencial, por hipótese, deve ser a de nunca se conformar com o dado, mas criar possibilidades sempre novas, possibilidades de renascimento(s) próprio(s) e de outros (sendo que o outro nunca é o alheio), todavia, ressalva Agostinho da Silva, importa não violentar o acontecer segundo a recta impressão das nossas mais íntimas obsessões, pelas palavras de José Navarro a Luís : “(...) não force nunca; seja paciente e pescador neste rio do existir. Não force a arte, não force a vida, nem o amor, nem a morte. Deixe que tudo suceda como um fruto maduro que se abre e lança no solo as sementes mais fecundas” (Silva, 1999-a, SCJF, p. 255). Importa também nunca renunciar à vida, pois o sofrimento é condição de possibilidade do crescimento próprio com certezas que deixem espaço para a possibilidade da dúvida porquanto, por exemplo, em Considerações Agostinho da Silva, aforisticamente, sustenta que não é desejável que se saiba a verdade sequer54. Para afirmar tal, serve-se de uma personagem que presenciou um milagre de Jesus e que agora sabe a verdade, sabe que existe de facto um além-mundo que castiga os prevaricadores e salva unilateralmente os Bem Aventurados (segundo uma determinada concepção de bondade), que então afirma: “Que me resta fazer se tudo sei e tenho? (...) A incerteza criadora me sustentava e alentava; a verdade matou-me”(1999-a, p. 116)55.

Em questão põe Agostinho da Silva todo um modelo de racionalidade próprio da mentalidade moderna, regido, afinal e ironicamente por ídolos56: pelo ídolo da utilidade, da obsessão pela produtividade própria de uma sociedade que confirma o “Império do

52 “(...) supor que tudo não é mais que imaginário, que os sábios e nós com eles traçamos sobre

uma realidade que nos escapa uma coerente fantasia, tão solidamente entretecida que até dela produzimos a técnica, talvez sonho também, e até nem sonho que sonhamos, mas sonho que nos sonha quem ou o que a nós nos sonha” (Silva, 1999-b, PFP, p. 317).

53 “Você vai um dia, como filósofo, arranjar explicações subtis e poderosas, sistemas que o

explicam e o resolvem: mas o conflito permanece ” (Silva, 1999-a, SCJF, p. 236).

54 “O que chamamos verdade/ É coerência inventada/ Por um saber que imagina/ Que sabe e não

sabe nada” (Silva, 1997, QI, p. 85).

55 “Parece, por vezes, Diotima, que tomaste de Sócrates e de outros que te visitaram um gosto da

verdade que só te pode ser fatal” (Silva, 1999-a, CD, p. 149). A verdade, uma cristalização da verdade é inimiga do efectivo pensamento como da vida, segundo Agostinho da Silva.

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Bem-Estar”, do racionalismo estreito, da ânsia de claridade e transparência57, da vontade de domínio pelo cálculo matemático, do mecanicismo, do utilitarismo, do tratar instrumental (S-O) com o mundo. Põe em questão e propõe, ao longo das suas considerações, um saber que vá para além da racionalidade no sentido estrito, um saber de uma razão que não se interesse só por si própria e se queira constituir como sapiência.

O resultado desta concepção moderna de mundo, após alguns séculos de evolução, afigura-se numa sociedade em que o marketing dita regras na cosmovivência quotidiana, em que a publicidade formata e “con-forma” mentes e as “des-(in)forma”, em que os media, ao disponibilizarem massivamente a informação, não se preocupam com a difusão de honestos métodos de gestão e de análise crítica dessa mesma informação, não actuando assim como educadores das consciências e dos povos, muito pelo contrário, podendo mesmo ser considerados como agentes culturais de desinformação e deformação das massas.

Deveremos sempre questionar a realidade, aquela que tomamos como guia do nosso existir, como condição de possibilidade de acção, quando no-la apresentam como já-dada no sentido normalizado, já vivido, sentido, no fundo, morto; devemos, a todo o momento, tentar sair da menoridade intelectual e ontológica que já Immanuel Kant denunciava no seu texto O que é o iluminismo? (cf. Kant, 2004). O pensamento deve enfrentar-se à vida na vida, deve ser ele-mesmo vida e não tentativa obsessiva e sintomática de a querer negar ou vencer, numa força tanática contra todas as forças vitais.

Pensar opõe-se, assim, à esterilidade do extremo intelectualismo em que, por vezes, determinados pretensos pensadores incorrem, em que pelo pedantismo esquizofrénico apenas se confirma peculiarmente um movimento de exclusão que arrasta consigo o peso da pobreza e do tédio de não se considerar nada para além do que se toma por objecto de estudo. Ora, não será isto um sintoma do tratar técnico com o mundo, separar para vencer – estratégia e técnica de guerra definida pelos romanos? Pensemos então que a destreza técnica não exaure toda a cultura, nem toda a inteligência (intus legere). Reitera-se, deste modo, um acto sempre revisitado da prepotência de um ego insular que denuncia sintomaticamente as suas próprias fraquezas, suas aspirações a rei numa ilha deserta de emoções, sentimentos, vida,