5. Drøfting
5.1. Tradisjoner og myter i bransjen
5.1.1. Arbeidslivstradisjon
A cidade é um enorme rendilhado de divisões do trabalho (Silveira 2004; 2007; 2009; 2010). A superposição de vários tipos e meios de trabalho a exercer suas atividades no espaço geográfico gera renda e mecanismos de subsistência. As cidades, sobretudo, permitem o coexistir com outros atores, cujos graus de organização, capital e tecnologia são distintos. Essa é, a justo propósito, a própria definição dos circuitos da economia urbana.
A existência na cidade de diferentes capacidades de consumo produz a seleção de indivíduos aptos a consumir tal e qual bem ou serviço, diferenciando-os por estratos e camadas sociais. O papel da informação, a partir da técnica (televisores, rádio, Internet), incute o desejo ao consumo de certos objetos, ampliados pela técnica da propaganda e do marketing. Esses anseios se tornam denominador comum em diferentes grupos sociais; é o resultado do efeito demonstração.
Analisamos a cidade como um grande sistema urbano, a partir de dois subsistemas: o circuito superior e o circuito inferior. Ambos interagem e estão vinculados, dependem um do outro e estabelecem relações, são subsistemas do sistema global, no qual estão inseridos.
Existe dentro do subsistema do circuito superior uma porção marginal, em contato intermezzo, à qual M. Santos chamou de Circuito Superior Marginal (1979, p. 103). Em outras palavras, é uma porção moderna, pois está inserida na divisão do
trabalho hegemônico, mas compartilha da vulnerabilidade do circuito inferior e se relaciona diretamente com ele.
A diferença de renda é a propulsora dos dois circuitos da economia, responsáveis pela estrutura econômica, mas, do mesmo modo, pelo processo de organização do espaço, com a fabricação de diferenças quantitativas e qualitativas dos tipos e regularidades do trabalho e do acesso ao consumo.
O circuito superior é decorrência direta das modernizações, formas de organização complexas e capacidades tecnológicas maximizadas. O circuito superior é o reino das grandes empresas, detentoras das variáveis-força no período.
O circuito inferior, em contraste, é constituído por atividades de uma economia com menores dimensões, micro e pequenas atividades que abrangem as camadas mais pobres da população, com suas relações mais bem sedimentadas no lugar e seu entorno. Esse conjunto de atividades não conta com capitais volumosos, não apresenta um grau de organização complexo, não possui mão de obra especializada e não detém, tampouco, as variáveis-força do período. No entanto, se utilizam das variáveis-suporte na sua reprodução material, agrupando um largo número de empresas, caracterizado pela existência de atividades modernas, porém sem complexos graus de organização.
As diferenças entre os circuitos se baseiam em três variáveis: a primeira, tecnologia, visto que no circuito superior normalmente há, a diferença do circuito inferior, um investimento alto e permanente.
A segunda variável - grau de organização - se refere aos mecanismos de organização e divisão do trabalho das empresas. O circuito superior tende a ser mais burocrático, com uma repartição complexa de funções, embora, hoje, haja um esforço a romper essa burocracia com a implementação de formas de trabalho flexíveis e diretas19. O circuito inferior se caracteriza por ter uma organização simples, em geral, com poucos ou apenas um funcionário. Apesar do número reduzido de funcionários a desempenhar funções, o circuito inferior abriga a maior parcela de ocupações remuneradas no país.
A terceira variável, capital, mostra que, no circuito superior, os preços por produtos ou serviços são fixos, enquanto que no circuito inferior são negociáveis. O
19Richard Sennet (2000), no livro, A corrosão do caráter, trata dessa desburocratização de funções e do
crédito, no circuito superior, é uma demanda perene, via crédito bancário institucional (público e privado), porém, em contraste, no circuito inferior, há uma tendência a que o crédito, quando exista, seja pessoal.
A partir das variáveis principais, outras devem ser consideradas. O lucro por produto ou serviço no circuito inferior é alto, no entanto de menor volume. Em contrapartida, no circuito superior, há um grande volume de capital resultado do lucro, mas, dependendo dos ramos, um baixo lucro por unidade. O volume de negociações garante um lucro maior para os atores hegemônicos, a chamada economia de escala.
Sobre a dependência ao mercado externo, no circuito superior é elevada, com suas atividades voltadas para fora do país, à diferença do circuito inferior, cuja dependência é reduzida ou, por vezes, inexistente.
O circuito superior, ainda que dependa do circuito inferior, estabelece com este último uma relação de subordinação e domínio, porque na maior parte das vezes, senão todas, as variáveis técnicas (que inclui a ação) partem de atores do circuito superior20, restando aos atores do circuito superior marginal e inferior adaptarem-se a esses novos movimentos.
De acordo com M. L. Silveira (2011, p. 12) “o circuito superior adquire
autonomia, mas não independência”, porque está ligado ao resto da sociedade por uma
relação da qual não pode prescindir. Com o fim de aumentar seus lucros, os agentes do circuito superior precisam vender produtos e serviços de todos os níveis e ordens, até serviços financeiros; e, assim, não se permitem deixar lacunas no mercado. Todos os mercados tornam-se potenciais de expansão.
“Em um verdadeiro sistema de vasos comunicantes, o circuito inferior nasce e se desenvolve em função tanto da instalação das demandas criadas pela economia hegemônica como do desemprego estrutural. Em outras palavras, as pequenas atividades permitem sobreviver pela criação de oportunidades de trabalho e, ao mesmo tempo, consumir bens e serviços de menor valor agregado. Quanto mais aguda é a situação de oligopólio, maior é a quantidade de tais atividades de supervivência, nas quais as equações de custo e lucros são subordinadas ao comportamento da economia superior” (Silveira, 2011, p. 11).
Nessa dinâmica, criam-se novos mercados, todavia, não produzidos pelo circuito superior da economia, mas pelos atores com baixo grau técnico, com pouco capital e sem maior grau de organização, características do circuito inferior. De tal modo, outras
atividades são consideradas pela autora, como "Quitandas, mercearias, armazéns,
minimercados, padarias, açougues, peixarias, venda de frutas e verduras coexistem com as densas topologias dos grandes supermercados e das modernas lojas de conveniência" (Silveira, 2004, p. 12).
A criação de micro e pequenas empresas ou formas de trabalho escapa, por vezes, às normas do Estado e suas atividades se espelham no consumo produzido pelos agentes do circuito superior. Para Milton Santos (1979, p. 203),
"A importância dos serviços do circuito inferior aumenta com o tamanho da cidade. Enquanto na pequena cidade eles substituem os (às vezes inexistentes) serviços modernos, na cidade grande eles existem, apesar do grande número de serviços modernos, para atender à demanda da vasta população pobre. Na cidade grande, sua especialização e diversidade aumentam por causa da colaboração que prestam às atividades modernas".
Grandes metrópoles abrigam a pluralidade de formas de trabalho e de possibilidades de reprodução material dos pobres, onde as funções e as formas se completam. Com efeito, criam-se novos tipos de trabalho; e, a partir da existência do circuito inferior da economia urbana, tendencialmente volumoso, satisfaz-se uma demanda que o circuito superior tende a não suprir.
Diante desses dados da urbanização, surgem algumas questões: quem, de fato, cria as demandas de consumo? É o circuito superior, por meio da propaganda, ou é o circuito inferior que já contém uma demanda em potencial identificada através das pesquisas de mercado do circuito superior?
Grupos distintos de indivíduos com capacidades desiguais de consumo são formados com aspirações comuns. Nesse sentido, Santos (1979, p. 46), ao tratar da propaganda dirá que "A atividade do circuito superior é, em grande parte, baseada na
publicidade, que é uma das armas utilizadas para modificar gostos e deformar o perfil da demanda". A propaganda é, doravante, umas das chaves a englobar o sistema de
ação dos agentes do circuito superior; é também responsável pela produção dos discursos que fomentam o consumo exacerbado. A propaganda envolve, portanto, o alargamento do consumo de objetos e serviços entre ambos os circuitos da economia. No circuito superior a propaganda integra os circuitos espaciais de produção e sua relação é direta. Já no circuito inferior a propaganda é indireta e não só se alimenta, mas também sofre influência da propaganda científica do circuito hegemônico.
Mas a propaganda não é nem o ponto de partida nem o de chegada. É parte de um processo constante no qual os agentes desse circuito superior já não podem descolar sua ação, porque a propaganda torna-se uma técnica, e, como Ellul nos adverte, a técnica se autonomiza. A técnica da ação conduz a um modo de agir e de pensar sobre as coisas.
A cidade é o lugar das trocas e da superposição de tarefas complementares e interdependentes; “Conjunto de todos os instrumentos de trabalho e de todas as formas
de fazer, a cidade somente poderá ser entendida ao considerar a coexistência de
divisões territoriais do trabalho” (Silveira, 2004, p. 60). De modo que, “cada lugar,
cada subespaço, assiste, como testemunha e como ator, ao desenrolar simultâneo de
várias divisões do trabalho” (Santos, 1996, p. 109). Essa idéia denota a seguinte lógica:
a cada momento histórico, uma combinação de variáveis modernas ocupa o lugar, entrelaçando-se às formas antigas (materialidade) e criando o arranjo de um caráter específico.
Cada divisão do trabalho supõe a existência de arranjos locais de produção, distribuição e consumo. Há um conflito de interesses e disputas de poder entre os diferentes atores, embora sejam, ao mesmo tempo, solidários entre eles, porque suas funções interdependem umas das outras. Todavia, o conflito não cessa, já que não prescinde da disputa pela sobrevivência no mercado dentro do sistema urbano.
A solidariedade orgânica21 (Santos, 1996, p. 226) tende a acontecer em mercados em que o circuito inferior é mais ativo, uma vez que constituem relações mais flexíveis e contíguas que as atividades no circuito superior.
O circuito superior é a primazia das solidariedades organizacionais22 (Santos, 1996, p. 226), geralmente, vetores de verticalidades nos arranjos locais, enquanto que o circuito inferior, por necessidade de sobrevivência no mercado, não se isenta da participação de relações contíguas.
21 A solidariedade orgânica “resulta de uma interdependência entre ações e atores que emana da
existência do lugar. Na realidade, ela é fruto do próprio dinamismo de atividades cuja definição se deve ao próprio lugar enquanto território usado. É em função dessa solidariedade orgânica que as situações conhecem uma evolução e construções locais relativamente autônomas e apontando para um destino comum” (Santos e Silveira, 2000, pp. 306-307).
22 A solidariedade organizacional é produto da ação de atores sociais hegemônicos cuja atuação responde
ao ecúmeno. As três unicidades permitem o arranjo de situações nas quais os comandos desses agentes sejam repartidos em diferentes lugares, criando instabilidade e fazendo dos territórios pontos de ação, donde a racionalidade é externa ao cotidiano local.
Uma primeira aproximação dessas leituras nas cidades23, à luz da teoria da economia urbana24, mostra que a cidade não se desenvolve sob os pilares da economia hegemônica, de grandes empresas de inovação e difusão tecnológica, mas são as micro, pequenas e médias empresas (ou atividades) as responsáveis pela ocupação da maior parcela de população economicamente ativa.