3. METODE
3.5 D ATAANALYSE
Para analisar os posicionamentos e percepções dos respondentes quanto à homofobia, três questões foram formuladas, sendo que apresentaremos cada um em itens separados.
4.4.1 – Livre associação com situações que envolvem a homossexualidade
Este item pedia aos respondentes que indicassem se já se sentiram incomodados com alguma situação que envolvesse a homossexualidade. As respostas obtidas foram organizadas da seguinte maneira: ‘sim’, indicando rejeição ao preconceito; ‘sim’, indicando possíveis concepções preconceituosas; e ‘não’.
Aqueles que responderam ‘Sim’ e foram considerados não preconceituosos (20%), destacaram seu incômodo frente a situações de homofobia, inclusive citando situações que envolvem a universidade e seus alunos. É importante destacar, também, o reaparecimento da percepção da existência do preconceito velado entre os alunos.
“Sim! Quando houve uma briga em uma festa da faculdade, pois os heterossexuais se incomodaram com a forma que os homossexuais estavam dançando. Achei um absurdo!” (M, 3° ano)
“Sim. Tenho uma prima homossexual e seus pais não aceitam. Eles pediram para que ela se afastasse do seu irmão. Me incomodou muito a maneira que a trataram (doença).” (M, 4° ano)
“Sim, com alguns comentários referentes a homossexuais na ausência da pessoa. Uma postura machista e preconceituosa.” (H, 4° ano)
“Sim [...]. Por trás, pelas costas, há comentários preconceituosos.” (H, 3° ano)
18% dos respondentes indicaram que já se sentiram incomodados com alguma situação, e ao analisar os comentários feitos, podemos inferir a existência de concepções preconceituosas nestes alunos. Foi possível perceber também, nestas respostas, a presença de um discurso justificador para o incômodo sentido, conforme transcrito abaixo.
“Sim. Presenciei casal de homossexuais se beijando.” (H, 3° ano)
“Sim. Vi um casal de homossexuais se beijando na frente da minha escola.” (M, 4° ano)
“Sim, quando um deles não me respeitou, não respeitou minha heterossexualidade. Uma vez que trato com respeito os homossexuais, espero o mesmo da parte deles. Não admito que uma lésbica tente ‘ficar’ comigo. Se quiser minha amizade, ótimo, se não, ‘tchau’!” (M, 4° ano)
“Sim, no momento em que fui assediado por um.” (H, 4° ano)
“Sim, quando um casal começou a se declarar em público.” (M, 3° ano)
“Sim. Situações em que um casal trocava carícias explicitamente que eu considerava desnecessárias para expor ao público. Ficaria incomodado do mesmo modo se um casal heterossexual demonstrasse o mesmo comportamento.” (H, 4° ano)
“Apenas quando em público ocorreu demonstração de muito contato físico, muito ‘afeto’, muita carícia. Também me incomoda quando casal heterossexual se expõe dessa maneira.” (M, 3° ano)
Nos dois últimos trechos não é possível saber qual era a real situação, mas, tomando como exemplo os trechos anteriores, pode ser que as carícias citadas fossem apenas beijos ou carícias comuns de serem vistas publicamente em casais heterossexuais. De modo geral, podemos perceber
indicativos de atitudes e concepções preconceituosas em relação aos homossexuais nos respondentes analisados neste grupo.
A maior parte dos respondentes (62%), entretanto, assinalou que nunca se sentiu incomodado com alguma situação que envolvesse a homossexualidade. Este dado pode indicar uma naturalidade frente à homossexualidade ou mesmo uma falta de convivência com homossexuais, o que pode implicar ou não em um distanciamento. Além disso, se compararmos esta pergunta com o item que investigou os sentimentos mais frequentes dos alunos do curso de Ciências Biológicas, e com o item que perguntava se os respondentes consideravam sua turma preconceituosa, é possível perceber que quanto maior o distanciamento entre o respondente e o grupo pelo qual responde mais informações da zona muda das representações sociais vem à tona, tomando como base as idéias apresentadas por Menin (2006). Ou seja, é possível que os respondentes explicitem com maior facilidade idéias contra normativas ao responderem por um grupo distante deles mesmos, do que respondendo por um grupo próximo. Talvez, se houvesse uma questão sobre os sentimentos mais frequentes em relação à homossexualidade, considerando todos os alunos do campus da UNESP - Botucatu, os resultados indicassem um grau ainda mais elevado de preconceito.
4.4.2 - A homofobia nas relações profissionais
Os respondentes tiveram que discorrer sobre a decisão da diretora (conforme situação apresentada já citada) e indicar qual seria sua decisão caso fossem a diretora. A intenção foi verificar a posição dos licenciandos frente à apresentação de um discurso justificador do preconceito.
Foi possível separar as respostas conforme três tipos diferentes de pensamento: concordância (aqueles que concordaram com a decisão da diretora); discordância, mas compreensão
(a decisão errada ou injusta, porém acreditam que seja compreensível) e discordância (respostas que julgaram a atitude como errada e preconceituosa. (Tabela 5)
Tabela 5 – Respostas apresentadas sobre a decisão da diretora, com respectivas porcentagens.
Respostas encontradas Homens Mulheres Total
Concordância 34% 10% 19%
Discordância, mas compreensão 22% 26% 24%
Discordância 44% 64% 57%
É possível notar que o número de homens que consideraram a decisão da diretora correta e pertinente (34%) é consideravelmente maior que o número de mulheres que pensam desta forma (10%). O mais preocupante são as concepções que aparecem nos comentários.
“Concordo, pois as crianças não devem ser expostas a situações que vão contra a natureza.” (H, 3° ano) “A decisão foi correta, já que a escola deve prezar algumas tradições.” (H, 5° ano)
“Como não havia diferenças profissionais entre ambos, a diretora estabeleceu um critério com fundamentação reflexiva para tomar a decisão.” (H, 5° ano)
“A decisão dela foi feita por valores morais que a sociedade brasileira julga exemplar para seus filhos.” (H, 5 ° ano)
“A decisão da diretora foi muito sensata, pois poderia acabar influenciando as crianças da escola.” (M, 3° ano)
É preocupante perceber que futuros professores tenham concepções preconceituosas e relutantes em relação à homossexualidade dentro da escola, como visto em alguns comentários acima. Alguns respondentes indicam acreditar que a homossexualidade é uma situação que vai ‘contra a natureza’ ou que um professor homossexual poderia ‘influenciar as crianças’. Contra que
natureza? Influenciar de que forma? Como um licenciando que tem esta representação referente à homossexualidade irá tratar um aluno ou um colega de trabalho homossexual?
Igualmente preocupante é perceber como os respondentes se apóiam no discurso justificador em relação à homofobia, como visto nos comentários referentes aos respondentes que consideraram a “decisão errada, porém compreensível”:
“Decisão talvez equivocada [...]. Mas que na sociedade atual seja a melhor solução, graças ao enorme preconceito.” (M, 3° ano)
“Acho que infelizmente a situação acaba sendo esta, a sociedade é preconceituosa e injusta.” (M, 5° ano) “A atitude foi extremamente injusta, mas levando em conta a sociedade preconceituosa, a diretora agiu de forma a não se prejudicar.” (M, 4° ano)
“Talvez se fosse uma decisão que não gerasse tanto ‘transtorno’ no contexto, ela poderia optar pelo homossexual.” (H, 3° ano)
“Com certeza a decisão da diretora não foi justa, mas não considero uma decisão preconceituosa, pois tendo em vista a sociedade brasileira [...].” (H, 4° ano)
A maioria dos alunos (57%) considerou a decisão errada, independentemente do discurso justificador, e muitos comentários apontam para a contradição presente no discurso da diretora, ao afirmar não ser preconceituosa; e ainda problematizam a situação apontando que a orientação sexual não deveria influenciar em decisões deste tipo.
“[...] acredito que a diretora foi preconceituosa e acabou se contradizendo com seus valores.” (H, 4° ano) “Sua decisão reproduz o preconceito social embutido.” (M, 4° ano)
“A decisão da diretora é preconceituosa. Enquanto não houver uma ruptura com falsos padrões moralistas, a falta de respeito e o preconceito com as diferenças vão continuar.” (M, 5° ano)
“Acho que ela deveria continuar sendo justa independente do que os outros vão pensar. A sociedade brasileira ainda é muito preconceituosa e só irá mudar quando as pessoas tiverem coragem de admiti r um posicionamento e lutar por ele.” (M, 4° ano)
“Nenhuma escolha profissional feita através da opção sexual do candidato é correta.” (M, 3° ano) “As qualidades do profissional devem preceder sua opção sexual.” (M, 4° ano)
“Acredito ter sido uma decisão incorreta. Os paradigmas sociais não podem influenciar em nossas escolhas.” (H, 5° ano)
Vale ressaltar que acreditamos ser impossível tomar decisões isentas da influência de ‘paradigmas sociais’, afinal as nossas escolhas e atitudes sofrem, de alguma forma, em algum grau e em algum momento, influências da cultura e sociedade na qual vivemos. Provavelmente este respondente se referiu a paradigmas preconceituosos e de estigmatização.
Três respondentes do sexo feminino consideraram ainda que a diretora pudesse ter aproveitado esta situação para combater o preconceito, com uma atitude quase que piedosa em relação ao candidato homossexual, de certa forma com a intenção de ‘usá-lo’ para tratar da temática da diversidade sexual.
“A diretora poderia ter escolhido exatamente o professor homossexual, como uma forma de combater o preconceito.” (M, 4° ano)
“[...] deveria ter dado a oportunidade ao homossexual numa forma de trabalhar esta realidade dentro da escola.” (M, 4° ano)
“Acredito que ela deveria proporcionar aos alunos a oportunidade de conviver com uma pessoa homossexual, para que valores de igualdade fossem construídos a partir desta convivência [...].” (M, 4° ano)
Não seria esta uma atitude injusta com o candidato heterossexual? Além disso, na presença ou ausência de um professor homossexual, toda escola pode e deve incluir a temática da diversidade
sexual em seu currículo, tendo em vista que este é um dos temas transversais apontados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997a).
Outro item relacionado à situação apresentada pedia que o respondente indicasse que decisão tomaria, caso fosse a diretora. Os resultados são apresentados na figura 2, sendo que não foram observadas diferenças relacionadas ao sexo.
Figura 2 – Respostas ao item: “Se coloque no lugar da diretora, qual seria sua decisão?”
A maior parte dos respondentes indicou que buscaria outras formas de avaliar os dois candidatos e contrataria o candidato mais capacitado para o cargo, independente de sua orientação sexual. Isto indica que, na tomada desta decisão, 57% das respostas sugerem um posicionamento não preconceituoso e igualitário.
“Contrataria o mais qualificado, independente da orientação sexual.” (H, 4° ano) “Na realidade contrataria o mais competente.” (M, 5° ano)
Parte dos alunos que disse que contrataria o candidato homossexual não comentou esta decisão, mas alguns comentários sugerem novamente que seria uma situação pertinente para dar uma oportunidade ao candidato homossexual. Talvez, implicitamente, indicando que este será contratado como um ato de piedade, justificada pela postura igualitária e não preconceituosa, ou como forma de mostrar à sociedade como a escola/direção não é preconceituosa e apóia a diversidade sexual.
“Devemos dar oportunidade, afinal temos muitas pessoas preconceituosas que fariam o mesmo que a diretora.” (M, 3° ano)
“Se eles têm o mesmo potencial, porque não dar oportunidade ao homossexual?” (H, 4° ano)
Dentre os respondentes que indicaram a contratação do candidato heterossexual (15%), caso estivessem no lugar da diretora, apresentando, portanto, um posicionamento preconceituoso, foi possível perceber a presença do discurso justificador para a tomada desta decisão.
“Contrataria o heterossexual, exatamente pelos mesmos motivos da diretora.” (M, 4° ano) “Tem que se pensar na harmonia da escola para efetivar a aprendizagem” (M, 3° ano)
“Levaria em conta o mesmo pensamento da diretora, os alunos e a sociedade não tratariam o professor da mesma forma.” (H, 4° ano)
Outro aspecto notado, apenas nas respostas vindas de respondentes do sexo masculino, indica a valorização de padrões heteronormativos para tomar uma decisão quanto a quem contratar. Mostrando a presença de concepções machistas que culminam no preconceito contra homens que fogem à heteronormatividade, e indicando, também, a presença e influência dos estereótipos acerca da homossexualidade.
“Se o professor homossexual se portasse como um cavalheiro (polido) e sem possuir jeito extravagante, que alguns possuem, não haveria problema.” (H, 5° ano)
“Se for um homossexual sem extravagância e com alta inteligência interpessoal, contrataria o candidato homossexual.” (H, 3° ano)
“Acredito que se o professor homossexual fosse discreto quanto a seus atos e modo de falar, além de ter uma vida discreta sem se expor muito aos alunos, não haveria problema em contratá-lo.” (M, 4° ano)
“Acho que neste caso é importante saber se o candidato homossexual possuía características homossexuais estereotipadas.” (H, 5° ano)
Sobre a heteronormatividade presente nas falas e atitudes dos profissionais da educação, Caetano (2009, p. 10) problematiza:
O conceito rígido, atemporal, biológico e acultural que correntemente é estabelecido em torno das expectativas de gênero nos currículos praticados nas escolas, em última conseqüência, resulta na exclusão dos que não se adaptam aos comportamentos heteronormativos, a exemplo das lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (para citar apenas algumas identidades que são reivindicadas para nomear os sujeitos). A exclusão é apenas o último degrau, até sua escalada, os sujeitos caminham em inúmeras redes que o formam e ensinam o jogo da dissimulação ou a aprendizagem dos limites.
Como indica Perrenoud (2000, p. 148-149), “nenhuma vítima de preconceitos e de discriminações pode aprender com serenidade”. Consideramos ser papel dos profissionais da educação, dentre eles o professor, garantir um ambiente que favoreça a aprendizagem dos alunos.
É importante destacar que as respostas aos dois itens relativos à situação que envolvia a diretora apresentaram certa coerência, como podemos notar na tabela 6.
Tabela 6 – Comparação entre o posicionamento frente à decisão da diretora e a decisão que tomariam caso estivessem no lugar da diretora
Comparação entre as respostas às duas perguntas relacionadas à situação da diretora
Concordância 19% Contrataria o heterossexual 15%
Discordância, mas compreensão 24% Contrataria o homossexual 21%
Discordância 57% Contrataria o professor mais capacitado 57%
-- -- Não sei 7%
Os respondentes que indicaram concordar com a decisão da diretora (19%) mostraram que contratariam o candidato heterossexual (15%), sendo que alguns disseram que não saberiam o que fazer.
Aqueles que discordaram da decisão (57%) indicaram que buscariam outro critério de seleção e contratariam o candidato mais capacitado, sendo coerentes com a postura apresentada na resposta ao primeiro item.
Quanto aos que discordaram da decisão, porém indicaram compreender os motivos (24%), grande parte indicou que contrataria o candidato homossexual (21%), talvez como forma de mostrar sua reprovação, incentivando ações de ‘inclusão’ do professor homossexual, e da temática da diversidade sexual, como pudemos observar em alguma respostas; outra parcela disse não saber o que faria nesta situação.
4.4.3 – Posicionamento dos licenciandos frente ao preconceito nas relações aluno- aluno
Solicitamos aos respondentes que indicassem como se sentiriam e o que fariam se presenciassem a situação relatada neste item, que envolvia o preconceito entre alunos.
Uma consideração importante reside no fato de o texto não apresentar Talita explicitamente como homossexual, mas apenas três respondentes atentaram para este fato. A grande maioria
assumiu que se tratava de uma garota homossexual sendo discriminada, propondo, portanto, ações sobre a diversidade e o preconceito sexual, sendo que nenhuma das respostas tratou de reflexões sobre gênero ou heteronormatividade. Isto pode indicar que a heteronormatividade está tão imbricada no pensamento dos respondentes, que eles também assumiram que Talita era homossexual apenas pelas características apresentadas no texto.
Os sentimentos indicados nas respostas se encontram no quadro 2, organizados em três categorias : “incômodo ou reprovação”; “naturalidade” e “obrigação / dever de agir”. É importante ressaltar que 39 respondentes (56%) não explicitaram como se sentiriam frente à situação apresentada.
Quadro 2 – Sentimentos indicados pelos respondentes frente à situação de homofobia entre alunos
Categorias Como você se sentira?
Incômodo (24 citações)
Mal (5), triste (4), incomodado (3), constrangido (2), não iria gostar da situação (2), chateado (2), inútil (1), preocupado
(1), culpado (1), surpreso (1), revoltado (1), indignado (1)
Naturalidade (2 citações) Normal (1), não me sentiria surpreso (1)
Dever / obrigação de agir (4 citações) Dever de explicar (2), obrigação de fazer alguma coisa (2)
As respostas referentes às atitudes que seriam tomadas foram organizadas em nove categorias, conforme mostra a tabela 7.
Tabela 7 – Ações indicadas pelos licenciandos frente à situação de preconceito entre alunos
Categorias Porcentagem de citações
Explicação / esclarecimento ou conversa com a turma 51%
Ações Gerais 25%
Não responderam 6%
Não saberia como agir 6%
Ações que envolvessem a escola 3%
Não se envolveria 3%
Ações que promovam a interação entre os alunos 3%
A maior parte dos respondentes (51%) indicou que conversaria com os alunos sobre a situação ocorrida, sendo que alguns indicaram o tema / assunto a serem tratados na forma de conversa enquanto outros indicaram que dariam explicações ou esclarecimentos sobre o assunto, informando que a atitude deles foi errada e que deveriam valorizar o respeito e a igualdade.
“Me sentiria incomodado e tentaria conversar com os alunos a respeito do preconceito.” (H, 5° ano) “Seria uma situação extremamente constrangedora. Teria uma conversa com a turma toda.” (M, 5° ano) “Me sentiria triste com a atitude de meus alunos e tentaria conversar, mostrando que nenhum tipo de preconceito é saudável.” (M, 4° ano)
“Me sentiria um pouco culpado, como qualquer professor, e tentaria conversar com os alunos para tentar ‘tirar’ esse pensamento preconceituoso.” (H, 4° ano)
“Os daria explicações sobre os valores e o preconceito.” (H, 5° ano)
“Tentaria explicar aos alunos que apesar das diferenças, temos que aceitar as pessoas como elas são.” (H, 3° ano)
“Tentaria explicar para a sala que a diversidade faz a diferença e é essencial ao mundo, e que você não pode julgar alguém pela opção sexual.” (M, 4° ano)
“Eu explicaria que para se viver em uma sociedade justa devemos respeitar todos os tipos de diferença .” (M, 5° ano)
Outros 25% indicaram ações consideradas como gerais, pois não indicam exatamente como abordariam a temática do preconceito e da diversidade sexual com os alunos.
“[...] lidaria de forma que eles pudessem reformular seus conceitos sobre preconceito e julgamento moral.” (M, 3° ano)
“Iria tratar as diferenças não só sexuais, mas todas as outras, para que as crianças pudessem formar seus próprios conceitos sobre o assunto.” (M, 4° ano)
“Me sentiria incomodado e procuraria demonstrar que independente da sexualidade, as pessoas são iguais.” (H, 5° ano)
“Me sentiria mal e acharia uma forma de tratar o preconceito com os alunos.” (M, 5° ano) “Buscaria agir de modo a valorizar a diversidade e a entender a igualdade entre eles.” (M, 4° ano)
Dois licenciandos indicaram que conversariam apenas com os alunos envolvidos diretamente na situação como forma de resolver a situação (“[...] tentaria dialogar com as partes envolvidas” – M, 4° ano). Quatro respondentes (6%) indicaram que não saberiam como agir diante da situação apresentada, reforçando a necessidade de discussões acerca do preconceito e da diversidade sexual durante o período de formação inicial.
“Me sentiria mal com a situação e sinceramente não saberia o que fazer” (M, 5° ano) “Acho que me sentiria triste. Não saberia ao certo como agir nesta situação.” (H, 5° ano)
Outros alunos (3%) indicaram ações que levassem a conscientização e reflexão envolvendo toda a escola, de forma a extrapolar o problema encontrado em uma turma, promovendo ações coletivas de discussão.
“Discutiria com a comunidade escolar e proporia que fosse construída uma campanha na escola.” (M, 4° ano)
“Levaria e discutiria a questão em HTPC e reuniões com a coordenação da escola. Penso que iniciativas de trabalhos de conscientização no colégio sejam formas eficazes de expor o tema à escola, sem expor os envolvidos na origem da situação.” (H, 4° ano)
Dois licenciandos (3%) indicaram que não se envolveriam na situação (“Não iria me envolver” – H, 4° ano), mostrando um posicionamento de indiferença ou distanciamento, talvez por considerarem que este tema ou situação não seja responsabilidade do professor. Outros dois respondentes
Outros dois respondentes (3%) propuseram ações de interação entre os alunos envolvidos, talvez por acreditarem que conhecendo e se relacionando com o outro, superara-se o preconceito.
“Tentaria propor uma atividade em que os alunos interagissem com Talita para que pudessem conhecê-la melhor e deixar de apresentar esse pensamento.” (H, 4° ano)
“Me sentiria constrangido e tentaria socializar todos tentando retirar tal preconceito,podendo até fazer alguma dinâmica onde incluiria Talita ao grupo.” (H, 4° ano)
Algumas apresentam concepções preocupantes, pois consideram que este tipo de situação deve ser vista como algo natural e corriqueiro, conforme transcrito abaixo.
“Acho uma atitude comum entre os adolescentes [...].” (M, 4° ano) “[...]. Afinal, situações como esta são comuns no dia-a-dia.” (M, 4° ano)
“Não me sentiria surpresa, afinal vivemos em uma sociedade preconceituosa.” (M, 4° ano) “Me sentiria normal. É uma situação corriqueira.” (H, 5° ano)
Esta visão não é rara quando falamos do preconceito e é exatamente este modo de pensar que deve ser combatido, pois a humilhação, o desrespeito e a exclusão do outro não podem se tornar fatos cotidianos e sem importância.
As propostas sugeridas por estes respondentes visam diminuir o preconceito (“[...] tentaria conversar com essas pessoas na tentativa de diminuir o sentimento preconceituoso” M, 4° ano) ou informar os
alunos que estes atos são errados, sem um indicativo de realizar uma reflexão sobre valores ou respeito ao próximo. (“[...]orientá-los para que não discriminem as pessoas.” M, 4° ano).
Enquanto concepções que consideram atos discriminatórios como naturais e corriqueiros não forem reformuladas em todos, e principalmente nos profissionais da educação, não será possível combater de forma efetiva a homofobia e as demais formas de preconceito.
Um comentário que chamou atenção foi: “Se houvesse abertura para conversar com os alunos sobre temas extra-classe como este, tentaria uma conversa [...].” M, 4° ano. Esta resposta remete à questão da falta de autonomia do professor e do que é um tema ‘extraclasse’, sendo necessário considerar que:
[...] o professor deve estar intimamente convencido de que não se afasta do essencial quando ataca os preconceitos e as discriminações observados ou referidos em aula. Não só porque crê na missão educativa da escola, mas porque sabe que uma cultura geral que não se permite manter distantes esses fenômenos não tem absolutamente nenhum valor. Se um jovem sai de uma escola obrigatória persuadido de que as moças, os negros ou os muçulmanos são categorias inferiores, pouco importa que saiba gramática, álgebra ou uma língua estrangeira. A escola terá falhado drasticamente, porque nenhum dos professores que pôde intervir em diversos estágios do curso terá considerado que isso era prioritário... (PERRENOUD, 2000, p. 149)
Consideramos extremamente importante que o professor compreenda as temáticas da diversidade sexual, das relações humanas e do preconceito como tão pertinentes quanto os