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Artsmangfold og naturvariasjon i semi-naturlig mark

Ao tratarmos da possibilidade de Islã brasileiro, tomamos consciência do envolvimento de muitas questões efervescentes, dentre elas a questão étnica, cultural e ideológica. Vejamos o que Oliveira diz:

As ideologias étnicas exprimam elas movimentos sociais de caráter reformista, separatista, revolucionário ou messiânico, remetem-nos todas a um estado crítico, isto é, de crise, do grupo ou dos grupos sociais envolvidos. A identidade étnica, como uma ideologia altamente “etnocêntrica”, torna-se de tal forma um marco de referência, de modo a contaminar todas as relações sociais contidas no sistema interétnico e, por conseqüência, o comportamento dos agentes nele inseridos que, por sua vez, ganha “visibilidade” nestas situações de crise, a ponto de permitir uma apreensão privilegiada da etnia, como foco substantivo de análise. Embora a etnia se atualize num grupo “adjetivando-o” ou, em outras palavras, definindo-o, atribuindo-lhe tal identidade (ao grupo e, por conseguinte aos seus membros), ela o faz na medida em que se constitui como um conjunto de atributos ideativos e valorativos, impregnando de um “nós” que, em sua forma típica, resplandece em autolatria, concebendo-se igualmente autógeno e senhor de seu destino. (OLIVEIRA, 1976, p. 101).

A partir dos pressupostos de Oliveira, quando se pensa na possibilidade de um Islã brasileiro, somos, imediatamente, remetidos às questões dos conflitos, já identificados, palpáveis e verificáveis entre os grupos arabizados e os brasileiros revertidos. Uma crise se instala mediante a existência de conflitos que vão desde as questões ideológicas, passando pelas questões culturais e desembocando nas questões puramente religiosas. Situações em que as diferenças étnicas e culturais dos imigrantes muçulmanos árabes e seus descendentes manifestam-se de forma mais deliberada, têm, em grande medida, se tornado um dificultador para a inserção dos brasileiros revertidos nestas comunidades.

Como já demonstramos anteriormente, nas comunidades muçulmanas de São Paulo é uma realidade a ser trabalhada. Por exemplo, uma das maiores comunidades muçulmanas de orientação xiita do Brasil, está localizada no bairro do Brás, conhecida como mesquita do Brás, tem forte arabismo, o que contribui não só para a exclusão de brasileiros revertidos, mas também para o distanciamento de outras etnias, tais como os iranianos e outros. Enfim, a necessidade de preservação cultural entre a comunidade de muçulmanos de origem árabe, vem-se constituindo, ultimamente, em um dos combustíveis que sustenta o fogo dos indícios de um Islã com rosto brasileiro. Esta situação recorrente nas mesquitas de São Paulo vem proporcionando uma visão de mundos próprios, ocasionando uma relação circular

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entre estes mundos, cujo resultado imediato é a marginalização dos brasileiros, segundo Oliveira, considerados “outros”.67(GEERTZ, 1989, p. 143-144).

Nesta perspectiva de identificar os sinais de um Islã brasileiro, passarei a relatar mais uma de minhas experiências de campo. Nesta ocasião, entrevistei um muçulmano da mesquita do Pari. A entrevista evoluiu após algum tempo, para uma conversa um pouco mais descontraída, porém, com o mesmo propósito inicial de entender como mulheres e homens, muçulmanos brasileiros revertidos, transitam em seu mundo religioso e como dialogam com este mundo que não é só deles, é compartilhado por outro grupo, os muçulmanos de imigração.

O nome deste muçulmano revertido brasileiro é R. O. R. de trinta e seis anos, de idade. Revertido há mais de vinte anos, casado com uma muçulmana brasileira revertida P. O. de trinta e um anos, revertida no ano 2000, portanto, treze anos de reversão ao Islã. O casal tem três filhos. O que me deixou ainda mais curioso, foram as revelações de R. O. R: disse ele: sou um Sheik68muçulmano brasileiro revertido. Fiz meus estudos de teologia islâmica durante cinco anos. Estudei em Riyadh, na Arábia Saudita na King Saud University of Riyadh. Visitei, com objetivo de entender a cultura árabe, o Líbano e o Qatar. Minha esposa estudou a língua árabe por dois anos.

O Sheik passou a pontuar situações no Brasil e no exterior, que influenciaram o mundo islâmico em solo brasileiro. Perguntei quando foi que começou a reversão de brasileiros ao Islã ou pelo menos quando ela foi notada e registrada? Foi em 1970. Disse ele. 1970 é o marco da primeira geração de muçulmanos revertidos brasileiros e em 1975 foi feita a primeira tradução do Corão. Em 1990, houve um crescimento notável por parte de revertidos no Brasil, mais construções de mesquitas e maior acesso de brasileiros ao mundo islâmico, proporcionado por uma espécie de abertura e divulgação do Islã no Brasil. Isto foi desencadeado em grande parte pela guerra do Golfo. Perguntei sobre a questão dos imigrantes, sobre o relacionamento de revertidos brasileiros e sobre a recorrência da questão étnica.

67Minha ênfase -Grifos meus.

68Sheik ou Shaikh ou Shekh , ou transliterado como Shaykh -se um título honorífico na língua

árabe que significa literalmente "ancião" e carrega o "líder e / ou governador" significado. É comumente utilizada para designar o homem de frente de uma tribo que tem esse título depois de seu pai, ou um estudioso islâmico que tem esse título depois de se formar na escola islâmica básica. Sheikha é o equivalente feminino do termo. Minha ênfase.

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O Sheikh foi categórico: Para ele a segunda e terceira gerações de imigrantes muçulmanos não conheciam ou não deram muita importância ao árabe, daí inicia-se a propagação da doutrina islâmica entre eles e brasileiros que chegaram aprendendo os ensinamentos islâmicos em língua portuguesa. Lembrei-lhe o fato de ser maioria cristã, os imigrantes. Possivelmente, não dariam atenção ao mundo muçulmano. Ele respondeu que havia, também, muitos muçulmanos nestas gerações. Indaguei-o porquê de estudar a língua árabe e a teologia islâmica. A resposta foi melhor do que o esperado. O Sheikh respondeu que para ser muçulmano fiel aos princípios da doutrina islâmica não tem que, necessariamente, ser árabe. E, que o fato de estudar teologia islâmica e falar árabe descortina para ele uma gama de possibilidades, inclusive a de ser um líder da comunidade muçulmana (sheikh).

Perguntei se existem, em sua opinião, sinais de um Islã brasileiro, ou menos arabizado. Sua resposta foi surpreendente: Possivelmente, disse ele, eu sou o primeiro sheikh legitimamente brasileiro. Eu saí do Brasil para estudar na Arábia Saudita, o contrário normalmente é a regra, ou seja, um sheikh árabe qualquer, vem e assume a liderança da mesquita aqui no Brasil, eu quebrei esta regra. O número de revertidos e revertidas aqui na mesquita do Pari, possivelmente seja o maior na cidade de São Paulo. Temos, hoje, a maior relação, socialmente falando, com brasileiros revertidos ou não. Nossas relações com as gerações de imigrantes que são membros da comunidade, quase não possuem nenhum conflito étnico. Questionei sobre aulas de árabe para brasileiros e se isto não era uma espécie de arabização. O Sheikh respondeu que conhecer a língua árabe não é, necessariamente, arabizar-se. Mas antes aumentar o arcabouço cultural e adentrar via língua árabe até mesmo nas questões religiosas do islamismo. Olhando fixamente para mim, disse: estas realidades, talvez, respondam a sua pergunta.

Passei a inquirir sobre o papel da mulher muçulmana e sobre as questões tão discutidas pela mídia ocidental a respeito do vestuário feminino islâmico e se os conflitos étnicos entre brasileiras revertidas e muçulmanas de imigração eram uma realidade palpável. O sheik iniciou suas observações, talvez, pela indumentária

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feminina mais radical do ponto de vista da cultura ocidental e do ponto de vista do próprio islamismo em algumas situações: a Burca69.

Segundo o Sheikh, há divergências entre os sábios da jurisprudência islâmica, para alguns não é obrigatório que a mulher cubra todo o rosto, contudo, caso ela queira ou caso ela esteja debaixo de um sistema cultural que exija isso dela, aí é permitido que ela se cubra por inteiro. Perguntei o porquê dessas diferenças no uso de indumentárias de países para países onde o Islã está presente. A resposta veio na forma de uma aula etimológica e de conteúdo étnico. O Sheikh foi buscar na raiz uma das questões mais incompreendidas pelo viés da cultura ocidentalizada.

A origem da burca está fincada em uma etnia denominada Pashtum70, de procedência afegã-pasquitã. Para a etnia Pashtum, além do fator cultural existe o fator religioso. A etnia Pashtum identifica na burca os fatores cultural, social e religioso, fato que não é visto ou reivindicado por outras etnias que não a Pashtum.

O Corão determina o uso desta ou daquela indumentária para a mulher? Perguntei. Não. Respondeu o Sheikh. Podemos ver lado a lado uma mulher usando a burca e outra usando o Hijab. O que determina o uso desta ou daquela peça de roupa feminina é a questão cultural, social e religiosa. Então o Islã não é um só? Perguntei. Sim. O Islã é um só, contudo, apesar de universal, o Islã é interpretado também pelo viés cultural, ou seja, a cultura, na qual ele está inserido é assimilada pelo viés religioso. Podemos identificar essa realidade quando verificamos que em

69 A burca: indumentária, veste feminina que cobre todo o corpo, da cabeça aos pés. O rosto e os

olhos, porém, na direção dos olhos existe uma rede que permite, precariamente, a visão. É usada pelas mulheres do Afeganistão e do Paquistão, e em áreas próximas à fronteira com o Afeganistão. Ela é um símbolo do Talibã. O seu uso deve-se ao fato de muitos muçulmanos acreditarem que o livro sagrado islâmico, o Alcorão, e outras fontes de estudos, como Ahadith e Sunnah, exigem que homens e mulheres se vistam e comportem modestamente em público. No entanto, esta exigência tem sido interpretada de diversas maneiras pelos estudiosos islâmicos e comunidades muçulmanas; a burca não é especificamente mencionada no Corão e nem nos Ahadith. A comunidade religiosa Talibã, que comandou o Afeganistão nos anos 2000, impôs seu uso no país. Minha ênfase - Grifo meu.

70Os Pashtuns (em pachto: transliteração:

Pashtūn ou Pakhtūn;em urdu:transliteração: Paṭ hān; em hindi: transliteração: Paṭhān), são um grupo etnolinguistico localizado principalmente no leste e no sul do Afeganistão e, no Paquistão, nas províncias da fronteira Noroeste e do Baluchistão e nas áreas tribais administradas pelo governo federal. Os pashtuns caracterizam-se pela sua língua (opachto), pelo seu código de honra religioso pré-islâmico e pela prática do islã. No Paquistão, sua natureza migratória e o hábito de isolar as mulheres complicam a tarefa de contagem. Minha ênfase.

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algumas regiões africanas, a extirpação do clitóris das moças em parte ou total é uma questão cultural e religiosa. Volvendo o olhar para o Afeganistão temos a obrigatoriedade do uso da burca pelas mulheres. O Corão não prevê nem uma, nem outra situação. Então podemos concluir que toda indumentária da mulher possui um significado religioso?

A princípio não. Respondeu o Sheikh. Contudo, mesmo que originariamente uma vestimenta feminina tenha conotação cultural, necessariamente ela vai convergir para o religioso. Tudo isto, dizia o Sheikh, tem origem nas recomendações do Corão de que a mulher deve cobrir o corpo para não atrair olhares masculinos maliciosos. A partir desta recomendação, várias culturas interpretaram as vestimentas femininas de acordo com suas realidades contextuais. Algumas interpretaram e assimilaram de maneira radicalizada, caso do Afeganistão, como mencionei anteriormente. Nesta altura da conversa com o Sheikh, voltamos para a questão do uso da burca e sua origem étnica. A etnia Pashtum determinou o uso da burca para as mulheres, pelo fato de que estava havendo muitos estupros nas aldeias, ocasionados pelas longas ausências dos homens que saíam para a guerra contra outras tribos e deixavam as mulheres desprotegidas dos outros invasores. Daí por diante se instituiu o uso da burca para todas as mulheres. Debaixo da burca, ninguém pode distinguir formas femininas. Seria uma espécie daquilo “o que não é visto não é cobiçado”? Perguntei ao Sheikh. Sim. É por aí mesmo. Com o uso da burca a violação das mulheres diminuiu consideravelmente, porém, isolou a mulher debaixo desta cortina. Este procedimento ganhou contornos religiosos, sociais e políticos. A mulher muçulmana afegã, só pode-se desvencilhar desta vestimenta na presença do marido e dos parentes, aqueles com os quais, em hipótese alguma, ela poderia contrair matrimônio, ou seja, dos irmãos e dos pais.

Após um intervalo para um breve café, a propósito, o Sheikh aprecia um cafezinho de tempos em tempos. Aproveitando a pausa, deixando a questão das indumentárias femininas por hora, já que é um assunto que será tratado mais adiante e com mais detalhes por esta pesquisa, tratei logo de reconduzir a conversa e meus questionamentos para o assunto de um Islã com rosto mais brasileiro, uma vez que percebi que o Sheik estava inteirado dos sinais que indicavam uma reivindicação de um Islã com cores mais nacionais. Perguntei se ele sabia ou

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mesmo observava através de alguns movimentos em São Paulo e adjacências, uma reivindicação por parte de revertidos e revertidas brasileiros de um Islã mais voltado para uma ênfase da religiosidade inerente ao mesmo e menos arabizado étnica e culturalmente.

O Sheikh, a priori, reconheceu que uma tensão envolvendo esta questão da arabização de algumas comunidades que congregam revertidos brasileiros é real. Admitiu também que esta tensão se encontra em estágio de incubação, ou seja, não há, ainda, uma manifestação vigorosa a ponto de eclodir uma revolução ou mesmo uma cisão de proporções notadamente grandes. Contudo, dizia o Sheikh, movimentos periféricos já estão acontecendo e entendo que as mudanças substanciais não iniciam pelo centro e sim pelas bordas, ou seja, dificilmente, não que seja impossível, uma mudança radical que tenha início no meio de comunidades islâmicas tradicionais, iria acontecer, no sentido de dar ao Islã no Brasil cores mais nacionais, é improvável que ocorra nos meios dominados pela cultura árabe e pelo Islã arabizado. Em resumo, o que eu quero dizer é que as grandes mudanças vão chegando de fora para dentro e não de dentro para fora.

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