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As narrativas bíblicas estão repletas de relatos que falam dos povos que viviam nas cercanias de Israel e que sempre estiveram em conflito. As relações dos judaítas com amonitas, moabitas, edomitas e egípcios pré-exilio, no exílio e pós- exílio, sempre foram tumultuadas. O povo moabita é um desses exemplos de vínculo histórico. São os filhos de Ló (Gn 19,1-38), sobrinho de Abrão. Moabe fazia parte, assim como tantos outros povos, dos herdeiros de Abraão, afinal são em Abraão que serão benditas todas as nações da terra (Gn 12).

Para complementar, ressaltam-se aspectos novos para tentar descobrir a lógica por trás das atitudes das lideranças pós-exílicas apenas com um destes grupos, os Moabitas, e não com todos os estrangeiros vizinhos de Israel. O que os separava eram as diferenças morais acima de tudo.

Um eixo importante é a primícia implícita do autor (a) de assumir, sem muitas explicações, que Moabe era um destino possível e normal para uma família Judia, que buscava ajuda em caso de necessidade. E o casamento de Maalon e de Quilon é comentado sem nenhum constrangimento ou exortação.

Diplomaticamente, Moabe é uma nação neutra. Existe o texto de Isaías que fala a respeito de Moabe como local de refúgio, nos momentos de tribulações, Em Is

48,1 existe um grito de juízo contra os moabitas, “Também executarei juízos em Moabe, e os moabitas saberão que eu sou o SENHOR”. A referência direta a Moabe, moabita(s) aparece em cento e setenta e sete versículos do texto hebraico.

Moabe era um povo descendente de Ló, o sobrinho de Abraão que vivia num rico planalto, a leste do Mar Morto e que, durante muito tempo, conviveu pacificamente com Israel, mas, que, após a destruição de sua cidade, sendo eles os únicos sobreviventes, se refugiaram em cavernas, passando a morar como nômades. As filhas de Ló, pensando serem as únicas sobreviventes se sentiram na obrigação de povoar a terra. Então, embriagaram o pai e dormiram com ele. O incesto foi praticado e cada uma concebeu um filho, que são identificados pelos nomes de Ben-Ami, considerado o ancestral dos amonitas, filho da mais nova, e Moabe, o filho da mais velha, que é o pai dos moabitas (Gn 19,30-38).

A HD produzida em seu primeiro momento dá trinta e nove referências sobre Moabe, sendo que a maior parte dessas referências está nos dias de Josias, com base na primeira e na segunda redação do Deuteronômio. Ela traz muitas menções sobre Moabe. Basicamente, ela cita Moabe como parte do percurso antes da chegada em Canaã (Js 13, 32; 11,18), repete os episódios com Balaão (Js 24,9; Jz 11,25) e mostra que Moabe subjugou os israelitas, mas foi livrada por Jefté (Js 10,6; Jz 3,12).

Moabe esteve presente nos episódios envolvendo Débora (Jz 4 e 5), foi alvo de investidas militares de Saul (1 Sm 12,9-47), escondeu Davi e seus pais enquanto foragido de Saul (1 Sm 22, 3-4) e emprestou mercenários aos exércitos de Davi (2 Sm 8,12; 23,20). Até aqui se percebe uma Moabe fraterna com Israel.

Mais tarde, Moabe foi subjugada por Davi, com tributos pesados, perdurando um clima hostil entre eles. Antes, até Davi tivera bom relacionamento com os moabitas. Davi também derrotou os moabitas, e os mediu com cordel, fazendo-os deitar por terra; “e os mediu com dois cordéis para matá-los, e com um cordel inteiro para deixá-los com vida. Ficaram assim os moabitas por servos de Davi, pagando- lhe tributo” (1Sm 8,23).

Moabe voltou a ser independente durante o domínio assírio, mas em 581 a.C. cumpriu-se a profecia de Jeremias, com a invasão de Nabucodonosor àquela região.

Na Bíblia hebraica existem inúmeras referências a Moabe, mas a primeira é após a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra. As narrativas bíblicas falam de Ló (sobrinho do patriarca Abraão) e suas filhas, gentes que viviam num rico

planalto a leste do Mar. A região de Moabe, a leste do Mar Salgado, estendia-se desde as planícies ao norte do rio Arnom, até o rio Zered, ao Sul.

A região media cerca de 100 quilômetros de Norte a Sul e cinquenta quilômetros desde o mar salgado até o deserto ao leste. As “Terras de Moabe” ao Norte do rio Arnom e o vale de Arnom (Nm 21,14) era uma região que pertencera a Seom (Nm 21) e tinha sido distribuída à tribo de Rubens. Moabe (mô’abh) era o filho de Ló, o sobrinho do patriarca Abrão, que foi gerado de maneira incestuosa, entre Ló e sua filha mais velha, após eles terem saído de Sodoma (Gn 19,37), mas, ainda assim, um parente genealogicamente próximo dos Israelitas. Tanto os seus descendentes como a terra que ocupavam eram conhecidos como Moabe.

Pouco se sabe a respeito de Moabe durante esse período, embora as pesquisas arqueológicas tenham identificado dezenas de ocupações que remontam a essa época. Nos tempos anteriores ao êxodo, Moabe era ocupada e tinha vilas estabelecidas até aproximadamente 1850 a.C. Possivelmente, os descendentes de Ló, mais tarde, tenham se misturado com essa população, por meio de casamentos, e emergiram como grupo, a população dominante que acabou dando o seu nome à tribo.

Terra prospera era Moabe. O que se entende é que dessa relação surgiram os dois povos que habitaram a Transjordânia.¹

Indo para Moabe, há uma série de vaus que cortam a região das planícies de Moabe, que combinados com os bons índices de chuva e um solo poroso tornavam a região propícia para a agricultura. A altura média dos planaltos é de 1000 m, cortados por essas profundas gargantas que se estendem por mais de 21 quilômetros, distanciando-se em direção ao leste do mar salgado.

Na Bíblia, tem-se preservado o nome de muitas cidades moabitas (Nm 21,15- 20; 32,3; Js 13,17-20; Is 15; 16 e 48,20). Moabe, como os outros, era um reino altamente organizado, com boas atividades pastoris e agrícolas, edifícios bem planejados, cerâmicas próprias e distintas, e poderosas fortificações, na forma de pequenas fortalezas, colocadas ao redor de suas fronteiras.

Algumas inscrições assírias também confirmam a importância estratégica de Moabe no Crescente Fértil, sobretudo por causa da “Estrada do Rei”, que ligava o golfo de Ácaba ao Norte da Síria, facilitando as comunicações e o transporte, inclusive de mercadorias de luxo, entre o Egito e a Mesopotâmia.

Quiriataim (Gn 14,5). A Transjordânia então entrou em um período de ocupação não sedentária, até em torno de 1350 a.C., quando diversos reinos da Idade do Ferro apareceram simultaneamente. Em consequência, os moabitas se espalharam para além do seu planalto e ocuparam o Norte do rio Arnon, destruindo seus antigos habitantes.

Pouco antes do êxodo, essas terras de Moabe, ao Norte do wadi Arnon, foram arrebatadas por Seom, o rei dos amorreus. Quando Israel procurou permissão para viajar pela “estrada real”, que atravessava o planalto, Moabe recusou (Jz 11,17), mas é possível que tenham tido contatos comerciais (Dt 2,28- 29).

No entanto, Moisés foi proibido de atacar Moabe, a despeito de sua atitude adversa (Dt 2,28-29) e, dali por diante, Moabe passou a ser excluída de Israel (Dt 23,3-6). E a relação entre Moabe e Israel passou a ser tumultuada.

A Bíblia relata muitas histórias desses conflitos e, ao mesmo tempo, inter- relacionamentos de mútua ajuda, entre ambos. Serão citadas algumas situações de conflito e de convívio entre essas gentes. Os moabitas eram adoradores de Camos, deus a quem faziam sacrifícios humanos (2Rs 3,26).

Quando Israel se preparava para atravessar o rio Jordão, acamparam nas “planícies de Moabe” (Nm 22,1; Js 3,1) e foram seduzidos pelas mulheres moabitas e midianitas, a participarem de suas práticas idólatras (Nm 25 e Os 9,10). Israel se estabeleceu do outro lado do Arnom (Nm 22,24; Js 24,9) e Balaque, rei de Moabe, perturbado pelo sucesso dos israelitas, mandou que o profeta Balaão amaldiçoasse Israel.

Nos dias dos juízes foi um dos tempos nos quais Israel esteve em contato com Moabe. Quando, Eglom, rei de Moabe, conquistou parte de Israel, invadiu terras israelitas e estabeleceu seu trono em Jericó, e oprimiram e escravizaram Israel por dezoito anos.

Eúde, o Benjamita, o matou (Jz 3,13-30) e fugiu para a região montanhosa de Efraim, dali reunindo um exército pra vencer qualquer moabita que tentasse escapar pelo rio Jordão. “E disse-lhes: Segui-me, porque o Senhor vos tem dado a vossos inimigos, os moabitas, nas vossas mãos.” Elimeleque de Belém migrou para Moabe e seus filhos se casaram com mulheres moabitas, Órfã e Rute. Mais tarde, Rute enviuvou, casou-se com Boaz e tornou-se ancestral de Davi (Rt 4,18–22; Mt 1,5-16).

e, “sendo tomado pelo espírito de Javé”, guerreou contra os moabitas (1Sm 14,47). Davi se alojou no país de Moabe, enquanto viveu como fugitivo (1Sm 22,3). Posteriormente, Davi subjugou Moabe e separou muitos moabitas, para matá-los. Os moabitas só conseguiram se libertar no reinado de Salomão, sendo depois subjugados novamente por Onri, rei de Israel (Pedra Moabita). Perto do final do reino de Acabe, eles começaram a se libertar novamente.

E, a história continua. Josafá, rei de Judá, foi procurado por Jotão, rei de Israel, para prestar ajuda a Edom, rei de Moabe, para recuperá-la (2Rs 1, 1;3,4-27). Mais tarde, as terras de Josafá foram invadidas por moabitas, amonitas e edomitas, mas Josafá foi livrado desse ataque, já que os exércitos confederados dos inimigos divergiam entre, si provocando uma guerra interna, se atacando mutuamente (2Cr 20,1-30), em uma confusão entre os aliados. Os relatos bíblicos são recheados de invasões moabitas a Israel.

Moabe também foi subjugada pela Assíria e foi obrigada a pagar tributos. Esse acontecimento foi no final do Séc. VIII a.C. (Is 15,16). Depois da queda dos assírios, Moabe ficou livre. Moabe invadiu Judá nos dias de Jeoaquim (2Rs 24,2). Por ocasião da queda de Jerusalém, em 587 a.C., alguns judeus encontraram refugio em Moabe, mas, quando retornaram, Gedaias foi nomeado governador. Moabe então foi subjugado por Nabucodonosor (Josefo, Antiguidade x 9.7) e caiu sucessivamente, sob o domínio dos persas e dos vários grupos árabes.

Os moabitas então deixaram de ter existência como nação independente, mas a raça moabita, mesmo no pós-exilio, ainda existia (Ed 1, Ne 13,1-23). Alexandre Janeu os subjugou no Séc. II a.C. (Josefo antiguidade x III, 13.5). Nos livros proféticos, os moabitas foram frequentemente mencionados havendo um julgamento divino contra eles (Is 15, 16; Jr 9,16; Am 2,1-3 e outros).

Segundo Vinicius Galleazzo¹, as referências bíblicas pertinentes a Moabe constatam que esse povo representava uma problemática para diversos autores bíblicos, e, provalvemente, para Israel e para Judá. As menções nos relatos bíblicos a respeito de Moabe sugerem sempre uma visão negativa sobre aquele povo.

Um exemplo disso é o texto contido em Nm 25,1-5, que cita a transgressão religiosa entre homens israelitas e mulheres moabitas. A literatura profética também contribui para fortes condenações a Moabe (Am 2,1-3, Sf 2,8-11, Ez 25,8-1,Is 15,1- 16, Jr 48,1-47). Até os Salmos citam Moabe, considerando-a a “bacia de lavar” de Yahweh, (Sl 60,10 e 108,10).