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A turma estava agendada para um sábado às 14 horas da tarde. Alguns minutos antes do horário marcado a escola chega ao MCC e são levados para o auditório do próprio museu para uma recepção com a educadora que irá fazer a mediação. Ao todo eram 38 alunos e 4 professores.

Figura 09 – Imagem da turma reunida no auditório.

Fonte: Acervo pessoal (2015).

A educadora começa sua recepção com perguntas para conhecer a turma como, por exemplo, qual eram sua faixa etária, série, e quais eram suas expectativas sobre a exposição Vaqueiros, a exposição que iriam conhecer. Respostas como as seguintes surgiram: “Vamos ver o cara que pastora as vacas”, “o rei do do gado”, “a

história do boi no Ceará”, “a cultura do Ceará”, “a história do Ceará”. Em seguida a

educadora comentou as regras de conservação no espaço, chamando a atenção para o uso de alimentos e bebidas que não pode haver dentro do espaço. E também sugeriu o modo de como fariam o percurso. Este último chamou atenção para que observassem e fizessem suas fotografias (para quem queria fotografar) antes, e depois eles conversariam sobre o que tinham visto.

A atitude da educadora chama atenção para que a visita seja mais vivida e observada, e em algumas vezes o ato de fotografar durante a fala do educador, pode atrapalhar a concentração do visitante e passar despercebido o que o educador fala. O ato de ouvir o que o educador tem a dizer é um ato também educativo, um exercício que

deve ser feito não somente no museu, na sala de aula, em qualquer lugar da sociedade. Como nos diz Freire (1996):

Escutar é obviamente algo que vai mais além da possibilidade auditiva de cada um. Escutar, no sentido aqui discutido, significa disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro. [...]. A verdadeira escuta não diminui em mim, em nada, a capacidade de exercer o direito de discordar, de me opor, de me posicionar. Pelo contrário, é escutando bem que me preparo para melhor me colocar ou melhor me situar do ponto de vista das ideias (FREIRE, 1996, p. 135).

Em seguida partiram para a exposição Vaqueiros no subsolo do museu e ao chegarem a exposição a educadora apresenta inicialmente a exposição e mais uma vez chama atenção para que eles primeiramente observem, leiam e seguida fariam uma discussão coletiva sobre ela. Durante este momento os alunos estavam bem eufóricos, alguns se dispersavam e a educadora os chamava juntando a todos.

Ao observarem o primeiro espaço da exposição a educadora chamou a todos para ficarem perto e conversou sobre a importância do boi para a sociedade, a relação que ele teve não só com o vaqueiro no Ceará, mas para outros países e cultura. Também chamou atenção para os usos do que o boi poderia fazer, como por exemplo, o uso do couro e a sua utilidade para o mercado. Em sua fala foi nos contando como foi o processo de colonização do Ceará e sua formação pelo sertão.

Figura 10 – Imagem do percurso inicial da mediação na exposição.

Nesta explicação anterior os alunos começaram a dizer que não sabiam daquelas histórias e apontavam para os objetos perguntando o que eram. Mais a frente tem uma roupa de couro utilizada pelo vaqueiro no sertão e todos param para contemplar e a educadora e a educadora fala sobre seu uso e a proteção que aquelas roupas davam devido a atividade dos vaqueiros serem no meio da caatinga, também fala do chapéu e de como ele afastava os possíveis insetos e mosquitos do vaqueiro. Os alunos riem e ouve-se algum falar acerca do vaqueiro: “eles eram inteligentes”.

Até então podemos perceber que aquele universo do vaqueiro, do sertão e seus usos não eras conhecidos dos estudantes devido suas ações de espanto e de curiosidade. As perguntas que a educadora fazia em relação aos usos daquelas roupas e acessórios dos vaqueiros não haviam respostas e nem tentativas, eles ficavam conversando entre si, mas não falavam em alta voz que achavam que era.

Em seguida a educadora chama toda a turma para a parte da exposição que simula um seleiro e chama atenção para os estribos em vitrine. Neste ela se dirige a turma e pergunta se alguém sabe que objeto é aquele, a turma não sabe o nome do objeto mais fala que o objeto serve para que a pessoa possa subir no cavalo. Ela afirma a resposta dos alunos e um dos professores da turma passa a contar sobre o surgimento da palavra popular “estribado” a partir daqueles estribos.

Figura 11: Imagem do alunos na exposição observando os estribos.

O professor diz que naquela época quanto mais o estribo era ornamentado e desenhado mostrava a riqueza de seus donos fazendeiros, e quanto mais o estribo liso, menos poder aquisitivo a pessoa tinha. E faz referência a palavra estribado a quem tem dinheiro e a liso quem não tem. Esta curiosidade falada pelo professor gerou muitas risadas e brincadeiras. Em seguida partiram para o próximo ambiente em que simula o sertão e a caatinga.

A educadora pegou um berrante e perguntou aos alunos o que eles achavam que era aquele objeto, quase todos falaram que ele era usado para chamar o gado. A educadora conta para que serve e como ele é produzido e chama os alunos para tocarem o berrante. Ouve três voluntários e quando o primeiro tocou não conseguiu fazer o som que sai do berrante, o segundo também não e o terceiro conseguiu e o som do berrante foi alto. A turma deu muitas risadas neste momento.

Estes momentos lúdicos e interativos são bastante válidos a medição, pois brincando o aluno também aprende e aprende se divertindo o que fica melhor ainda. A mediação é feita entre o discurso histórico e o discurso lúdico e nos aponta para uma exposição mais atrativa gerando momentos de risos e brincadeiras. Carvalho (2010) nos diz que:

Reafirmamos que o museu, enquanto espaço em processo de construção, de debates, de saber e de poder relacionado com o tempo presente, pode vir a ser compreendido pelas crianças, pelas mães e pelos professores como um território de reflexão e de educação, sem, contudo, deixar de ser também um espaço lúdico (CARVALHO, 2010, p. 208).

Em seguida fomos para um lugar da exposição que mostra as formas de marcação dos gados. A educadora foi bem rápida acerca do assunto e partiram para outra parte da exposição que fala sobre a religiosidade. Atrás de uma vitrine se encontravam bastante ex-votos e na parede ao lado quadros com fotografias de pessoas e de santos da religião católica. A educadora perguntou aos alunos se alguém sabia que objetos eram aqueles (se referindo aos ex-votos), mas ninguém respondeu. Continuou a perguntar se alguém conhecia a cidade de Juazeiro do Norte localizada no Ceará, alguns responderam que sim e outros que não. E tornou a perguntar para os que já tinham ido a Juazeiro do Norte se alguém viu aqueles objetos lá, mas também responderam que não.

A educadora, então, começou a falar sobre os ex-votos, para que serviam na fé e religiosidade do catolicismo popular. Os alunos foram bastante atentos a explicação da educadora, na medida em que aqueles objetos era de total desconhecimento para eles.

Não houve perguntas e nem intervenção dos alunos e a educadora os leva para a sala em que simula a casa de um vaqueiro mais a frente.

Na casa do vaqueiro eles observam e dialogam sobre a estrutura da casa, os objetos que se encontram dentro dela. Passam adiante para as mascaras de reisado. Neste momento a educadora fala sobre as manifestações culturais do sertão do Ceará e chama atenção para o reisado. Muitos já ouviram falar, e poucos já viram esta manifestação antes. A educadora começa uma fala sobre o reisado e suas características e pergunta se alguém tem dúvidas sobre o que ela falou, todos respondem que não. Encerra-se o percurso pela exposição e todos voltam para o início dela.

Ao voltarem para o início da exposição a educadora pedem para sentarem no chão em formato de circulo, a turma se organiza e surge uma roda de alunos. Neste momento a educadora os pergunta sobre a experiência de conhecer aquela exposição, se a mesma foi interessante e o que eles puderam perceber com ela. A turma se mostra bastante interessada e contente respondendo que gostaram, que aprenderam coisas novas e sobre a vida no sertão e dos vaqueiros daquela época. A educadora agradece a visita e participação de todos, convida-os a chamar amigos e familiares a conhecer e voltar ao museu, e a mediação se encerra.

Figura 12: Imagem do momento final da mediação.

Fonte: Acervo Pessoal (2015).

Por toda a mediação optamos por só observar e não intervir com falas e participações. Buscamos ver como aquele momento se criava e dava forma a mediação. Também queríamos observar os conteúdos e histórias que foram trabalhadas no

percurso, pois sabemos que cada educador tem sua metodologia e formas de conduzir a exposição. Não dá para falar de cada objeto individualmente numa exposição, pois isso levaria um dia inteiro partindo do pressuposto de que além de informar o objeto também há um diálogo sobre ele.

Percebemos que a educadora não se aprofundou muito aos assuntos que a sala de exposição propõe a trazer para o público visitante, pois a mesma só estava a três semanas como educadora do MCC. No entanto, podemos perceber que a educadora trouxe bastante dinâmica para a sua fala e também trabalhou seu percurso baseada na ação educativa que o museu trabalha com a pedagogia do diálogo e da pergunta em Paulo Freire. Todos os alunos tiveram a oportunidade de ouvir, de falar, de interagir com os objetos e até mesmo de brincar com eles, como vimos nos exemplos acima.

Nestas narrativas também não contemplamos detalhes de todo o processo e falas, pois não é nosso objetivo aqui. Queremos ressaltar que o intuito aqui não é avaliar (ainda) a mediação e o trabalho da educadora, nem tão pouco os alunos e professores, mas mostrar através desta narrativa o percurso da mediação e tentar expor informações sobre ela para que possamos a partir do terceiro momento, o do questionário, ver o que eles viram e aprenderam com a educadora e a exposição Vaqueiros.