• No results found

Requirement specification

5.4 Archetypes and Template Design

Outro aspecto importante na teoria de Lave e Wenger é a questão do Acesso em:. Tornar-se um membro “pleno” em uma Cop requer Acesso em: a uma gama de atividades em curso, aos veteranos e a outros membros da comunidade. Para ter Acesso em: à informação, são necessários recursos e oportunidades para a participação. O Acesso em: é um aspecto importante para o engajamento na Cop, e conecta questões de compreensão e controle que

34

“Learning itself is an improvised practice.”

35

estão envolvidas na produção da atividade e se relacionam à ‘periferalidade’36 legítima dos participantes na prática (LAVE; WENGER, 1991, p. 101).

Os artefatos empregados na prática – ou seja, a tecnologia da prática – fornecem um cenário de discussão e refletir sobre o Acesso em: à compreensão. Geralmente, os cientistas sociais não analisam os artefatos com base em suas inter-relações com outros aspectos da comunidade de prática. Nessa situação (a partir de uma perspectiva situada), é importante pensar nos artefatos e suas inter-relações, não pensá-los isoladamente. Tornar-se um pleno (full) participante inclui engajar-se com as tecnologias da prática diária, bem como participar das relações sociais, dos processos de produção e de outras atividades da comunidade de prática.

Com relação à tecnologia, Lave e Wenger (1991) trazem um exemplo baseado em um estudo de Hutchins (Cf. HUTCHINS, 1993), do uso da alidada37, um instrumento que auxilia nas orientações de rota e que foi inventado centenas de anos atrás. Ela incorpora cálculos inventados há muito tempo e mostra-nos que “compreender a tecnologia da prática é mais que aprender a usar ferramentas; é um modo de se conectar com a história da prática e participar mais diretamente da sua vida cultural.”38 (LAVE; WENGER, 1991, p. 101). As tecnologias da escrita retratam essa conexão; Chartier (1994 apud PAIVA, s/d) relata que o códex permitia uma melhor localização e um manuseio mais agradável do texto; a paginação, o índice, todos são elementos que favorecem a leitura para o leitor daquela época. E, hoje em dia, tecnologias como e-books revelam que a aprendizagem de seu uso nos conecta com a realidade cultural contemporânea.

Outro aspecto da teoria de Lave e Wenger é que o significado dos artefatos nas relações com a prática pode ser mais ou menos transparente para os aprendizes.

Obviamente, a transparência de alguma tecnologia sempre existe a respeito de algum propósito e é intrinsecamente vinculada à prática cultural e organização social dentro da qual a tecnologia destina-se a funcionar: ela não pode ser vista como uma característica de um artefato em si, mas como um processo que envolve formas específicas de participação, na qual a tecnologia cumpre uma função mediadora39 (LAVE; WENGER, 1991, p. 102, tradução nossa).

36

Periferality, em inglês. 37

Dispositivo metálico composto de régua e arco graduado, usado em alguns instrumentos ópticos para medição de ângulos (Houaiss, 2009).

38

“[…] understanding the technology of practice is more than learning to use tools: it is a way to connect with

the history of the practice and to participate more directly in its cultural life.”

39

"Obviously, the transparency of any technology always exists with respect to some purpose and is intricately tied to the cultural practice and social organization within which the technology is meant to function: It cannot be viewed as a feature of an artifact in itself but as a process that involves specific forms of participation, in which the technology fulfills a mediating function.”

O exemplo dos intendentes navais aprendizes mostrou que eles não só tinham Acesso em: aos artefatos, no contexto de fluxos de informação, como conversas, mas também davam sentido àquilo de que participavam, aquilo que observavam e ouviam. Assim:

Ao focalizar o papel epistemológico dos artefatos no contexto da organização social do conhecimento, esta noção de transparência constitui, por assim dizer, a organização cultural do Acesso em:. Como tal, ela não se aplica apenas à tecnologia, mas a todas as formas de Acesso em: à prática. Atividade produtiva e compreensão não estão separadas, nem mesmo são separáveis (divisíveis), mas, sim, dialeticamente relacionadas. Então, o termo transparência, quando usado aqui na conexão com a tecnologia, refere-se ao modo pelo qual (em que) usar artefatos e compreender seu significado interagem para se tornar um processo de aprendizagem40 (LAVE; WENGER, 1991, p. 102-103, tradução nossa, grifo dos autores).

O conceito de transparência apresenta uma dualidade; ele combina as duas características invisibilidade e visibilidade. A primeira, “na forma de uma interpretação não problemática e a integração dentro da atividade” e a segunda, “na forma de Acesso em: estendido à informação”. Não é uma mera diferenciação dicotômica, uma vez que essas duas características estão em uma complexa interação, que tanto pode ser de conflito como sinergia. Lave e Wenger fazem uma analogia dessa interação, empregando a metáfora de uma janela. A invisibilidade da janela é que a constitui como uma janela: um objeto através do qual o mundo lá fora se torna visível. Neste fragmento, os autores transpõem esta ideia de visibilidade/invisibilidade para os artefatos tecnológicos:

A invisibilidade das tecnologias de mediação é necessária para permitir o foco no tema, e consequentemente sustentar a sua visibilidade. Por outro lado, a visibilidade do significado da tecnologia é necessária para permitir seu não problemático – invisível – uso. Esta interação de conflito e sinergia é central para todos os aspectos da aprendizagem na prática [...]. 41 (LAVE; WENGER, 1991, p. 103, tradução nossa).

As tecnologias são vistas como formas de Acesso em: à prática e o modo de usá- las compreendendo o seu significado na prática, na interação dialética, possibilita formas de aprendizagem.

40

“In focusing on the epistemological role of artifacts in the context of the social organization of knowledge, this

notion of transparency constitutes, as it were, the cultural organization of access. As such, it does not apply to technology only, but to all forms of access to practice. Productive activity and understanding are not separate, or even separable, but dialectically related. Thus, the term transparency when used here in connection with technology refers to the way in which using artifacts and understanding their significance interact to become one learning process.”

41

“Invisibility of mediating technologies is necessary for allowing focus on, and thus supporting visibility of, the

subject matter. Conversely, visibility of the significance of the technology is necessary for allowing its unproblematic – invisible – use. This interplay of conflict and synergy is central to all aspects of learning in practice […]”

O quadro teórico de Lave e Wenger (1991) apresenta diversas questões de tensão, como “sequestro” e “continuidade e deslocamento” para os indivíduos e a comunidade. Dependendo da instituição, o Acesso em: de novos membros pode ser negado com a delegação de tarefas muito marginais. Ou, então, o sequestro seria o mascaramento para os iniciantes de atividades das quais os participantes plenos (ou veteranos) em uma comunidade compreendem as declarações gerais. (KANES; LERMAN, 2008, p. 308). A continuidade e o deslocamento são as necessidades para manter a prática, mas as implicações da introdução de novos profissionais plenos para a prática pode ameaçar os membros já existentes. (KANES; LERMAN, 2008, p. 308).

Uma das maiores contradições reside na PPL como meio de alcançar a continuidade das gerações para a Cop e o deslocamento inerente ao mesmo processo de participantes plenos serem substituídos por “novatos que se tornam veteranos.” (LAVE; WENGER, 1991, p. 103)42. O conflito entre continuidade e deslocamento é parte da aprendizagem. Essa tensão é fundamental, e é uma contradição básica da reprodução, transformação e mudança social.

A aprendizagem situada significa o engajamento na Cop e a participação em Cops torna-se o processo fundamental da aprendizagem. As comunidades de prática formam parte do aspecto central dessa concepção de aprendizagem.