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Michel De Certeau (1988) afirma que a memória é como alguns tipos de aves, que depositam seus ovos não em seus próprios ninhos, mas nos de outras aves de outras espécies. Entendemos, com isso, que a memória subtrai sua forma e funcionamento das circunstâncias externas e as redistribui nas relações do sujeito consigo, com o espaço e com o outro à sua volta. Deste modo, segundo os construtos de De Certeau (1988), a mobilidade da memória se revela intrínseca ao seu caráter de alteração/Alteracional. Isto é, a memória obtém sua força intervencionária nas relações justamente devido sua predisposição a ser alterada, por se revelar constantemente passível de ser mobilizada. Assim, a permanente marca da memória é ser formada por outra memória ocasionada por outra circunstância e mobilizada por sua constante possibilidade de apreender uma outra.

Há, com isso, um duplo movimento de alteração segundo o trabalho da memória. Este movimento diz respeito à memória que trabalha quando algo a afeta, mas também em relação a seu objeto, que é retomado não mais como presença, mas apenas como recordação. Deste modo, percebemos que a memória, além de ser (re)construída a partir de eventos que são independentes dela, é também ligada à expectativa de que há sempre algo alheio ao presente funcionando como interferência, ponto de convergência, perda ou encontro.

Vemos, assim, que a memória vem de um lugar fora de si mesmo, movendo as coisas à sua volta e mediando, portanto, as transformações espaciais. Como apontado no final da subseção anterior, tanto a organização das ocasiões, quanto as transformações espaciais e

ainda as relações delimitadas pelo sujeito são executadas pela memória por meio de três procedimentos (DE CERTEAU, 1988). O primeiro diz respeito ao jogo de alteração. Nesse jogo, a memória é regulada por uma múltipla e constante atividade de alteração, não simplesmente porque ela é composta e marcada por ocorrências externas e por acumulação de sucessivas marcas inscritas na relação do sujeito com o mundo à sua volta, mas também porque essas inscrições invisíveis são trazidas à baila a partir das novas circunstâncias experimentadas pelo sujeito. A maneira pela qual elas são resgatadas corresponde, enfim, ao modo como elas foram interpretadas e inscritas. De Certeau (1988) afirma que talvez a memória não seja mais que um resgatar que deixa sua marca como um tipo de uma sobreposição no corpo que se altera constantemente.

O segundo procedimento apresentado pelo autor se refere ao modo singular com que a memória responde a esse jogo de alteração. Isto é, a memória é composta por fragmentos e, por isso, cada detalhe de uma dada circunstância pode ser “eleito” como memória. Cada fragmento emergente em uma ocasião diz respeito a um conjunto mais abrangente de fragmentos. Assim, De Certeau (1988) afirma que cada fragmento de memória se sobressai em uma relação metonímica com seu todo. Cada fragmento da memória se revela, então, singular e com força demonstrativa, uma vez que um cheiro, um objeto ou qualquer outra coisa pode interferir – como uma recordação, um resgate, um recall –, demonstrando fragmentos do passado em uma dada ocasião presente. Dizemos, portanto, que o detalhe concreto – o objeto – se conecta a um traço singular “sugerido” pela memória em um dado evento, em dada ocasião modificando de alguma forma o momento presente.

O terceiro e último artifício levantado por De Certeau (1988) trata justamente da mobilidade da memória, cujos detalhes a serem ordenados podem ser sempre outra coisa, demonstrando seu caráter confuso por ser sempre passível de ser algo mais. Ou seja, o autor salienta que tais detalhes não são objetos, uma vez que eles são apenas uma alusão dos objetos; não são também totalidades, já que eles não são autossuficientes; não são estáveis, uma vez que cada resgate de recordação faz com que sofram alterações ao serem ordenados de acordo com a ocasião. Segundo De Certeau (1988), este movimento desordenado, rumo a lugar nenhum ou lugar incerto, apresenta a mesma sutiliza e dinâmica encontrada no mundo cibernético. Este movimento dinâmico tem a ver com o modo como que as relações serão delimitadas e o poder distribuído na constituição e funcionamento de um espaço.

A forma com que a memória se organiza em meio às ocasiões, em movimentos não programados e dinâmicos gera uma desordem transportada para o lugar no qual o sujeito atua, podendo configurá-lo como um espaço confuso.

O termo espaço confuso foi discretamente citado por Foucault ([1975] 2005) em seu livro sobre a História da violência nas prisões no Capítulo III, intitulado O Panoptismo. Para Foucault ([1975] 2005) o advento da peste e da lepra trilhou a humanidade na criação e manutenção de modelos de exclusão e de técnicas disciplinares. Utilizando esquemas diferentes, mas compatíveis, tanto a lepra quanto a peste fomentaram técnicas incorporadas pela sociedade no exercício do poder e em seus mecanismos de marcar e excluir o sujeito, classificando-o como anormal. Assim, segundo o autor, a lepra introduziu mecanismos de separação tidos como o grande fechamento, enquanto a peste propiciou técnicas disciplinares para o bom treinamento do sujeito. Em suas palavras:

A lepra e sua divisão; a peste e seus recortes. Uma é marcada; a outra, analisada e repartida. O exílio do leproso e a prisão da peste não trazem consigo o mesmo sonho político. Um é o de uma comunidade pura, o outro, o de uma sociedade disciplinar. Duas maneiras de exercer poder sobre os homens, de controlar suas relações, de desmanchar suas perigosas misturas (FOUCAULT [1975] 2005, p. 164).

Com o surgimento da peste no fim do século XVII, foram adotadas medidas de vigilância e reclusão para controle no contágio e extermínio da doença. As autoridades se viram impelidas a localizar, examinar e distribuir, classificar a população entre vivos, doentes e mortos. O espaço passa a ser fechado e sob vigilância constante, uma prisão. Cada movimento nessa esfera é registrado, reportado e controlado, constituindo um mecanismo de ordem disciplinar.

Foucault ([1975] 2005) afirma que a ordem estabelecida para o combate à peste tem a função essencial de desfazer as confusões trazidas pela doença, a saber, a confusão envolta no perigo do contágio da doença por meio dos corpos que se misturam e aquela referente ao mal que se alastra na medida em que o medo e a morte fazem com que as proibições sejam desfeitas. A confusão se instala, assim, também por uma ação da memória sobre o objeto peste, recriando as extensões e o medo da doença como um perigo iminente, mas também como forma imaginária.

A lepra, por sua vez, suscita o grande fechamento – a internação –, cujos modelos de exclusão são constituídos a partir da ramificação e intensificação do poder. A doença e o sujeito se misturam e se confundem, e falar da doença é definir o leproso como um estado do ser. Também no caso da peste, o sujeito pestilento é colocado em submissão total às autoridades que na ordem disciplinar dita as regras, os limites, a lei. Leprosos e pestilentos passam a ser assujeitados à doença. Segundo Foucault ([1975] 2005):

O leproso é visto dentro de uma prática da rejeição, do exílio-cerca; deixa-se que se perca lá dentro como numa massa que não tem muita importância diferenciar; os

pestilentos são considerados num policiamento tático meticuloso onde as diferenciações individuais são os efeitos limitantes de um poder que se multiplica, se articula e se subdivide (FOUCAULT [1975] 2005, p. 164).

Deste modo, segundo o autor, todos os métodos de exclusão e esquemas disciplinares socialmente exercitados em nossos dias têm sua origem no tratamento preventivo que a sociedade desenvolveu como resposta ao surgimento de peste e da lepra. Mais que isso, para Foucault ([1975] 2005), as confusões e desordens dos esquemas disciplinares configurados em nossas instituições (disciplinares) têm sua origem na imagem da peste, assim como todo esquema de exclusão carrega consigo a imagem da lepra, como um contato com um indivíduo anormal que precisa ser tratado como tal e, portanto, isolado.

Foucault ([1975] 2005) ainda ressalta que a partir do século XIX o espaço de internação – o grande fechamento – passou a ser habitado por leprosos, cuja lepra era a anormalidade. Isto é, neste fechamento se encontravam aqueles que, uma vez à margem, deveriam compor um mesmo grupo de desvalidos. Na internação, encontravam-se, portanto, bêbados, mendigos, vagabundos, loucos, violentos, assassinos, etc.

Os esquemas envolvidos no tratamento da peste e da lepra por meio da memória e do exercício de controle, exclusão, de vigiar e também de punir aproximaram-se, portanto, um do outro, configurando importantes aspectos daquilo que entendemos hoje como internação, reclusão, prisão, reabilitação. Esses lugares, ao serem exercitados pelo sujeito, a memória e as relações tornam-se um espaço iminentemente confuso. Ainda em outras palavras, compreendemos que, no espaço confuso do tratamento com o leproso (social), os princípios do tratamento da peste foram gradativamente incorporados por meio da memória – individual, coletiva, ou do lugar -, a fim de possibilitar que as confusões fossem desfeitas por meio da ordem disciplinar, e é assim que se estabelece a relação entre memória e espaço confuso. O espaço de exclusão do leproso passa a receber, assim, a técnica de quadriculamento disciplinar.

Entendemos para a concepção da presente pesquisa, que as características das definições e tentativas de controle de ambas as doenças se entrelaçam, sendo afuniladas para que fosse construído daí, o espaço confuso sub o qual, muitas instituições modernas estão fundamentadas, ainda que inconscientemente. O caso da unidade socioeducativa para os menores em conflito com a lei faz parte dessas instituições que mobilizam, via memória, tais características. Formulamos, deste modo, a FIG. 1 abaixo, que condensa as principais características constituintes do espaço confuso e continuamente retomadas em nossa análise.

Fonte -

Segundo Foucault ([19 assim, desde o começo estabelecimentos de escola vi básicos: a) o tratamento d b) a projeção de internamento; c) o trabalho com d) a individualiza exclusão. Desse modo, o autor funcionamento interno dessa (categorizando a marcação e característica, ou outra; exemp da repartição, da divisão difer reconhecê-lo; como vigiá-lo et Entendemos, pois, qu sujeito cuja memória e histór

Esp

Prisã Orde Discip Reco Sente Separa Classific Contr imagin

- Elaborado pela autora.

[1975] 2005, p. 165), a técnica de quadriculame do século XIX por asilos psiquiátricos,

vigiada, etc. Tal técnica é constituída partir de q

do indivíduo (leproso) como pestilento;

de recortes disciplinares rigorosos sobre o esp

m métodos de repartição analítica do poder; ização dos excluídos por meio de processos q

tor define que todas as esferas do controle i ssa instituição trabalham o duplo modo, da entre uma coisa ou outra; um comportamento,

plo: perigoso x inofensivo); e da determinação c ferencial; exemplo: quem o sujeito é; onde ele d etc.).

que o espaço é então confuso quando o lugar tória coexistem em (não) harmonia, (des)ordena

Espaço Confuso

Internação Grande Fechamento Exílio Divisão binária Separação múltipla Vigilância Rejeição Controle Prisão rdem isciplina ecorte ntença paração ssificação ontrole aginário PESTE LEPRA

M

E

M

Ó

R

I

A

mento é realizada, s, penitenciárias, quatro princípios spaço confuso do s que marquem a individual e do a divisão binária to, ou outro; uma coercitiva (aquela deve estar; como

r é habitado pelo nando a realidade,

transformando limites e é des investigação. Vejamos a FIG.

A lepra e a peste e se recall de uma ocasião fundam de espaço (confuso) de interna sua origem e de seu sujeito.

O lugar de internação um espaço quadriculado com um adolescente após uma infr forma de desmantelar a p disciplina(da)r, que caminha como uma divisão, um recor sociedade do infrator interno, m

No entanto, é necessár (da sala de aula e em última transitam entre os significante Pensando em tal quest pesquisa.

Sujeit

Memór

este modo que cunhamos o termo “espaço conf . 2 abaixo.

Figura 2 - Sujeito memória e LEI no ILE

Fonte - Elaborado pela autora.

seu decorrente tratamento e desdobramento apar mental que proporcionou uma desordem transport nação, sobre o qual atua ainda a memória desorde

o para menores infratores carrega consigo traços m todo o jogo da memória que aí transita. Assim, fração grave serve como punição e, ao mesmo te perigosa mistura desse sujeito-infrator com a dentro das regras estabelecidas. O centro se

orte, um espaço marcado que divide e “protege , mas a internação vem pregada a uma memória i sário ainda interrogar o que movimenta e caract a instância da unidade socioeducativa) cujas oca tes prisional e educacional?

estão, articularemos a teoria exposta acima com

jeito

mória

Memória

do

espaço

E sp a ço c o n fu so d e n tr o e f o ra d a L E I / IL E

nfuso” para nossa

parecem como um ortada à concepção denada e móvel de

os da formação de m, a internação de tempo, como uma om a sociedade e constitui, assim, ege” o restante da a indelével. cteriza um espaço casiões e memória m nosso objeto de

ria

3.3 ESPAÇO EDUCACIONAL OU PRISIONAL? QUE LUGAR É ESSE? EIS A