Houve um tempo próximo aos dias monárquicos de Davi, quando ele ainda não era o rei, mas havia sido ungido por Samuel para suceder ao trono (ISm 16, 15) que ele teve que se refugiar na caverna de Adulão (ISm 22) para fugir do Rei Saul e se juntaram a ele todos os homens que se achavam em aperto, todo homem endividado e todos os amargurados de espírito. Assim, ele se fez chefe deles (22, 2).
Depois de montar seu exército, Davi passou por Mispa de Moabe e deixou ali seu pai e mãe sob a proteção do rei daquele lugar. “Dali passou Davi a Mispa de Moabe e disse ao rei: deixa estar meu pai e minha mãe convosco, até que eu saiba o que Deus há de fazer de mim” (22,3). É incrível a ousadia dessas palavras. Davi diz ao rei Moabita, rei do povo que adora o deus Camos, que estava esperando o que Yahweh iria fazer por ele. Que tempos seriam esses? Qual o cenário político desses dias no qual o rei vizinho faz parceria com o ungido? Que expectativa havia no ar moabita que geraram esse acordo? Será que Rute, a moabita, tem algo a ver nessa história?
Existem especulações de que ela foi filha de um rei de Moabe, mas essas são perguntas para as quais não se tem respostas concretas e tampouco é essencial para o tema central da investigação. De qualquer maneira, o que é compreensível é que os escritores da HD deixam claro que havia um ir e vir entre Moabe e Judá, além de um contexto Messiânico, em relação à vida do ungido Davi – muito forte, o Messias seria um guerreiro, um libertador.
Também mais tarde, nos tempos do exílio da Babilônia, em que Moabe e Judá156 se relacionavam de forma pacífica, talvez essa tenha sido uma estratégia da época, semelhante às do tempo de Davi, entre os pequenos, os campesinos e os povos das tribos, para superarem a opressão e sobreviverem diante do império. Nesse meio angustiante, abarrotado de expectativas e esperando “em Deus” os cumprimentos das promessas, surge para Israel uma resposta por meio de um
156 Final do Séc. VIII a.C. (Is 15,16). Depois da queda dos assírios Moabe ficou livre. Moabe invade
Judá nos dias de Jeoaquim (2Rs 24,2). Por ocasião da queda de Jerusalém em 587 a.C. alguns judeus encontraram refugio em Moabe, mas quando retornaram Gedalias foi nomeado governador. Moabe então foi subjugado por Nabucodonosor (Josefo, Antiguidade x 9,7).
Messias, de um Salvador: “Um ramo sairá de suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e de valentia” (Is 11,1-2,).
Tem-se descrito neste texto um conteúdo do rebento que se restringe às qualidades políticas que caracterizam aquele que irá exercer o poder político na nação. Todas essas qualidades estão a serviço da instauração de uma nova ordem social, fundamentada na justiça. No texto de Isaias citado, não se menciona Davi, nem a Casa de Davi mas essa citação pertence ao 1° Isaías.
Nesse profeta, o rebento alude simplesmente a um chefe político, descendente de Jessé.157 A tradição profética do rebento admite uma diferenciação, segundo se assuma referências de interpretação do proto Isaias ou do primeiro e segundo Isaías, ou mesmo de Jeremias ou Zacarias, como no exemplo citado logo mais. No entanto, existem elementos unificadores entre eles. Um deles é a expectativa pelo estabelecimento de um novo estado. Uma nova concepção do exercício político.
Segundo José Adriano,
[...] o profeta Jeremias promete que os levitas servirão para sempre juntamente com os descendentes de Davi (33,14-18) e suas profecias têm eco na descrição de Zacarias do sumo sacerdote Josué. Na visão de Zc 3 e seu desenvolvimento em 6, 9-14, a era messiânica futura é claramente dominada pela figura do sumo sacerdote Josué, enquanto outro personagem aparece de passagem e num papel subordinado. Nenhum destes dois personagens é chamado explicitamente de Messias, mas esta interpretação será desenvolvida em Qumran, quando se fala do “Messias de Aarão e Israel” (1QS IX,11). No Sirácida 45,6-22 Aarão ocupa um lugar exaltado e Simão, o Justo, é elogiado (50,1). No Documento de Damasco, a espera do Messias que redimirá o povo da iniqüidade é uma indicação de que o templo atual não é eficaz e há necessidade de um sacerdote messiânico para restaurá-lo158.
Em Zacarias, o profeta, o rebento assume uma posição como se significasse uma pessoa concreta, mas se encontra em outra época mais a frente de Isaias: “Aquele que construirá o templo do Senhor (Zc 6,12). Possivelmente se referia a
157, José L Sicre. op. cit. p. 507- 508.
158José Adriano Filho, Expectativas Messiânicas Sacerdotais No Judaísmo e as Origens da Cristologia, [Oracula, São Bernardo do Campo, v. 1, n. 1, 2005] ISSN 1807-8222,
Zorobabel e sua missão especifica. Na verdade a maior necessidade em Zorobabel, o rebento de Zacarias, era o de restaurar a monarquia em Judá, e a função monárquica régia foi progressivamente assimilada talvez o início da tendência histórica da centralização dos poderes religiosos no sumo sacerdote.
Em Israel havia duas expectativas de tradições messiânicas. A primeira era que uma parte do povo esperava por um “Messias Guerreiro”. Já outra parte do povo acreditava que o ungido de Deus possuía características de apaziguador, um temperamento de pastor. Nesse meio angustiante, abarrotado de expectativas e esperando “em Deus”, surgiu uma resposta, por meio de um Messias, de um Salvador. Não é a intenção deste estudo identificar quem é o rebento ou o Messias ao qual os profetas se referem. Esta proposta é identificar o “espírito Messiânico”.