O procedimento é relativamente simples e consiste, através de um conjunto de operações, na divisão de uma peça musical em segmentos e na associação desses segmentos em classes de acordo com o grau de semelhança existente entre eles. Como principal critério de divisão, é utilizada a noção de repetição. Esta escolha deve-se, segundo Ruwet, à constatação empírica do papel fundamental desempenhado na música, a todos os níveis, pela repetição. Mas, para que dois segmentos sejam considerados idênticos, ou como uma transformação um do outro, é necessário definir primeiro quais as dimensões (altura e/ou duração das notas, intensidade, timbre, etc.) que serão utilizadas para os comparar. Esta escolha depende do tipo de análise que o analista pretenda realizar. Se, por exemplo, se pretender realizar uma análise rítmica então apenas a duração das notas deverá ser considerada.
Segue-se uma descrição detalhada dos diversos passos em que consiste o procedimento:
a) Identificação de repetições elementares: partindo do princípio de que existe um mecanismo capaz de reconhecer repetições elementares entre segmentos, a primeira operação consiste em identificar os maiores segmentos que se repitam ao longo da peça. Estes são considerados como unidades de nível I. Desta primeira operação resultam estruturas como A + X + A, A + A + X, A + A + B + Y + B + X, etc., em que as letras mais próximas do início do alfabeto correspondem a segmentos repetidos, e as últimas aos restantes segmentos, os quais se designam por restos.
b) Tratamento dos restos (primeira fase): os restos que tiverem uma duração semelhante à dos segmentos de nível I, já identificados, consideram-se também como elementos de nível I. Por exemplo, se da operação a) tiver resultado a estrutura A + A + X e se X tiver uma duração semelhante à de A então pode-se, pela notação adoptada, substituir X por B resultando na estrutura A + A + B. Os resultados desta operação podem ser consolidados recorrendo a outros critérios como sejam, a análise da colocação das pausas ou, se for o caso, através da análise do texto agregado à música.
tratamento dos restos não abrangidos pela operação b).
1) O resto é muito mais pequeno que os segmentos de nível I já identificados. Neste caso, remete-se o resto para estados posteriores da análise.
2) O resto é muito mais longo que os segmentos de nível I. Neste caso, ou o
resto é segmentado em unidades de nível I através da aplicação das
operações b) e d), ou é segmentado em unidades de nível II através de nova aplicação da operação a).
d) Identificação de transformações: o objectivo desta operação é a identificação de transformações que permitam estabelecer relações entre os segmentos, sejam eles de nível I ou restos. Por exemplo, a estrutura A + A + X poderá ser reescrita, depois de identificada uma relação entre A e X, como A + A + A’. É essencial que antes da aplicação desta operação sejam descriminadas todas as transformações a aplicar e os procedimentos que as permitam identificar. Esta operação pode dividir-se em quatro sub-operações que, por sua vez, correspondem à identificação de outros tantos tipos de transformações.
d1) Identificação de transformações rítmicas e/ou melódicas.
d2) Identificação de transformações que envolvam permutações, inserção ou supressão de certos elementos.
d3) Identificação de sub-unidades comuns. Para tal, volta-se a aplicar a operação a) aos restos e aos segmentos de nível I já identificados de modo que se cheguem a conclusões do tipo, A = a + b e B = a + c., em que a, b e c são unidades de nível II.
d4) Consideremos a estrutura A + x + B + y, com restos muito pequenos. Se A + x for, do ponto de vista da duração, por exemplo, idêntico a A + y, pode-se considerar que A + x é um só segmento e que A + y é uma sua transformação. Neste caso pode-se reescrever a estrutura como A + A’. e) Agrupamento de segmentos. Suponhamos que, como resultado, a operação a)
forneceu a estrutura A + X + A + Y. Podemos considerar que A + X e A + Y são segmentos de nível 0 se, por exemplo, X e Y terminarem com pausa ou com uma nota longa, ou se durante a operação d) se verificar que Y é
uma transformação de X.
Este procedimento, caso se pretenda, pode ser novamente aplicado aos segmentos de nível I de modo a identificar os segmentos de nível II, e assim sucessivamente, até que os segmentos identificados deixem de poder ser divididos. Ruwet assinala que não é imperativo que as operações sejam executadas pela ordem apresentada para que se cheguem aos mesmos resultados.
Como se referiu em cima, um dos objectivos deste procedimento é a classificação dos segmentos de acordo com o grau de semelhança existente entre eles. Essa classificação, implícita na descrição do procedimento, consiste em agrupar na mesma classe os segmentos que sejam idênticos do ponto de vista das dimensões escolhidas, ou que se relacionem através das transformações utilizadas. Utilizando a notação introduzida, isto equivale a dizer que os segmentos que são representados pela mesma letra formarão uma classe (por vezes, as classes denominam-se por paradigmas e ao segmento pertencente a um paradigma que primeiro ocorre na peça dá-se o nome de
cabeça do paradigma). Devemos referir, no entanto, que nos textos sobre análise musical
a que tivemos acesso, onde a análise paradigmática é descrita ([Cook, 1987], [Bent, 1987]), [Nattiez, 1975], excepto [Ruwet, 1972]) a classificação é realizada, segundo determinados critérios, numa fase posterior à aplicação do procedimento de Ruwet, servindo este apenas como uma referência na fase de segmentação.
A Figura 2.1 ilustra a análise resultante da aplicação do procedimento ao canto alemão do século XIV «Maria muoter reinû maît» (exemplo retirado de [Ruwet, 1972]). Tal como no exemplo original, os segmentos do segundo nível pertencentes à mesma classe são representados na mesma coluna de modo a facilitar a leitura. Pela figura podemos ver que no primeiro nível existem duas classes: uma formada por A e A’ e a outra por B. No segundo nível existem quatro classes: uma constituída por a, outra por b e as suas duas variações (ambas representadas por b’), outra constituída por c e outra por d.
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Figura 2.1 - Análise da peça «Maria muoter reinû maît» por Ruwet.