7.3 Tabeller for verdisetting
7.3.7 Oseanisk levermoserik hei
Para falar de um Islã com cores nacionais, antes é necessário entender as razões e/ou motivações que movem e sinalizam para esta possível tendência. Entender, historicamente, a partir dos registros da chegada de Cabral, da presença islâmica em solo brasileiro, iniciando pelo Islã de escravidão e, por último, dos movimentos de imigração procedentes em sua maioria da Grande Síria, Líbano e outros; até que cheguemos ao estágio atual do islamismo em solo brasileiro; extraindo, portanto, desta base histórica, uma visão mais ampla e segura, fator que certamente oferecerá importantes subsídios para entender a legitimidade ou não de um Islã brasileiro.
Hoje, diante dos olhares perscrutadores dos pesquisadores do Islã no Brasil, estão patentes duas realidades que nos desafiam a entendê-las em sua complexidade e variantes culturais, políticas, ideológicas e étnicas, para não falar de outras categorias, quase sem fim, ou seja, a imensa colcha de retalhos que envolvem o islamismo de imigração e sua intricada relação com o islamismo de reversão. E, ainda neste desafio, desta pesquisa, situar o nosso objeto principal de investigação: a mulher muçulmana e seu desempenho, com ênfase para o aspecto da religiosidade em São Paulo.
Entendemos que há, a priori, conflitos nesta relação. Se há conflitos, o desejo de resolvê-los se torna latente. Para que dois grupos com sistemas interétnicos definidos possam coexistir, as categorias ideológicas, culturais, políticas e étnicas deverão sofrer uma adequação sob a regência da categoria maior, neste caso, a religião. Quando esta adequação e por assim dizer acomodação, não acontece e persiste o que Oliveira denomina de fricções interétnicas, eivadas de conflitos, latentes ou manifestos, é criada, na perspectiva de um grupo e de outro, uma visão própria de mundo que se estrutura a partir da visão particular de cada um, ou seja, surge o fenômeno da estigmatização do outro pela visão que eu estou atribuindo a ele e pelo que eu identifico nele. (OLIVEIRA, 1976, p. 72).
A arabização, possivelmente, seja o epicentro do terremoto que abala e ao mesmo tempo alimenta o sonho, por parte de muçulmanas e muçulmanos revertidos, de um Islã brasileiro.
82
No Brasil, a comunidade muçulmana é basicamente formada por uma maioria de imigrantes árabes e seus descendentes, o que propiciou traços daquela cultura. Assim como o “particularismo árabe predominou sobre o “universalismo Islâmico”. No Brasil, os árabes, na maioria das vezes, têm ditado os rumos do Islã conforme seus traços culturais e étnicos. Essa “arabização” tem gerado conflitos entre esses dois grupos.
Os brasileiros, de modo geral, que reverteram ao Islã, buscam, antes de tudo, o conhecimento sobre a religião islâmica, “a religião pura”, o “Islã verdadeiro” ou ainda um “Islã brasileiro” ou um “Islã com rosto mais brasileiro” (MARQUES, 2008, p. 4) Os revertidos, segundo Marques, estão mais interessados na categoria religiosa e a buscam com esmero. Por outro lado, encontramos em São Paulo, possivelmente o maior contingente de árabes e descendentes da religião islâmica, no Brasil, uma realidade que parece indicar uma preocupação maior destes com a cultura árabe propriamente dita, do que com o Islã, religiosamente falando.
Observamos ali que as instituições islâmicas mais numerosas e mais atuantes não se separam de uma identidade árabe. Em visita pessoal à mesquita Brasil63, localizada na Avenida do Estado, em São Paulo, de orientação sunita, pude perceber que o “arabismo” está impregnado no ar. O etnicismo não é, em hipótese alguma, nem mesmo disfarçado. Fui recebido pelo gerente da mesquita Alli Majdoub. Conversou comigo em português, porém, seu sotaque era claramente perceptível. Fui tratado cordialmente. Acontecia um grande almoço comunitário e fui gentilmente convidado para tal. Não aceitei, pois havia almoçado momentos antes.
Notei que homens e mulheres se misturavam às mesas e que algumas estavam sem o hijab. Pude, também, em instantes, sentir que estava sendo observado por muitos olhares que se dirigiam das mesas em minha direção e na de minha filha Kamilla, que nesta ocasião me acompanhou. Houve mais discrição por parte das mulheres que dos homens. Alli Instruiu-me como transitar pelas dependências da mesquita, enquanto aguardava a possibilidade de ser recebido por mulheres membros daquela comunidade e que seriam entrevistadas por mim, com intermediação de S. F., secretária da mesquita e muçulmana imigrante de terceira geração. O hall de circulação e as paredes do salão de festas estavam repletos de cartazes de fino acabamento e com frases em árabe transliteradas para o
63 Mesquita Brasil – Orientação Islâmica Sunita. Absoluta maioria dos membros são imigrantes árabes libaneses
83
Português. Algumas já eram minhas velhas conhecidas, tais como: Hajj, que anunciava o período de peregrinação a Meca. Salah, que indicava as cinco orações diárias. Qu´rãn, algo que fazia referência ao livro sagrado do Islã e o Ramadã, talvez o mais fácil, por ser transliterado como se pronuncia em português, referindo-se ao nono mês do calendário lunar e o mês sagrado dos muçulmanos. Ainda observando, pude notar que havia várias fotos de personalidades masculinas em pontos diferentes do salão contiguo a mesquita. Perguntei quem eram aquelas pessoas. Alli me disse que eram árabes que se destacaram em algumas áreas das ciências, tais como medicina, farmácia, engenharia e outros.
Não havia nenhuma foto de mulher. Vou falar mais desse encontro, porém, o que relatei até aqui, revela que eu estava inserido em um ambiente arabizado. Momentos depois, de iniciar a conversa com o gerente Alli Majdoub, chegou o Sheik Abdelhamed Metwally, egípcio que vive há seis anos no Brasil e há três lidera religiosamente a mesquita Brasil em São Paulo . Este nem olhou para mim. Apenas se dirigiu a Alli em uma conversa rápida e em árabe. Em seguida se retirou para realizar um ofício fúnebre de alguém que pertencia àquela comunidade. Só soube que era o Sheik porque Alli me disse.
Vamos considerar, hipoteticamente, que eu me revertesse ao Islã e elegesse como minha comunidade a mesquita Brasil, teria muitas dificuldades para me ambientar e adaptar. Primeiro com a arabização e em seguida com a questão étnica. Experiências como esta, pela qual passei, está bem aquém daquelas que a maioria dos revertidos brasileiros tem experimentado. Daí, agasalhar no peito, por parte das revertidas e revertidos brasileiros, um desejo por um islã não arabizado.
Essas dificuldades poderiam ser vencidas. Porém, levaria tempo. Há ainda a questão, talvez a mais difícil de todas: a aceitação, o sentimento de pertença. Neste caso hipotético, não bastaria a religião para conferir-me este sentimento de pertença ao grupo. Não bastaria o islamismo, teria que aderir também ao arabismo. Neste caso, as questões étnicas sobrepõem às questões religiosas.
84