• No results found

Historicamente (ver Figura 6), a abordagem às questões da qualidade tem evoluído de uma óptica de inspecção, na tentativa de evitar que produtos defeituosos sejam entregues ao cliente, para um modelo que usa a qualidade dos processos como forma de fornecer ao cliente um produto de qualidade. Mais recentemente, é crescente o reconhecimento de que, uma abordagem mais efectiva passa pela integração, da qualidade dos processos de fabrico, com metodologias que enderecem especificamente a qualidade do produto, pois só dessa forma é possível implementação de um sistema de qualidade verdadeiramente efectivo.

Figura 6: Perspectiva Histórica da Qualidade

9

9

A Norma ISO 9000-3 deriva da Norma ISO 9000 apresentada em 1987, sendo a adaptação desta às especificidades da qualidade do software; A norma ISO 12207 explicita um processo de qualidade relativo ao desenvolvimento de

42

No âmbito do desenvolvimento de software, e no contexto da banca portuguesa, o que na prática se constata é que, a maioria das instituições, dispõe de um processo de qualidade centrado na existência de um departamento de qualidade, responsável por testar os novos produtos ou as alterações efectuadas em produtos existentes, com o intuito de prevenir problemas no ambiente de produção. Trata-se na prática, de um processo de inspecção inspirado no modelo de desenvolvimento em cascata, e que tem como principais inconvenientes: o custo elevado para a manutenção de um ambiente de qualidade, que nunca consegue replicar devidamente o ambiente de produção; o constituir-se como um estrangulamento no processo de desenvolvimento, e; o não ter em consideração as questões de qualidade relacionadas com a satisfação das necessidades dos utilizadores.

A estes problemas alguns bancos respondem com limitações ao processo – p.ex. só enviando para qualidade as aplicações mais críticas. Apercebendo-se que, na complementaridade e interdependência dos sistemas informáticos actuais, tal processo poderia ter efeitos negativos na estabilidade e fiabilidade do ambiente de produção, algumas instituições fazem acompanhar esse processo de restrição, pela criação de um ambiente de produção restrito, onde “correm” as aplicações críticas, distinto do ambiente de produção normal, onde “correm” as outras aplicações.

Tal solução, que se preocupa unicamente com as características intrínsecas do produto e suas interdependências, para além de representar a constatação da incapacidade para manter um efectivo sistema de controlo de qualidade, não resolve a questão fulcral inerente ao próprio conceito de qualidade, i.e. “A qualidade é o conjunto de características de uma qualquer entidade que lhe conferem a capacidade de satisfazer necessidades explícitas e implícitas” (ISO 8402).

Paralelamente, a maioria das instituições tem avançado com acções de melhoria de qualidade em termos de processos. Sendo uma condição necessária, na medida em que processos maduros e devidamente implementados e institucionalizados, estão na base de produtos de qualidade, como as próprias metodologias – CMMI e PMBOK – preconizam, não é suficiente. Ambas as metodologias analisadas preconizam que, para assegurar a qualidade é necessária uma abordagem integrada da qualidade dos processos e da qualidade do produto. Para além disso, ao distinguirem Controlo de Qualidade (Área de processos de verificação) e Assegurar a software contemplando extensões específicas adaptadas às Boas-práticas em vigor nos EUA; A primeira versão do CMMI surge em 2002 agregando uma multiplicidade de metodologias que foram sendo desenvolvidas de 1987 a 1997; O SPICE (ISO /IEC 15504) é a resposta Europeia ao CMMI.

43

Qualidade (Área de processos de suporte), permitem uma clarificação em relação aos objectivos e às práticas relacionadas com a qualidade;

Tanto o PMBOK como o CMMI são bastante genéricos nas questões relacionadas com a abordagem à qualidade do produto, limitando-se a enunciar conjuntos de práticas, sem especificar um modelo de qualidade concreto, aplicável às características do produto;

O CMMI, ao propor um conjunto de práticas específicas e genéricas que se estendem ao longo do modelo de maturidade, permite traçar o caminho para a melhoria continuada dos processos relacionados com o assegurar da qualidade.

O processo de qualidade, definido na norma ISO/IEC 14598, integra-se facilmente nas práticas propostas pelo CMMI, nomeadamente nas relacionadas com o objectivo específico de “Avaliar Objectivamente a Qualidade dos Processos e dos Produtos”. No entanto, as organizações podem optar por prescindir do processo definido na norma ISO/IEC 14598, e usar exclusivamente o modelo de qualidade definido pela norma ISO/IEC 9126, como suporte à sub-prática específica “Assegurar a qualidade do produto ou serviço”.

O PMBOK aborda com maior detalhe as diversas áreas de processo, complementando e fornecendo pistas para a aplicação na prática. Para além disso, acrescenta uma área de processo específica para o planeamento da qualidade, tratada no CMMI como uma prática genérica, o que ajuda a uma visão integrada e fornece os instrumentos e as técnicas a usar para transmitir, aos diversos níveis da gestão, a importância de um processo de qualidade de software devidamente estruturado.

Face ao exposto, uma abordagem integrada da qualidade do desenvolvimento de software implicaria a síntese de três metodologias:

• ISO/IEC 9126 – Modelo de qualidade do produto;

• PMBOK – Qualidade de processos no âmbito da gestão de projectos; • CMMI – Metodologia para a melhoria de processos.

A integração dessas metodologias, numa metodologia comum, apresenta dois tipos de vantagens distintos.

Em primeiro lugar é uma metodologia que propõe um modelo de qualidade adaptado às características e à importância de cada projecto em particular, sendo que essa capacidade de

44

adaptação decorre, naturalmente, da aplicação da metodologia, sem necessidade de nenhum tipo de decisão prévia discricionária.

De facto, a construção de um modelo de qualidade, específico para cada projecto, com base nas preocupações dos vários interessados determina que, desde o início, a abordagem feita à qualidade se adapte às características do projecto.

Assim, projectos mais ligeiros terão um modelo de qualidade que, sem deixar de ser equilibrado e estruturado, apresentará menos características e sub-características de qualidade relevantes e um conjunto mais restrito de métricas de avaliação, ao passo que, projectos críticos serão avaliados com base num modelo mais exigente.

Por outro lado, o facto da construção do modelo de qualidade se efectuar em paralelo com a definição de requisitos, contribuirá para o seu aprofundamento, donde resultará uma maior definição das funcionalidades a desenvolver, com impacto positivo na eficiência do processo e na satisfação dos utilizadores. Aliás, pela própria definição, qualidade e requisitos são processos estreitamente inter-relacionados (PMI, 2004);

Em segundo lugar, a metodologia proposta será um instrumento importante para a eficiência e a eficácia do processo de desenvolvimento, permitindo endereçar de forma adequada alguns dos riscos específicos mais relevantes quando se fala em desenvolvimento de aplicações em regime de outsourcing. Nomeadamente, com o modelo de qualidade proposto, será dada consistência adicional ao processo de definição de requisitos.

O processo de avaliação de qualidade do produto no âmbito das normas ISO concretiza e complementa os processos de qualidade preconizados pelo PMBOK e pelo CMMI. A aplicação do modelo de maturidade permitirá o acompanhamento da melhoria deste processo na organização, bem como a sua necessária institucionalização.

45