3. Study Area and the development program
4.6 Assets ownership
Uma leve (veludo me envolve), vaga, Vazia brisa
Como a uma impressão imprecisa se propaga Pela minha alma imprecisa.
Pendem, oscilando, do caule da Hora – a rosa Rara raiou –
As flores que outrora perfumaram a luminosa Vida que já passou.
[…]
E eu dispo de mim as intenções e as memórias Na abstrata fragrância,
E a Hora é apenas o terem-me contado ‘storias
Na minha infância.
Excerto do poema “Penugem” (1917)
No excerto transcrito, o tempo é concetualizado como planta: O TEMPO É UMA PLANTA. Como a hora designa metonimicamente o tempo através da metonímia HORA POR TEMPO e o caule designa metonimicamente a planta, a hora é concetualizada como caule: A HORA É O CAULE DE UMA PLANTA.
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Porém, não concetualizamos habitualmente o tempo como planta, mas sim os conceitos de “pessoa” e “família”. A metáfora convencional PESSOAS SÃO PLANTAS [“A mulher é uma flor”] tem como extensão a metáfora concetual A FAMÍLIA É UMA PLANTA, como confirmam as expressões metafóricas “Árvore genealógica”, “Os rebentos da família”. Como não concetualizamos o tempo como planta, a metáfora A HORA É O CAULE DE UMA PLANTA parece incompreensível. No entanto, se considerarmos que o tempo pode ser concetualizado como ser humano, como revela a metáfora convencional O TEMPO É UM SER HUMANO, e que este último pode ser concetualizado como planta, como indica a metáfora convencional PESSOAS SÃO PLANTAS, o Eu pode ser concetualizado como caule, através da metonímia concetual CAULE PELO EU.
Sintetizando o nosso raciocínio:
O TEMPO É UM SER HUMANO → HORA POR TEMPO → A HORA É O EU
PESSOAS SÃO PLANTAS → A PARTE PELO TODO → CAULE POR PESSOA
A HORA É O EU → O EU É UM CAULE → A HORA É UM CAULE
Ao concetualizar-se como caule de uma planta, o Eu perspetiva-se como ser que vive entre o passado (as raízes da planta) e o presente, tal como o caule está entre as raízes e as flores e os frutos, que são o produto do desenvolvimento da planta. A metáfora do caule permite inferir que o Eu não “desabrochou”, não é flor nem fruto, mas apenas um caule que oscila ao sabor da “vazia brisa” (v.2). O adjetivo “imprecisa” é repetido na 1ª estrofe (versos 3 e 4) para sugerir a imagem pouco nítida que o Eu tem de si mesmo. A hora é o momento em que o Eu se apercebe de que existe “entre” o presente e o passado, ou seja, é um ser permanentemente em transição, como a hora que “passa”. As “flores” que pendem “oscilando, do caule da Hora” (v.5) designam metaforicamente as vivências familiares do Eu que cada vez são menos nítidas (e por isso “pendem oscilando”) porque perderam, com a passagem do tempo, a capacidade de estruturar a vida do Eu e de lhe dar um significado no presente. Subjacente à concetualização da hora-caule está o esquema imagético orientacional VERTICALIDADE: o caule cresce debaixo para cima; as flores “pendem” do caule. A metáfora primária INFELICIDADE É EM BAIXO estrutura a metáfora concetual da hora-caule cujas flores, que designam metaforicamente as recordações da infância do Eu, vão “murchando”.
Outros esquemas imagéticos que estruturam a metáfora concetual de “hora”: CAMINHO (a hora é o PONTO DE PARTIDA e as recordações a META)
42 CONTENTOR → o caule é um contentor metafórico
SUPORTE → o caule é o suporte metafórico das flores que “pendem, oscilando” (v.5). CENTRO-PERIFERIA → o caule é o CENTRO e as flores PERIFÉRICAS.
Nos versos da última estrofe “E a Hora é apenas o terem-me contado ‘storias/ Na minha infância” (vv.11-12), a hora designa a sobreposição de dois tempos: o “agora”, designado por “Hora” e o passado evocado no “agora”, razão por que o Eu alude à sua infância: “Na minha infância” (v.12). Considerando que o tempo é concetualizado em termos do espaço concreto, TEMPO É ESPAÇO90, é possível que o poeta concetualize a “hora” como dois espaços sobrepostos e que esta construção mental seja estruturada pelo esquema imagético SOBREPOSIÇÃO91, já anteriormente referido, nomeadamente na análise do excerto que dá início a este capítulo dedicado à espacialização e materialização de “hora”. Paralelamente, é possível que o poeta concetualize a “hora” como espaço contentor de outros espaços (as memórias) e, neste caso, a hora contém o passado que dá identidade ao Eu no “agora”. Considerando esta última hipótese, a “hora” é estruturada pelo esquema imagético CONTENTOR92 e o conteúdo deste espaço virtual são outros espaços, cada um dizendo respeito a uma recordação particular (a uma “hora”), que não foi esquecida pela razão de que marcou afetivamente o poeta. Considerando as recordações como espaços dentro de um espaço mais abrangente que as contém, estamos a espacializar as recordações, o que nos parece possível pelo facto de as imagens evocadas (que são reconstruídas no espaço imagético) serem imagens de eventos que decorreram em espaços concretos.
O esquema imagético SOBREPOSIÇÃO pode dizer respeito à sobreposição de espaços estruturados pelo esquema CONTENTOR. Por exemplo, pensando num móvel com gavetas, estas estão sobrepostas, mas são contentores metafóricos dentro do espaço contentor que é o móvel do qual as gavetas fazem parte. As gavetas são independentes umas das outras porque podemos tirar uma gaveta do móvel e examinar o seu conteúdo. No entanto, o espaço dessa gaveta fica vazio no contentor metafórico que é o móvel porque cada gaveta está sobreposta a outra, é em si mesma um contentor e está ligada às outras gavetas pelo material, pela forma e pela cor. Parece-nos que o poeta concetualiza a “hora” através deste processo: a hora que é “agora” está sobreposta a outros “agora”
90Lakoff & Johnson (1980: 135-136) 91Johnson (1987: 126)
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que, no presente, são as horas passadas. A “hora” presente é um contentor metafórico de outras horas interligadas. Esta imagem da “hora” poderá ser estruturada em simultâneo pelos esquemas imagéticos SOBREPOSIÇÃO, CONTENTOR E LIGAÇÃO93, como tentamos mostrar na Figura 2, inspirados no verso final do poema “Pobre velha música”94 (1924) de Pessoa ortónimo, no qual o poeta usa o oxímoro “Fui-o [feliz] outrora agora” com o objetivo de verbalizar a concetualização do “agora” como “agora” e “outrora”, simultaneamente.
Figura 2: a concetualização da hora -“outrora agora” é representada pelo retângulo que contém
outros espaços (as horas que o poeta viveu no passado, que é a razão da designação “Outra(h)ora”. A circunferência representa a interligação entre as horas passadas que são recordadas na hora presente, que para elas reenvia, razão por que é designada pelo oxímoro usado pelo poeta no poema “Pobre velha música”: “outrora agora”. A seta representa a influência das vivências passadas na concetualização da “hora-agora-outrora”.