Juan Goytisolo escreveu, ao longo de sua trajetória literária, várias obras que ressaltam a tendência da diluição da figura do herói e consequente substituição do protagonista por temas relacionados à cultura, à sexualidade, ao erotismo, à crítica social etc. Para evidenciar tal substituição, serão abordadas três obras do autor em que tal característica pode ser observada de forma explícita, são elas: Reivindicação
do Conde Dom Julião, A saga dos Marx e As semanas do jardim – um círculo de leitores.
Nas referidas obras subjazem a temática do herói, a crítica social (Reivindicação), a crítica aos sistemas políticos vigentes (A saga dos Marx) e as questões culturais (As semanas do jardim).
Em Reivindicação a diluição da figura do herói/protagonista, Álvaro Mendiola, é substituída por uma crítica feroz à Espanha e ao regime ditatorial. Goytisolo tece – através de uma metodologia próxima à historiografia e tendo como foco o mito do 101
conde Dom Julião – uma série de críticas ao país, ao idioma e à literatura espanhola por meio de insultos a uma imagem mítica da Espanha, que se mantém presa a um modelo político e social repressor. Nesse contexto, torna-se improvável ou mesmo inviável a existência de um herói com características salvadoras/redentoras ou com um pensamento progressista com relação ao momento em que se apresenta na narrativa.
O romance A saga dos Marx também apresenta um esvanecimento da figura do herói – o próprio Marx –, ocasionada pelo protagonismo da crítica aos sistemas políticos (socialismo e capitalismo). O romance se inicia com a chegada de um grupo de albaneses a uma praia do Adriático, local frequentado somente pela classe média alta. Os desertores de países comunistas do leste europeu acreditavam ter chegado a “Dallas” (Estados Unidos), pátria do seriado assistido por eles. Na noite de tal acontecimento, Marx assiste em seu apartamento em Londres a tais cenas – que, a exemplo de outras semelhantes ocorridas desde a queda do muro de Berlim, simbolizam a decadência de um sistema idealizado por ele.
Em um mundo dominado pelo poder do capital, a figura do herói torna-se sem efeito. Vazio de poderes capazes de modificar a sociedade, o modelo de conduta heroico não consegue permanecer visível nas narrativas desse mundo ordenado pelos princípios capitalistas.
A utilização da ironia também adquire importância em A saga dos Marx. Através do personagem do palhaço do metrô, por exemplo, podemos perceber a utilização do sarcasmo para criticar o capitalismo e a sociedade de consumo, como percebido no fragmento a seguir:
senhoras e senhores! (limpou a garganta)
permitam-me que me apresente em poucas palavras!
(demorou uns instantes, para assegurar-se de que os olhares de todos os passageiros convergiam para sua pessoa)
sou dono de uma poderosíssima multinacional (pausa)
rico, muito rico (pausa)
imensamente rico (pausa)
possuo latifúndios e ranchos em diversos estados da América do Norte, imóveis e apartamentos em Nova York, Roma e Buenos Aires [...]
aproveito a mão de obra submissa e barata para criar empresas rentáveis nos países do Néscio Mundo e, desde a derribada desse sistema detestável fabricado na URSS e nos países-satélites segundo as normas de meu inimigo mortal, sou o grande promotor da livre empresa em seus arruinados domínios e compra a preço de banana ferrovias, jornais, fábricas, cidades inteiras com a mesma facilidade e proveito que aquele personagem de atividades múltiplas e interesse diversos [...]
não me interessa saber que a renda global de meus bens me proporciona seiscentos dólares por minuto!, sou voraz, necessito mais!, a sofreguidão pelo que não possuo atormenta-me dia e noite, por isso vim aqui, solicitar-lhes ajuda para ser ainda mais rico, quem dispuser de cem francos, cem francos!, quem só tiver cinco, pois bem, cinco!, um gesto de generosidade, por pequeno que seja, aumentará meu capital e saciará momentaneamente minha avidez onívora! (...) cooperem com orgulho e entusiasmo para tornar-me mais endinheirado do que sou! (GOYTISOLO,1996, pp 27-28).
A referida citação tece duras críticas tanto ao socialismo, quanto ao capitalismo. Ao socialismo, considerado pelo interlocutor como “sistema detestável”, é apresentada uma crítica ao seu sistema e ao seu idealizador. Ao capitalismo por apresentar-se como uma estrutura selvagem que faz uso da mão de obra barata e do princípio voraz de lucro e vantagem para seu crescimento e solidificação. Segundo o interlocutor, tal sistema corrobora com a manutenção de uma sociedade em que os ricos aumentam seus ganhos, através da exploração de trabalho de baixo custo, acentuando as desigualdades.
Em um mundo capitalista, em que os meios de produção são propriedade privada, fazendo com que poucos indivíduos possam gerar recursos para se autoproverem, os veículos de comunicação são os grandes responsáveis pela 103
propagação da sociedade de consumo. A influência da mídia – a mesma em que Marx aparece dando entrevista e sendo ridicularizado – é extremamente importante, pois é através dela que se propagam os objetos que serão desejados pela massa.
Em As semanas do jardim a figura do protagonista se esvanece diante da impossibilidade de sua existência em dois contextos diferentes: a Espanha do período da guerra civil e o Marrocos. O romance conta, através da perspectiva de 28 leitores, a história de um poeta, Eusebio, que no inicio da guerra civil espanhola fora internado em um hospital psiquiátrico por apresentar tendências homossexuais. Os leitores, com diversas versões sobre a fuga de Eusebio do hospício, vão contando sua história. Eusebio fora considerado e tratado como doente por sua “tendência ao homossexualismo” e quando foi enviado a um centro de “recuperação” conseguiu fugir, seguindo para o Marrocos. O protagonista – que ao transferir-se para o Marrocos torna-se Eugenio – não se mantém como herói na Espanha e se aniquila no Marrocos para encobrir um passado que não lhe agrada, por não ser aceito.
O protagonista se dissipa devido à impossibilidade de sua atuação enquanto personagem que representa um grupo discriminado pela sociedade espanhola do período da guerra civil e do regime que o precede.
Com tudo o que foi apontado neste capítulo, podemos perceber que as transformações pelas quais a figura do herói passa, são extremamente significantes para entendermos seu processo de apogeu e diluição como elemento da composição narrativa.
Se designarmos como ápice do protagonismo do herói o Zaratustra, de Nietzsche (figura que tem domínio sobre sua própria vida e sendo assim, pode fazer dela o que desejar), e no período posterior ao surgimento de tal figura, verificarmos o início de um período de crise e consequente esvanecimento de tal tipo de
personagem na narrativa, observaremos que no momento em que a figura do herói não encontra mais espaço para circular e se desenvolver, ele tende a desaparecer, ou como cita Forster a “morrer”. Ante a disseminação de regimes democráticos capitalistas – em que o povo tem poder de ação sobre a política instaurada em dado país – e ditatoriais – em que se reprime a atuação da população –, a prática política não pode se concentrar mais em uma única figura salvadora.