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A despeito das divergências entre os seus fundadores acerca do lugar de Deus no universo, do papel da dedução matemática e da experimentação na investigação da natureza e da modalidade de transmissão da ação física, não resta dúvida de que, a partir do século XVII, instituiu-se uma nova imagem do mundo material na Europa Ocidental. O mundo passou a ser concebido como uma grande máquina perfeita, regida por um conjunto de leis universais eternas, decretadas por um Criador inteligente. Os fenômenos naturais passaram a ser vistos como uniformes e regulares e a natureza, concebida como sendo matemática em sua estrutura.

Esta concepção mecanicista da natureza, por sua vez, implicou uma perspectiva explicativa determinística e reducionista. Acreditava-se ser possível fazer previsões absolutas e exatas dos fenômenos naturais, através de leis matemáticas invariáveis, e buscava-se compreender o funcionamento de sistemas como um todo decompondo- os em suas partes constituintes. A modalidade de explicação priorizada consistia em leis mecânicas, expressas em linguagem matemática, sendo rechaçadas as explicações teleológicas. Predominava o uso do método experimental-matemático newtoniano. A partir da experimentação, apreendiam-se as variáveis envolvidas na produção dos fenômenos, definindo-se o seu comportamento matemático. Princípios matemáticos eram, então, deduzidos e posteriormente verificados e demonstrados através da experimentação (Burtt, 1983:176).

A partir do século XVIII, no entanto, uma nova imagem de natureza começou a desenvolver-se no seio da história natural e da química, contrapondo-se ao mecanicismo, associado, naquele momento, a uma “ciência profissionalizada, hermética aos não associados e distante do senso comum” (Abrantes 1998:125). Alguns filósofos e cientistas, como, por exemplo, Diderot, em sua obra Da

interpretação da natureza, começaram a denunciar a insuficiência da filosofia

mecânica para a explicação de características do mundo vivo, como a capacidade de reprodução e desenvolvimento dos organismos.

Como vimos, na metafísica cartesiana, a metáfora mecânica da máquina, utilizada na interpretação dos fenômenos inanimados, era igualmente aplicada à explicação dos fenômenos vivos. Não havia distinção qualitativa entre as coisas vivas e não-vivas. Os corpos dos animais, e até mesmo o dos homens, eram considerados manifestações da res extensa, de maneira que seu funcionamento também seria passível de explicação mecânica. A matéria, fosse ela constituinte de um ser vivo ou de um ser inanimado, era destituída de qualquer atividade geradora.

Após retirar da natureza qualquer poder gerador, os mecanicistas ofereciam como explicação para a geração e reprodução da vida o preformacionismo, o qual, na sua forma mais extremada, propunha que Deus havia criado as sementes de todos os seres vivos no momento da criação, de maneira que, em qualquer desenvolvimento, formas preexistentes eram exibidas (Abrantes 1998:126).

Em resposta às dificuldades que o mecanicismo cartesiano enfrentava na explicação dos fenômenos vivos, foi fundada uma nova imagem de natureza, a da

„natureza-organismo‟ (Abrantes 1998: 124). Esta nova imagem procurava dotar a matéria, em especial, a matéria orgânica, de vida e atividade geradora. Neste contexto, o preformacionismo, por exemplo, cedeu lugar à epigênese, através da qual o desenvolvimento do organismo passou a ser explicado, introduzindo-se uma espécie de temporalidade na ordem natural e atribuindo-se poderes ativos à matéria. Concebeu-se a existência de um embrião, que se diferenciaria gradualmente a partir de uma massa homogênea inicial (Abrantes 1998:126).

Originava-se, assim, uma nova imagem de natureza, que, de acordo com Gillispie, procurava descrever os fenômenos naturais “em termos das categorias de organismo e consciência, e não em termos de uma matéria impessoal em movimento inanimado” (Gillispie 1970, v.4, p. 88 apud Abrantes 1998:126). Na França do século XVIII, a essa imagem de natureza encontrava-se associada uma imagem de ciência, que não mais tinha a Física newtoniana como paradigma, mas adotava como modelos de ciência a química e a história natural (Abrantes 1998: 126). As ditas „qualidades secundárias‟ foram revalorizadas na investigação da natureza, a legitimidade do emprego da matemática no estudo dos fenômenos naturais foi questionada e o uso de hipóteses acerca de entidades que não podiam ser observadas e testadas diretamente passou a ser admissível.

A ânsia de dotar a matéria de atividade geradora levou alguns filósofos fundadores da imagem da natureza-organismo a adotarem como ontologia a concepção de que existe uma espécie de alma ou força vital na matéria viva, dando origem ao „vitalismo‟. Essa doutrina vitalista clássica defendia que os fenômenos biológicos eram determinados por forças vitais, concebendo a vida como uma manifestação direta da alma. Na concepção dos vitalistas do século XVIII, os fenômenos vitais não eram passíveis de explicação e descrição a partir de uma perspectiva física, uma vez que a alma ou força vital seria auto-explicativa e impossível de ser apreendida pela investigação científica (Emmeche et al. 1997; Abbagnano 2000). Opunha-se a esse vitalismo clássico o materialismo mecânico, o qual sustentava que a maior parte dos fenômenos biológicos, se não todos eles, era passível de ser descrita e explicada em termos físicos e químicos (Emmeche et al. 1997).

De acordo com Emmeche e colaboradores (1997), o debate entre vitalismo e mecanicismo foi continuamente influenciado pelas descobertas científicas, sofrendo

transformações graduais e mudando de tônica no século XIX. Após as novas descobertas da bioquímica, neurofisiologia e biologia celular, a exemplo das constatações de que os impulsos nervosos eram elétricos, de que a distinção entre sensação e reação motora estava correlacionada a diferentes tecidos nervosos, ou ainda de que todos organismos eram compostos de células, os vitalistas foram, gradativamente, estreitando o seu ponto de vista e adotando alguns aspectos cruciais da visão antes sustentada pelos mecanicistas. Eles começaram a admitir, por exemplo, que um amplo espectro de fenômenos biológicos poderia ser explicado cientificamente e que apenas as funções psicológicas de nível superior seriam irredutíveis. Os vitalistas persistiam, no entanto, com a defesa da idéia de que havia uma diferença crucia entre a matéria orgânica e a matéria inorgânica. A força vital não era mais vista, contudo, como causa última de todos os fenômenos biológicos, tendo sua ação restringida ao direcionamento da evolução, através da condução teleológica das entidades vivas.

O programa reducionista, herdeiro do mecanicismo dos séculos XVII e XVIII, se tornou, por sua vez, cada vez mais extremado no século XIX, afirmando que todos os fenômenos, incluindo os psicológicos, eram redutíveis à física e à química. No reducionismo do século XIX, não havia mais lugar para Deus nas explicações científicas, como anteriormente admitido na descrição mecanicista da natureza do século XVII (Emmeche et al. 1997).

De acordo com Mayr (1982: 51-52), por volta dos anos de 1920 e 1930, os biólogos haviam rejeitado tanto vitalismo como o mecanicismo estrito dos séculos anteriores. A idéia cartesiana de que os organismos poderiam ser interpretados como máquinas, cujo funcionamento poderia ser estritamente explicado por leis mecânicas, fora rechaçada desde o século XIX e, nas primeiras décadas do século XX, os biólogos passaram a defender que as reconhecidas diferenças entre matéria viva e matéria inerte não deveriam ser explicadas postulando-se uma força vital, mas sim através de uma modificação drástica da teoria mecanicista.

Conforme analisado por El-Hani (2000, 2002), diante da constatação de que o pensamento vitalista não encontrava mais respaldo, naquele momento, entre a maioria dos biólogos, é comum pensar-se que a biologia moderna teria assumido uma perspectiva mecanicista. De fato, autores como Brooke (1991) e Mayr (1988) consideram o pensamento mecanicista uma tendência ainda dominante na prática

científica e na filosofia da ciência, respectivamente. Para El-Hani (2002: 200), esse tipo de interpretação tem lugar quando se ignora um terceiro termo na polêmica sobre a natureza das explicações biológicas, o „organicismo‟, bem como uma posição filosófica freqüentemente associada ao pensamento organicista, o „emergentismo‟. Segundo Emmeche e colaboradores (1997), quando o vitalismo foi descartado pelos biólogos como posição filosófica aceitável, criou-se uma nova visão sobre os sistemas vivos, que se propunha a dar conta das peculiaridades de tais sistemas e de seu funcionamento. Essa visão se apoiava no conceito de emergência, formulado como a idéia de que, em cada nível de organização da matéria, surgiriam propriedades genuinamente novas, que não poderiam ser previstas a partir das propriedades encontradas nos níveis inferiores.11

Para Emmeche e colaboradores (1997), ao analisar-se as diferenças entre reducionismo e vitalismo no século XIX, relacionando-as ao conceito de emergência, fica claro que esse conceito preserva alguns aspectos do pensamento vitalista, ao passo em que rejeita outros, admitindo, em contraste, alguns aspectos do pensamento mecanicista. O organicismo, a imagem de natureza e ciência que se apresentou para os biólogos do século XX como uma via média entre vitalismo e mecanicismo, gerando uma superação do debate em torno dessas duas posições, também apresenta, como teses fundamentais, aquelas idéias dos vitalistas que se mostravam razoáveis de um ponto de vista materialista. Considere-se, por fim, que os pensamentos emergentista e organicista estão intimamente relacionados em muitas de suas proposições, podendo ser combinados numa única imagem de natureza e ciência, o organicismo-emergentismo (ver Emmeche & El-Hani 2000, El-Hani 2002).

A visão organicista preserva parte do pensamento vitalista quando postula que há uma diferença qualitativa, fundamental, entre sistemas vivos e não-vivos. Ela mantém, contudo, parte do pensamento mecanicista, ao postular que tal diferença

11 Ao utilizar-se as qualificações „superior‟ e „inferior‟ para referir-se aos níveis de organização da

matéria, é importante ter em mente que não se trata de estabelecer uma relação de subordinação unilateral, nem necessariamente uma idéia de progresso evolutivo (embora esta possa ser postulada em relação a tais qualificações). Trata-se de conceber uma relação de precedência entre níveis na história evolutiva, definida por Bunge (1977:R78-R79) como a relação por meio da qual o conjunto de todos os níveis é ordenado de modo que os componentes de um sistema pertencente a um dado nível se encontram no nível imediatamente precedente. Outra maneira de exprimir essa idéia é encontrada na hipótese da

inclusividade dos níveis (Emmeche et al. 1997), que entende a relação entre níveis de tal modo que um nível superior (e.g., o nível psicológico) é construído sobre os níveis inferiores (no exemplo, os níveis biológico e físico), de modo que todos os níveis subseqüentes na história evolutiva estão incluídos no nível físico global.

não reside numa diferença de substância, como pensado no âmbito do vitalismo, mas sim numa diferença de organização da matéria. O organicismo se compromete, também, com o pressuposto materialista de que os processos vivos obedecem às leis da física e da química, sendo, em princípio, totalmente acessíveis à investigação científica. Porém, diferentemente do reducionismo mecanicista, o pensamento organicista considera que as explicações dos fenômenos vivos não se limitam a operações de leis físicas e químicas, devido à organização peculiar da matéria viva.

É, portanto, com base nesta análise que se considera equivocada a interpretação de que o mecanicismo12 foi vitorioso no confronto com o vitalismo, tornando-se a abordagem dominante na biologia moderna, apesar de ter sido muito modificado. Segundo El-Hani (2002: 205), o organicismo tem funcionado de maneira tácita como o compromisso filosófico básico de muitos biólogos, como Joseph Needham, Paul Weiss, Conrad H. Waddington, Ludwig von Bertalanffy, J. H. Woodger, Richard Lewontin, Richard Levins e Stephen Jay Gould, entre outros. O reconhecimento da singularidade física dos organismos e de sua complexidade, associado à concepção de que as relações organizacionais existentes nos sistemas vivos tornam as explicações dos fenômenos vivos irredutíveis às leis físico-químicas que regulam o comportamento de seus componentes moleculares, se tornou a posição mais freqüente, ainda que tácita, entre os biólogos do século XX, apesar do impacto e da influência da biologia molecular.

3.2 A molecularização das explicações biológicas e a síntese neodarwinista