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Observamos em Duelo en el Paraíso que a figura do herói (Abel) perde sua vitalidade e consequentemente seu protagonismo, cedendo espaço a temáticas relacionadas com a guerra, a fome, a miséria, a conversão de meninos em guerrilheiros, a questão autobiográfica, a religiosidade etc.

O momento que marca o processo de diluição da figura do herói Abel Sorzano é a ocasião em que ele é enganado por Pablo Marquez. A partir de tal fato, o menino torna-se apático, triste e não deseja ir à guerra, tampouco falar sobre tal assunto, como percebemos em:

Sin embargo, regresó la misma noche, cuando todos se habían acostado. Parecía estar dormido, como muerto, y se tendió sobre el lecho sin decir palabra. Temiendo por su vida, Filomena había asegurado los postigos con la aldaba y hasta la hora del alba montó guardia al lado de la puerta. Abel se removía inquietamente y, entre sueños, le oyó llorar en voz alta.

Durante los últimos días de la dominación republicana, la guerra traía, a veces, noticias horribles: el camión en que viajaba la maestra había sido alcanzado por una bomba junto a Palamós y todos sus ocupantes habían perecido. Frente a la costa, los aviones hundieron una lancha del Servicio de Defensa y hubo diecisiete ahogados. Pero nada de eso parecía afectar al niño: Abel pasaba la mayor parte del día en el bosque, jugando con los mocosos de la escuela, y jamás le oyó ningún comentario (GOYTISOLO, 1971, p. 87).

Novamente o menino Sorzano é apresentado por uma tonalidade funérea, pressagiando sua consequente aniquilação. Com a fuga de Pablo, Abel se instala numa depressão e abandona os assuntos sobre a guerra. O garoto se sente traído, abandonado, e tal fato o inquieta em seus sonhos e o leva aos prantos.

No decorrer da obra percebe-se que Abel se relaciona com Pablo e os meninos órfãos, mesmo contra a vontade de sua tia-avó. Sem possuir verdadeiras amizades, prostrado diante de um lar em que imperavam as mulheres, Abel busca companhia nas crianças da residência-escola de refugiados, indivíduos que o atraíam por serem diferentes e possuir uma “independencia absoluta” (GOYTISOLO, 1971, p. 162).

Abel não percebe que a relação com os meninos órfãos era falsa e que esses não se agradavam de sua presença. Os mesmos tramaram sua morte com estratégias de guerra, armando uma emboscada na qual ele perderá a vida. Neste sentido, percebemos a influência da guerra na vida de crianças sendo representada na obra de Juan Goytisolo, como forma de crítica social. Os garotos órfãos vivem como guerrilheiros e isso indicia a extensão dos confrontos na vida de tais pessoas.

O extermínio de Abel é percebido na obra com diversos significados, tanto relacionados com a estética do “cainismo” – descrita anteriormente –, quanto com a representação da morte dos valores republicanos.

Inserida na estética do cainismo está a morte por inveja pelas mãos do menino Arquero, que acredita que Abel é um “burguesito” que não padeceu os horrores da guerra. Durante todo o romance Arquero insulta Abel, demonstrando a profunda aversão que tem pelo menino.

A morte de Abel também pode ser analisada no romance Duelo en el Paraíso como a representação da queda do grupo republicano. Durante o tempo em que é apresentado vivo, os confrontos são expostos de forma constante na obra (ainda que não fosse perceptível em “El Paraíso”), porém quando tem sua vida subtraída, concomitantemente os nacionalistas dominam o país, inclusive o lugar onde o

menino é encontrado morto. Abel é eliminado exatamente no dia em que os militares nacionalistas assumem os últimos redutos de oposição, 28 de março de 1939.

O significado da morte de Abel com um tiro na testa representa o esgotamento da consciência espanhola – pensamento crítico com relação aos regimes totalitários, à estabilização de um governo monárquco e a ideia de progresso. Ao esgotar-se essa consciência, estabelece-se um regime de poder centralizado por pocos privilegiados que dilataram as regras e normas a serem seguidasComo emissário dos valores republicanos, tal personagem simboliza com sua morte, a diluição e consequente perda do poder apresentado pelos defensores da República. No romance Duelo en el Paraíso o significado da morte de Abel também pode ser observado como a queda de uma consciência ideológica29. Imediatamente em seguida a morte do personagem, os nacionalistas invadem a residência-escola de refugiados e encontra Martín, um militar republicano a quem fazem prisioneiro. Tal momento marca a queda de Abel e dos seus ideais políticos.

Para os nacionalistas, os republicanos (anarquistas, socialistas, comunistas, sindicalistas etc.) eram uma ameaça à Espanha e por isso deveriam ser eliminados.

Um fragmento do texto revela que a morte do menino está diretamente relacionada à queda dos militares republicanos. No primeiro capítulo do livro, o narrador discorre sobre a última vez que Elósegui vê Abel, no “día veintiocho” (GOYTISOLO, 1971. p. 43), quando entram “las tropas nacionales en Barcelona y la

huida hacia el norte del Gobierno fantasma” (GOYTISOLO, 1971, p. 43). Não é sem

propósito que no dia 28 de março de 1939, as tropas nacionais invadem Barcelona, 29

O grupo republicano propunha a conservação dos valores da República (democracia parlamentarista, instituições políticas livres, estado socialista, revolução social libertária) na tentativa de frear o avanço dos regimes totalitaristas que já haviam conquistado países como a Itália (1922), a Alemanha (1933) e a França (1934) – e promover também uma contraproposta à ideia liberal de representação democrática, como é apresentado por Paulo Roberto de Almeida em seu artigo intitulado “O Brasil e a Guerra Civil Espanhola: participação de brasileiros no conflito”.

último reduto de resistência republicana e logo em seguida dá-se por finalizada o conflito militar. Nesse momento Elósegui já não vê Abel porque ele desaparece assim como os republicanos.

Em um mundo onde o caos se instaura por todos os lados, a consciência social30 perde seu valor moral, não atuando na construção de um pensamento coerente. Com a derrubada dos republicanos e a consequente instauração de uma ditadura militar, torna-se impossibilitada a prática de um confrontamento classista no quadro de opressão social ao novo sistema político adotado, posto que em tal regime aniquila-se qualquer possibilidade de oposição. A queda de Abel e de seus pensamentos é a representação simbólica da derrota republicana.