preguiça e a cobardia são as causas porque os homens em tão grande parte, após a natureza os ter libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e também porque a outros se torna tão fácil assumirem-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. ” Numa sociedade que se organiza dualmente por aqueles que ordenam e por outros que obedecem de bom grado e sem questionar, as aporias do espaço público estão minimizadas e até em grande parte solucionadas. Mas essa sociedade nunca poderá ser denominada como sociedade de pessoas livres, nem poderá ser dito que a política, a sua assunção, está a ser levada a cabo, por todos e por cada um. Como poderá existir uma sociedade em que as pessoas não exercem o seu livre pensamento? Será possível imaginar uma sociedade assim? Ou quando nela pensamos vemo-nos a olhar no espelho da nossa precariedade existencial, o nosso próprio espelho?
uma sociedade em que as regras fossem assumidas desde dentro, ou seja, que não houvesse a necessidade de serem impostas pelo exterior, o que é uma forma de violência e uma clara evidência de que a humanidade ainda não chegou ao estádio superior do amor e da compreensão, bem como da fraternidade.
No que diz respeito à democracia, mais directamente, muitas vezes se afirma a importância do exercício do tolerar como o verdadeiro exercício democrático por excelência, mas esquecemos que no tolerar há sempre uma atitude de sobranceria e desprezo: “No tolerar, somos nós os deuses e consentimos que haja, lá muito abaixo de nós, um mesquinhos seres insignificantes que não têm nem a nossa beleza, nem a nosso inteligência, nem a nossa imortalidade, nem se alimentam como nós de ambrósia e néctar, nem ouvem como nós a música de Hermes, na sua lira roubada. E quando nem sequer temos a certeza de que os outros nos sejam inferiores; inferiores porquê, inferiores em quê? Não sabem matemática? Talvez saibam viver, que é mais difícil. Não entendem Filosofia? Talvez sonhem, o que é mais belo. E talvez respondam à nossa tolerância com um amor de que nós, apolíneos, não seremos capazes ” (Silva, 1999-a,
SCJF, p. 259). Respeitar a opinião do outro não é tolerá-la, é ouvi-la e tentar
compreendê-la, acolhê-la, acolhendo também a estrutura conceptual e vivência do mundo do outro. Esta é a atitude sapiencial que Agostinho da Silva defende e que é um acto principal na renovação das acções no que diz respeito à dita comunidade intelectual. É sobretudo um acto de amor que se deve propagar a todo o acto político na construção de uma comunidade fraternal.
Algumas questões ficam em pano de fundo. O que se pode decidir a votos? A vontade da maioria? A vontade da maioria é o que é melhor para a maioria? – de entre todos os regimes a democracia é o “melhor de entre os piores”, expondo-se por vezes os seus trilhos a meros jogos partidários de interesse económico, não sendo afinal o exemplo da soberania do povo (mesmo esta ideia de soberania do povo, não é na sua essência democrática), não defendendo a igualdade de direitos e muito menos a liberdade individual. O desafio contemporâneo consiste em detectar no quotidiano presente as subtilezas que dão e vão dar origem a novas formas de dominação, de totalitarismo, de barbárie, de privação de liberdade das pessoas, que ainda limitem mais o exercício democrático como o exercício necessário nas nossas vidas.
Pelas palavras de Agostinho da Silva: “Ora a democracia cometeu, a meu ver, o erro de inclinar algum tanto para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os príncipes e ter constituído em cada um dos cidadãos um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo
declarava seus iguais” (1999-a, DA, p. 228). Assim, as pessoas tomaram para si os direitos de igualdade jurídica para constituirem-se pequenos ditadores com gostos egoístas, desvalorizando a comunidade e não percebendo que o desenvolvimento geral da comunidade é condição, também, para o desenvolvimento próprio de cada um.
Para que este desenvolvimento geral aconteça é necessário então a construção de uma sociedade que seja antes de mais uma comunidade, ou seja, que pretenda estabelecer-se com valores de fraternidade e união tendo em vista a melhoria de condições de vida de todos os seres humanos. A política, deste modo, torna-se uma missão de santidade, santidade da qual falaremos no passo seguinte.
3.4.1 − Política e santidade: “Céu” e “Terra” unidos
Para Agostinho da Silva, a política começa no esforço de cada um por se melhorar a si próprio, aos outros e ao mundo. É, também, uma via crucis, ou seja, exige-se sofrimento, esforço para que se reconquiste a plenitude, estando esta via alheia a qualquer interesse particular ou partidário (sectarista, portanto). Esta difícil via é a via do amor que serve, da caritas própria a todo o humano (ao humano visto como projecto), é missão sagrada. E por aqui bem vemos a união reconhecida entre política e o ideal de santidade que o protestantismo procurou separar. Vemos também as influências do profetismo e das visões escatológicas da história presentes, por exemplo, nos textos bíblicos, que impregnam as considerações agostinianas e a sua visão de mundo.
A visão da história agostiniana é uma visão escatológica, diferindo crucialmente das típicas visões teleológicas e providencialistas mais difundidas no panorama intelectual do Ocidente, uma vez que pela transformação íntima de cada um é possível, desde já, concretizar o telos, o tempo a vir de plena realização para todos os seres e para o
cosmos. Essa vinda só será completa quando completa for a reintegração no todo e a
superação das consciências dualizantes, assumindo-se uma realidade trans-antinómica em que o sonho e o lúdico superam o que normalmente se toma como realidade. Essa vinda afinal é uma chegada: a chegada de cada um a si mesmo.
O paracletismo de Agostinho da Silva não é um paracletismo de um além-mundo inatingível nesta vida, outrossim é um apelo ao treino pessoal para que todo o cosmos se reconcilie com a sua condição sagrada, para que o homem se reconcilie com as plantas e os animais que escravizou pela técnica. É um apelo para não se separar de todo
o seu irmão, do seu destino. A política, como a economia e a educação não são fins em si, mas apenas meios para uma vida plena, superior. São meios de libertação individual e colectiva84. A economia tem de deixar de ser competitiva e inumana, a política tem de se libertar do exercício do poder e do domínio para “servir” a libertação do mundo, sendo ajudada pela educação, como meio para a libertação de todos os seres.
A realidade passa a ser mais tomada como ficção85 e não como realidade estanque, o jogo será mais valorizado que o trabalho e a criança será o modelo a seguir, como modelo de liberdade, que não toma a realidade como segura nas suas estruturas, estando sim em constante descoberta. O humano deve desenvolver todas as capacidades possíveis, não permitindo que nenhuma faculdade exerça tirania sobre outra, não separando também o seu destino do destino dos outros seres, uma vez que cada ser é expressão do divino, a seu modo. A cosmo-responsabilização do humano permitirá uma reintegração no todo, a superação de uma consciência voltada sobre si e indiferente ao sofrimento alheio, do qual afinal é sumamente responsável.
Agostinho da Silva aproxima duas dimensões que para a maioria são antagónicos: a política e a santidade. A missão do político, homem de ampla alma86, é servir num caminho paciente e lento, tentando resolver os problemas que possam surgir, não impondo meras soluções técnicas, mas propondo possíveis soluções, tendo sempre presente que antes de tentar mudar o que pensa como errado nos outros, deve fazê-lo consigo próprio, afastando-se do gosto pelo poder e do populato: “(...) a acção só vale quando é feita como um exercício, e um exercício com amor, quando é feita como uma ascese, e uma ascese por amor de que se liberte o Deus que em nós reside. E se acção implica amargura, o que há a fazer é mudar de campo: porque não é a acção que estará errada, mas nós próprios” (Silva, 1999-b, AP, p. 63).