É importante lembrar que não é necessário ser uma grande empresa para ter atitudes que visem a proteção ao meio ambiente, a prevenção à poluição, a redução no consumo de
recursos, ou a diminuição dos resíduos gerados. Micro, pequenas e médias empresas também podem fazer a sua parte. Muitas vezes, pequenas alterações de procedimentos e processos podem representar melhorias em relação à sustentabilidade gerando, na maioria dos casos benefícios econômicos para a empresa. A seguir serão destacados alguns dos muitos cases resultantes da atuação do Centro Nacional de Tecnologias Limpas – CNTL –, localizado no estado do Rio Grande do Sul, com o programa P+L. (CNTL, 2007c).
O primeiro caso é o da Indústria de Doces Caseiros Crochemore Ltda, fundada em 1987 em Pelotas (RS) e que conta com 12 funcionários. Na empresa, que produz doces em massa, geléias, cristalizados, pães e queijos para o mercado nacional, foi verificada perda de água na forma de condensado de vapor que saía da caldeira na etapa de cozimento. A partir da observação deste processo, foi feita uma alteração para que o condensado de vapor fosse recolhido através de tubulação e reaproveitado no próprio reservatório de água da caldeira como mostra a Figura 6 abaixo. Desta forma economizou-se água e, como essa água reaproveitada está em alta temperatura foi possível a redução no consumo de madeira na alimentação da caldeira.
Figura 6 – Aplicação de PmaisL em indústria de doces.
Além disso, reduziu-se a produção de resíduo de bagaços de laranja através da produção de geléias azedas de casca de laranja. Foi reduzido também o consumo de celofane através de mudanças no acondicionamento de doces. Os investimentos totais foram de R$ 501,00 e o benefício econômico de R$ 4.636,24/ano. Já os benefícios ambientais foram a economia de água e de geração de vapor de 387 m3/ano, 38,7 m3/ano de lenha, 106 kg/ano de produtos químicos que eram utilizados para o tratamento de efluentes líquidos, 1,38 kg/ano de bagaço de laranja e 15 kg/ano de papel celofane.
Outro caso é o da Embala Indústria de Alimentos Ltda, também de Pelotas e com 10 funcionários. Nessa empresa, fundada em 1997 e que produz biscoitos doces, salgados e massas alimentícias para o mercado nacional, foi possível reduzir o consumo de água em 109 m3/ano e o de energia em 648 kWh/ano. Isso foi possível através da alteração na tecnologia utilizada para a lavagem dos pêssegos utilizados. O processo antigo era feito com canos furados, porém esses furos nem sempre direcionavam a água na direção correta. O problema foi resolvido com bicos aspersores que além de direcionarem corretamente a água, permitem uma redução no consumo da mesma. A economia de energia, por sua vez, foi possível pela troca das lâmpadas utilizadas. Um outro ponto importante foi a regularização ambiental da empresa através da obtenção de seu cadastro de consumidor de lenha junto ao órgão ambiental. Os investimentos foram de R$ 253,95 e geraram uma economia de R$ 678,72/ano.
No setor de plásticos, medidas de PmaisL também podem ajudar pequenas empresas a melhorarem seus processos. O exemplo é da Bioplast – Indústria e Comércio de Plásticos Ltda, empresa de Porto Alegre (RS), com 15 funcionários. A empresa, fundada em 1992, produz materiais plásticos para laboratório e injeção de peças plásticas para os mercados nacional e internacional. Neste caso foi observada a geração de resíduos de plástico durante a etapa de moagem, e conseqüente perda de material. Estes resíduos que eram anteriormente coletados por uma caixa passaram a ser coletados através de um silo que permitiu o reaproveitamento de 93% desse material. Além disso, foi feito o isolamento do moinho e mudança no Lay-Out da empresa de forma a diminuir os ruídos e proporcionar um melhor ambiente de trabalho. Para tanto o investimento foi de R$ 200,00 e permitiu uma redução de 296 kg/ano de resíduos além de gerar um benefício econômico de R$ 6.000,00/ano.
O setor da construção civil é outro que pode ainda passar por muitas melhorias. É o que ocorreu com a Arquisul Arquiteturas e Construções Ltda fundada em 1969 e que conta com 17 funcionários. Atuando na cidade de Porto Alegre na área de edificações residenciais e comerciais, a empresa observou grande desperdício e geração de resíduos com a madeira que era utilizada para a forma e desforma das lajes. Não havia, por parte da empresa, nenhum
controle da quantidade de madeira utilizada pelo empreiteiro, visto que este é que fornecia a madeira. Através de uma padronização nos projetos das formas e reutilização da madeira após a desforma para proteção, bandejas e caixas de passagem, e armazenagem de possíveis restos foi possível economizar R$ 492,50 e 20 chapas de compensado em cada laje. Isso permitiu diminuir os riscos de exposição dos trabalhadores a serra, poeira e ruído, além de permitir uma diminuição do valor do contrato da empresa com o empreiteiro para o próximo empreendimento.
No caso da III Milenium Confecções Ltda; empresa de Caxias do Sul fundada em 1998, com 25 funcionários e que produz artigos de moda feminina para festa destinados ao mercado nacional; a introdução da PmaisL permitiu a economia de 343,12 kg de aparas de tecido, 2,2 kg de pedrarias e reaproveitamento de 34 kg de aparas por ano. Esse resultado foi possível a través de um investimento de R$ 14.450,00 e gerou um benefício econômico de R$ 32.076,12/ano. A grande quantidade de aparas geradas na etapa de corte dos tecidos foi reduzida alterando-se o sistema de encaixe para cada tecido e aplicando o eco-design, ou seja a utilização das aparas como adereços decorativos nas peças produzidas.
Caso semelhante foi o da empresa Janimar Indústria de Cuecas Ltda também de Caxias do Sul. Para esta empresa, fundada em 1999 e que conta com 30 funcionários na produção de cuecas para o mercado nacional, a alteração do sistema de encaixe para o corte dos tecidos permitiu evitar a geração de 245,42 kg/ano de aparas por ano. Uma economia de 12 kg de fita adesiva por ano também foi possibilitada pela substituição do sistema de embalagem. Essas ações permitiram um ganho de R$ 14.641,10/ano com um investimento de R$ 8.200,00.
As pequenas e médias empresas (PME’s), como as descritas acima, atendem mercados locais, regionais ou nacionais. São empresas com pequeno número de funcionários e com recursos limitados. Seu planejamento é, geralmente, de curto prazo e sua capacidade de investimento é pequena. É por isso que essas empresas podem encontrar muitas vantagens na adoção da PmaisL. Essa prática coloca a empresa, que se engaja, em um círculo virtuoso de melhoria contínua. As melhorias, tanto de processos quanto de produtos, são novas práticas muitas vezes simples de serem adotadas e que podem ser de grande importância na sobrevivência das PME’s visto que podem significar benefícios econômicos significativos.