2.3. The Bargain
2.3.1. Article VI: the obligation to disarm
Aquela entrevistada de classe média, que se sentia completamente protegida contra o HIV por seus valores e estilo de vida, comentou sobre sua frustração conseqüente à percepção de que sua verdade não condizia com a realidade, por meio do seguinte relato:
“Tem hora que eu fico pensando... eu acho que eu não tenho nada diferente da prostituta, por exemplo. A minha postura, com relação à vida, e a postura dela... que ela teve... a escolha que ela fez... o vírus é o mesmo. Ele não é mais danoso em mim ou nela porque a minha postura foi diferente da dela. [...]. Uma coisa... uma postura que eu tenho desde que eu me entendo por gente, que é assim... desde a minha adolescência, né, é de tá com a minha consciência tranqüila. É agir conforme eu sempre acreditei... a postura que eu tenho com relação à vida... as coisas que eu acredito. [...]. Porque eu sei como eu contraí, eu sei a minha postura qual foi. Então, o importante é o que eu penso... a maneira que eu sempre agi. Porque eu acreditei ser correta... o que aconteceu foi uma fatalidade! [...]. Eu mesma achava minha vida tão segura! Muito segura!”
Essa mulher percebeu que a infecção pelo HIV a assemelhou a uma prostituta, apesar da sua diferença de postura em relação à mesma. Isso significa que a realidade posta pelo seu diagnóstico corrompeu sua crença de que suas atitudes, sob as quais imaginava-se protegida contra o HIV, definiam uma das suas diferenças em relação a uma prostituta.
Apesar dessa percepção, a entrevistada se defendeu insistindo em seu perfil de verdades próprias como a razão da sua inocência, afirmando-se vítima de uma “fatalidade” que não fez por merecer. Argumentou que “tem a consciência tranqüila
pela certeza de que não contraiu o HIV em conseqüência de suas próprias atitudes”; afinal, sua vida era “muito segura” em relação a essa possibilidade. Acreditava ter investido em um projeto diferente do de uma prostituta que, entretanto, não lhe assegurou que realmente era diferente desta. Isso evidenciou uma realidade incoerente com a sua verdade, frustrando o conjunto de valores sob os quais se sentia protegida. Esse conjunto de valores é o mesmo que, atualmente, lhe serve de apoio para se sentir inocente.
A esse respeito, aquela outra entrevistada de 26 anos de idade que sempre questiona a veracidade do seu diagnóstico durante as consultas, discorreu sobre o seu questionamento da seguinte maneira:
“Eu tenho quase certeza que não tenho o vírus, mas, esse tipo de doença minha acusou... então... não reconhece. Então eu não tinha outra saída a não ser passar por isso. Então eu tô consciente disso. [...]. É porque, esse negócio, um moço que... ele é médico, mas só que ele é médico espírito. Então ele disse: - Você não tem isso que o exame deu, mas você tem que passar por isso. Então ele fez eu encarar isso com a forma mais responsável. Eu acho que um dia eu vou fazer o exame, o exame vai dar negativo... e tudo vai se resolver. [...]. Porque a minha filha também um dia vai ter que passar pelo mesmo que eu tô passando. O exame dela deu negativo, mas um dia, que ela virar moça, ela vai ter que tratar também. [..]. Eu acho que precisa passar pra cuidar. Pecado eu não acho. É porque eu fiquei com a pessoa errada. [...]. Porque ele tinha que ter me falado. Se ele tivesse me falado eu não tinha ficado com ele. Se eu não tivesse ficado com ele eu não estaria passando por isso.”
Essa mulher negou que seja portadora do HIV, mas assimilou que precisava vivenciar as representações do diagnóstico dessa infecção. Fez tal elaboração a partir de um significado alternativo, dado ao mesmo, proposto por uma influente personalidade presente em seu ambiente sócio-cultural, representada pelo curandeiro. Foi orientada por este a compreender a seriedade do seu diagnóstico, porém, como algo apenas transversal à sua existência.
Mais uma vez o conflito da infecção pelo HIV se deu em relação às crenças do seu portador. O diagnóstico dado por um médico formal foi confrontado com o que foi dado por um “médico” identificado com suas crenças. A orientação dela é por esse último, ou seja, por aquilo em que acredita a partir de sua inserção cultural, e não pela ciência.
O fato de ter se aproximado afetivamente de uma pessoa infectada foi tomado com um erro do qual se tornou vítima. Como esse erro não partiu do seu desejo, não se sente culpada por ter contraído o HIV.
Mesmo assim admitiu que está pagando por tal vacilo, pois “se [...] não tivesse ficado com a pessoa errada não estaria passando por isso”. Em sua compreensão, precisou passar pelas representações do diagnóstico da infecção pelo HIV para aprender a ser mais precavida, como se essa passagem fosse um ritual de aquisição de experiência existencial.
Ainda a respeito da forma como as pessoas que não se sentiram culpadas por terem contraído o HIV elaboraram a experiência do diagnóstico, um entrevistado de 49 anos de idade, que se infectou depois que a esposa o deixou por conflitos de relacionamento conjugal, relatou o seguinte:
“Hoje eu me pergunto assim, eu freqüentei, tanto tão poucas mulheres, né, e eu tô com essa doença! [...]. De eu ter passado 21 anos com ela e ela ter me deixado eu sozinho, sem emprego sem nada, e ela queria viver a vida dela. É como eu falei que eu gosto muito da minha casa, eu gosto muito de dormir no meu lençol, eu gosto de dormir, não gosto de sair, não gosto de bagunça. Então, eu culpei a minha primeira parceira. Não foi ela que me passou o HIV. Foi da saída dela pra cá. Eu culpei ela assim, porque, se ela não tivesse saído de casa eu não tinha procurado outra, porque eu não era de outra pessoa.”
Esse trabalhador questionou a razão por ter se infectado pelo HIV, imaginando não ter dado motivos para isto.
Culpou a ex-esposa dizendo que, ao ir embora, ela o deixou sem referenciais. Na tentativa de substituí-la, encontrou uma mulher que lhe transmitiu o HIV.
Dessa forma, posicionou-se como vítima do processo que culminou com a sua infecção pelo HIV, descrevendo sua situação como fatalmente contrária às suas intenções, instituindo-se, portanto, inocência.
6.3.3.6 A resistência à desvalorização por meio da auto-idealização e do estigma