2 Teori og tidligere forskning: Familien, ungdom, flerspråklig interaksjon og
2.7 Interaksjon og identitet
2.7.4 Arvespråk og identitet
Em 1697, Charles Perrault publicou a primeira adaptação literária de Chapeuzinho Vermelho, para o público infantil, que integrou a coletânea Histoires ou contes du temps passé avec des moralités: Contes de ma mère l’Oye - Histórias ou contos do tempo passado com moralidades: Contos da Mamãe Gansa. A coletânea de contos de moralidades de Perrault, que ficou mais conhecida pelo subtítulo, Contos da Mamãe Gansa, inaugurou o gênero literário “Contos de Fadas”, reunindo uma série de contos que ainda hoje são bastante conhecidos e difundidos, como: O pequeno polegar, A bela adormecida do bosque, Cinderela, O gato de botas, Pele de asno, As fadas e O barba azul.
Neste estudo, utilizaremos uma das reedições de Histoires ou contes du temps passé avec des moralités: contes de ma mère l’Oye publicada em Paris, em 1880, pela editora J. Hetzel et Cie, sob o título Les Contes de Perrault13 – Os contos de Perrault, com ilustrações de Gustave Doré e prefácio de P.-J. Stahl. Dessa coletânea, extraímos a versão de Chapeuzinho Vermelho que será tratada na pesquisa como texto-base.
A cada um dos contos que integraram as coletâneas de Perrault, foi acrescentada pelo menos uma lição de moral, em consonância aos valores burgueses da França do final do século XVII, imprimindo diretrizes comportamentais explícitas que, segundo Tatar, “vez por outra não ofereciam nada além de uma oportunidade para um comentário social aleatório e
13 A obra original encontra-se disponível para consulta no setor de Obras Raras da Biblioteca Pública Estadual
digressões sobre caráter”. (TATAR, 2004, p. 12). Apesar de ter sofrido rejeição por parte de algumas famílias que não se dispunham a ler para os filhos uma história violenta que culmina na morte de uma criança devorada por um lobo, a obra de Perrault ganhou o mundo: “vinte obras escritas em todas as línguas, o consagraram!” Afirma P. J. Stahl, na introdução à obra Les Contes de Perrault (PERRAULT, 1880).
É interessante observar que Perrault, apesar de ter escrito Chapeuzinho Vermelho e tantos outros contos infantis clássicos, não escrevia especialmente para crianças. Perrault era um poeta clássico reconhecido no meio literário da corte francesa de Luís XIV, chegando a ser eleito membro da Academia Francesa de Letras em 1671. Escrevia também romances conhecidos como “preciosos”, lidos nos salões das “preciosas”, grandes damas cultas que promoviam discussões acerca da literatura e dos direitos femininos em seus salões. Os romances preciosos tinham o amor e a mulher como eixos temáticos e constituíram-se, segundo Nelly Novaes Coelho, em uma produção literária que “estava mais perto da “desordem” do pensamento popular do que da “ordem” clássica”. (COELHO, 1991, p. 87). Perrault se interessava pela causa feminista, em especial por se tratar de um final de século particularmente preocupado com a questão da educação da mulher14.
Embora desprestigiada pela estética de seu tempo, foi na literatura para crianças, adaptada do folclore francês, que o nome de Charles Perrault se imortalizou. Acredita-se que sua principal fonte tenha sido a babá se seu filho, de quem ouvia histórias da tradição oral do povo e transformava em registros escritos. Essa tradição de contar histórias também teria servido como inspiração para o curioso nome da coletânea pioneira de Perrault, Contos da Mamãe Gansa. Esse era mais um indicativo da ligação de Perrault com as narrativas populares, visto que a mãe gansa era a personagem central de uma antiga fábula, cuja principal atividade era contar histórias para seus filhotes. Assim, as mulheres que contavam histórias para suas crianças passaram a ser associadas à gansa contadora de “causos” e, muitas vezes eram referendadas como mães gansas.
A imagem que ladeia a folha de rosto de Les Contes de Perrault (Figura 5) é a de uma senhora rodeada por crianças e por uma jovem, para as quais lê histórias em um grande livro, evidenciando a associação do ato de contar histórias à figura feminina. Algumas crianças olham-na fixamente esboçando semblantes aterrorizados, outras são representadas
14 Muitas foram as obras produzidas no período com o intento de entreter e disciplinar as meninas e jovens dos
séculos XVII e XVIII. Como exemplo, podemos citar a obra do francês Fénélon, Sobre a educação das moças, publicada em 1687; e o Tesouro de meninas, de Jeanne Leprince de Beaumont, publicado em Lisboa, em 1774.
com expressões atônitas, o que sugere um teor admoestante e ameaçador presente nos contos que circulavam nas sociedades dos séculos XVII e XIX.
A primeira menção conhecida ao termo Mamãe Gansa foi escrita por Jean Loret em 1652, nouvelliste [cronista] da Gazeta Manuscrita Muse Historique, que publicava versos burlescos e foi considerada precursora de um gênero jornalístico, o da crônica mundana da sociedade. (ARNT, 2004, s/ p.). No entanto, a publicação de Perrault marcou o verdadeiro início da história da personagem, ou seja, da arquetípica mulher do campo, da qual teriam se originado as histórias e cantigas atribuídas à personagem Mamãe Gansa.
De acordo com Tatar (2004), existem relatos afirmando que a Mãe Gansa original viveu em Boston, Massachusetts, por volta de 1660 e se chamava Elizabeth Goose, cujo corpo foi sepultado no Granary Burying Ground. Assim, a verdadeira mãe gansa poderia ter sido uma pessoa real, casada e mãe de dez filhos. Acredita-se ainda que, após a morte do marido, ela foi viver com sua filha mais velha, a qual casou-se com um editor chamado Thomas Fleet. Mother Goose costumava cantar cantigas para os netos o dia inteiro, e outras crianças se aglomeravam para ouvi-las. Finalmente, o genro, percebendo o sucesso das cançonetas de Elizabeth, reuniu as canções e as publicou. No entanto, Tatar (2004) afirma que essas informações não passam de suposições, já que nunca foram comprovadas.
Figura 5 - Contes de ma mère l'Oye. Por Gustave Doré.
A respeito dos contos populares, Darnton (1986) afirma que os narradores camponeses adaptavam o enredo ao seu próprio meio, mas mantinham seus elementos principais. A trágica história de Chapeuzinho Vermelho de Perrault, o texto-base, funciona como um sinalizador de como a literatura pode operar como documentos históricos (DARNTON, 1986, p. 26) que retratam, em certa medida, a mentalidade e comportamento humano em contextos diferenciados de produção e recepção.
Segue-se o conto Chapeuzinho Vermelho15 em sua versão traduzida para o português por Regina Regis Junqueira, editada e publicada pela Editora Itatiaia em 1989:
Chapeuzinho Vermelho
Era uma vez uma menina que vivia numa aldeia e era a coisa mais linda que se podia imaginar. Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda. A boa velhinha mandou fazer para ela um chapeuzinho vermelho, e esse chapéu lhe assentou tão bem que a menina passou a ser chamada por todo mundo de Chapeuzinho Vermelho.
Um dia, sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe: "Vá ver como está passando a sua avó, pois fiquei sabendo que ela está um pouco adoentada. Leve-lhe um bolo e este potezinho de manteiga.” Chapeuzinho Vermelho partiu logo para a casa da avó, que morava numa aldeia vizinha. Ao atravessar a floresta, ela encontrou o Sr. Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la, não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta. Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para conversar com um lobo, respondeu: “Vou à casa da minha avó para levar-lhe um bolo e um potezinho de manteiga que mamãe mandou.” “Ela mora muito longe?”, quis saber o Lobo. “Mora, sim!”, falou Chapeuzinho Vermelho. “Mora depois daquele moinho que se avista lá longe, muito longe, na primeira casa da aldeia”. “Muito bem!”, disse o Lobo, “eu também vou visitá-la. Eu sigo por este caminho aqui, e você, por aquele lá. Vamos ver quem chega primeiro”.
O lobo saiu correndo a toda velocidade pelo caminho mais curto, enquanto a menina seguia pelo caminho mais longo, distraindo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer um buquê com as florezinhas que ia encontrando.
O Lobo não demorou muito tempo para chegar à casa da avó. Ele bate: toc, toc. “Quem é?”, pergunta a avó. “É a sua neta, Chapeuzinho Vermelho”, falou o Lobo disfarçando a voz. “Trouxe para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que minha mãe mandou”. A
15
PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. 2ª Edição. Ilustrações de Gustave Doré; prefácio de P.-J. Stahl e tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989, p. 51-55
boa avozinha, que estava acamada porque não se sentia muito bem, gritou-lhe: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. O Lobo fez isso e a porta se abriu. Ele lançou-se sobre a boa mulher e a devorou num segundo, pois fazia mais de três dias que não comia. Em seguida, fechou a porta e se deitou na cama da avó à espera de Chapeuzinho Vermelho. Passando algum tempo, ela bateu à porta: toc, toc. Quem “é?” Chapeuzinho Vermelho, ao ouvir a voz grossa do Lobo, ficou com medo a princípio, mas supondo que a avó estivesse rouca, respondeu: “É sua neta, Chapeuzinho Vermelho, que traz para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que mamãe mandou”. O lobo gritou-lhe, adoçando um pouco a voz: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. Chapeuzinho Vermelho fez isso e a porta se abriu.
O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe, escondendo-se sob as cobertas: “Ponha o bolo e o potezinho de manteiga sobre a arca e venha deitar aqui comigo”. Chapeuzinho Vermelho despiu-se e se meteu na cama, onde ficou muito admirada ao ver como a avó estava esquisita em seu traje de dormir. Disse a ela: “Vovó, como são grandes os seus braços!” “É para melhor te abraçar, minha filha!” “Vovó, como são grandes as suas pernas!” “É para poder correr melhor, minha netinha!” “Vovó, como são grandes as suas orelhas!” “É para ouvir melhor, netinha!” “Vovó, como são grandes os seus olhos!” “É para ver melhor, netinha!” “Vovó, como são grandes os seus dentes!” “É para te comer!” E assim dizendo, o malvado lobo atirou-se sobre Chapeuzinho Vermelho e a comeu.
Segue-se ao texto em prosa, uma Moralité em verso em que Perrault explicita o caráter simbólico do conto, ou seja, as moças têm que ter juízo e não se deixarem seduzir pelos homens que se mostram doces e gentis, mas são na verdade verdadeiros lobos:
Moral da História
Aqui vemos que a infância inexperiente, sobretudo as senhoritas, bem feitas amáveis e bonitas, faz muito mal de escutar todo tipo de gente, e que não é causa de estranheza se há tantas que do lobo viram presa.
Digo o lobo, pois numa progenitura nem todos têm a mesma natureza: alguns há de espírito cortês, calados, sem rancor, sem amargura, que, em segredo, condescendentes e com doçura, seguem as jovens donzelas até nas casas, até nas ruelas.