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A pesquisa de campo teve início a partir do ingresso no curso de mestrado, já que a investigação pressupunha a identificação de sujeitos conforme os critérios mencionados anteriormente, o que demandaria tempo.

Inicialmente, constatou-se, em uma visita à SEDAS em busca de informações sobre a formação universitária das professoras de Educação Infantil da rede, que a Secretaria não dispunha de informações básicas sistematizada acerca de seu quadro docente. Daí surgiu o interesse em realizar um trabalho que pudesse, ao mesmo tempo, subsidiar essa pesquisa e ajudar a Secretaria a estruturar o perfil profissional de seus professores de Educação Infantil. (HOLLANDA; ANDRADE; SALES, 2005).

A análise do material coletado por esse trabalho67 ofereceu subsídios para que as

professoras da pré-escola pública, que se adequavam ao perfil que interessava a essa investigação, fossem selecionadas.

Já o levantamento das professoras que atuam nas creches mantidas pelo Poder Público municipal, seja de forma direta ou mediante convênios, foi realizado pelo telefone. Inicialmente, foi solicitada à SEDAS uma lista, conforme a regional, contendo o nome das creches com seus respectivos endereços e telefones68 e, em seguida, realizadas ligações para

todas elas em busca de informações sobre o seu quadro docente. Após o término desse momento, constatou-se que apenas as professoras temporárias se enquadravam no perfil traçado, especialmente no que dizia respeito a ter cursado disciplinas específicas para o trabalho na Educação Infantil.

O levantamento sobre a formação das professoras da rede particular de ensino foi realizado por telefone, mediante o contato com a coordenadora, que trabalha em uma instituição que engloba creche e pré-escola69. Na ocasião, foi solicitada uma lista com o nome,

entidade formadora e tempo de magistério de todas as professoras de Educação Infantil da instituição, pedido que foi prontamente atendido.

67A realização deste trabalho, feito em parceria com a SEDAS, constou da aplicação de uma enquete com as

professoras de pré-escola da Prefeitura de Fortaleza, durante um curso de formação continuada. Na ocasião, elas responderam questões relativas, entre outros assuntos, à sua formação e tempo de magistério na Educação Infantil.

68A lista continha um total de 54 creches conveniadas e seis municipalizadas.

69O fato de essa coordenadora ter sido formada pela UFC e já haver participado de pesquisas na Faculdade de

De posse dos nomes das possíveis professoras participantes da pesquisa, bem como dos seus locais de trabalho, o passo seguinte foi o contato com elas, que em todos os casos se deu por telefone.

É importante ressaltar que, no princípio, uma das maiores dificuldades sentidas para a realização do trabalho de campo foi o contato com pessoas desconhecidas. A situação se agravava pelo fato de o teor da conversa envolver o pedido de um favor: a disponibilidade de algumas horas para a realização da entrevista. Essa dificuldade inicial, que foi sendo superada ao longo da pesquisa, causou grande inquietação e enorme constrangimento durante as ligações.

De um modo geral, contudo, as professoras se mostraram disponíveis e não impuseram empecilhos à realização das entrevistas, entretanto, problemas de ordem pessoal com duas das docentes selecionadas que atuavam na creche particular dificultaram o encontro para a realização da conversa.

Diante de tais imprevistos, pensou-se que seria mais conveniente substituí-las. Por outro lado, se sabia da importância, para o trabalho com representações sociais, de todas as participantes pertencerem a um contexto comum. Além disso, houve dificuldade de encontrar uma professora de creche formada pela UFC70, caso de uma das docentes mencionadas.

Levando todos esses aspectos em consideração, decidiu-se continuar com as duas professoras, mesmo sabendo das dificuldades de horários que elas diziam ter. O fato de a pesquisa de campo haver começado com bastante antecedência foi fundamental para superar esses contratempos.

No momento inicial de todos os encontros, foi realizada breve explanação sobre os objetivos da pesquisa, sendo ressaltada a importância da participação de cada uma das professoras e solicitada autorização para gravar a entrevista. Esse momento também foi propício para que as docentes pudessem retirar dúvidas sobre os motivos pelos quais foram selecionadas e acerca da forma como foram localizadas em meio a tantas outras professoras.

No início da entrevista, geralmente ainda pairava um ar de desconfiança mútua, afinal, de um lado estava a pesquisadora, perguntando, querendo saber, questionando, e do outro a

70Esse fato, da dificuldade em se encontrar uma professora de creche com nível superior e formada pela UFC, só

confirma o que diversas pesquisas (BRASIL, 1994; MACHADO, 1998; ANDRADE, 2002) mostram sobre a qualificação profissional das professoras que trabalham com Educação Infantil, de que quanto menor a idade da criança atendida, menor o nível de escolaridade da professora responsável pelo grupo.

entrevistada, querendo passar uma boa imagem, responder “corretamente” a todos os questionamentos e, por vezes, parecendo lançar mão de numerosas estratégias de fuga e substituição dos tópicos propostos. Além disso, a inquietação sentida diante do contato inicial, por telefone, com as participantes, voltava a incomodar, agora em relação a ocupar o tempo de alguém sem poder recompensá-la.

Essas sensações de desconfiança e desconforto, porém, foram sendo superadas no decorrer da entrevista diante do entusiasmo das professoras em responder aos questionamentos. O ar formal que insistia em se manter logo foi se dissipando e cedendo lugar a sorrisos e lágrimas pelo despertar de lembranças vivenciadas por elas. Assim, pouco a pouco, aquele terreno movediço entre a confiança e a desconfiança, entre o esperado e o inesperado, parecia ir se concretizando sob os pés de ambas (pesquisadora e entrevistadas), e transferindo maior segurança para lidar com aquela situação.

De um modo geral, as professoras pareceram compreender claramente as indagações e não demonstraram constrangimento em respondê-las. Em muitas ocasiões, aproveitavam a oportunidade para falar de seus sentimentos em relação à sua escolha profissional, seu ambiente de trabalho, suas fragilidades e muitos outros assuntos que as tocavam profundamente. Acredita-se que a atenção e sensibilidade diante dessas situações, em que as professoras ficaram à vontade para falar sobre aquilo que quisessem, mesmo que, aparentemente, o assunto não tivesse relação com o tema investigado, foi importante para estabelecer a confiança entre os dois sujeitos da entrevista.

Em relação à cena marcante, que se solicitou recordassem para finalizar a entrevista, a maioria das professoras pareceu encontrar bastante dificuldade em se lembrar de algo que tivesse marcado sua vida profissional. Um dos prováveis motivos pelos quais isso aconteceu pode ser o fato de elas não se sentirem, ainda, tão à vontade para se expor de maneira mais direta, já que a cena ilustraria uma ação delas com as crianças. Diante dessa situação, foi anunciado, como forma de tranqüilizá-las, que a lembrança de um episódio cotidiano que tivesse chamado sua atenção seria suficiente. Dito dessa forma, aparentemente as professoras ficaram menos temerosas de falar. Caso a situação mencionada tivesse chamado sua atenção de forma negativa, o passo seguinte foi pedir que descrevessem outra que lhes tivesse chamado a atenção por aspectos positivos e vice-versa.

É importante enfatizar a noção de que, em instante algum, a fala das entrevistadas foi vista como mero instrumento na investigação de verdades, mas como provocadora de outras verdades, outras histórias e outras lógicas que, certamente, trouxeram outras possibilidades

além das que haviam sido previstas inicialmente, como, por exemplo, a representação das docentes sobre as famílias das crianças, e que foram levadas em consideração no momento de análise. Neste sentido, procurou-se atentar não apenas para as falas das professoras, mas para toda situação de interação que se estabelecia no momento da entrevista; interação esta que envolveu inúmeros fatores, como a imagem que o entrevistado fez da pesquisadora e vice- versa e as experiências anteriores de ambos em situações semelhantes. Dessa forma, buscando uma visão ampla de toda aquela circunstância, ao final de cada entrevista, foi preenchido um roteiro de avaliação que englobou diversos aspectos, como ambiente físico, impressões pessoais/sentimentos despertados durante a entrevista (APÊNDICES B e C).

4 INFÂNCIA, CRIANÇA, EDUCAÇÃO INFANTIL E PAPEL DO