• No results found

diversos significativos. Tomado no sentido de industrialização, é possível inferir que

possui vínculos muito próximos com o tema da energia, cabendo afirmar que, ao longo

dos tempos, a energia gerada a partir da exploração de recursos naturais foi

transformada na base do funcionamento das sociedades supostamente desenvolvidas

(aqui entendidas como sociedades urbano-industriais) (FRANCO e FEITOSA, 2013).

Para Beck (2010, p.09), a natureza, incluída e funcionalizada para os objetivos

dos sistemas industriais, teria sido convertida em pressuposto insuperável desse modo

de vida, fato que evidencia e justifica a intrínseca relação entre desenvolvimento,

geração de energia e exploração dos recursos naturais (FRANCO e FEITOSA, 2013, p.

94). Segundo Franco e Feitosa:

Um grave problema que decorre dessa interdependência remete ao rápido crescimento da demanda global por novas fontes de energia e à diminuição de locais, no planeta, com potencialidades para tanto. O nexo entre necessidades econômicas e exploração energética estaria na raiz de expressivos conflitos atualmente existentes entre agentes políticos e agentes de mercado, responsáveis pelas decisões de efetivação dos grandes projetos de geração de energia, e a sociedade, nomeadamente as populações tradicionais e/ ou povos indígenas que habitam e/ ou dependem dos locais em cujo território esses recursos ainda estão disponíveis. É o que ocorre em países como o Brasil, Chile, Bolívia, Venezuela e outros. (2013, p. 094).

Conforme nos alertam Franco e Feitosa (2013) a insustentabilidade do

paradigma que se baseia na exploração contínua dos recursos naturais, como se os

mesmos fossem infinitos, numa perspectiva imediatista, coloca o imperativo de serem

repensadas as bases de sustentação energética das sociedades industriais, acompanhadas

por discussões em torno do tipo de desenvolvimento que perseguem, com inovações

tecnológicas e comportamentais sendo postas a serviço do novos modelos e formatos

socioeconômicos de geração de energia menos excludentes e espoliativos.

Tecendo considerações acerca UHE de Belo Monte e da tensão existente entre

desenvolvimento e livre determinação (autodeterminação), Franco e Feitosa aduzem

que:

O conflito se dá por diversas razões. A mais comum decorre do fato de que, até mesmo em virtude de suas próprias concepções de desenvolvimento e da relação que estabelecem com os seus territórios, as populações e os povos habitantes das regiões ricas em recursos naturais reagem fortemente à intervenção do governo e/ou do mercado. Embora a visão utilitarista enxergue essas coletividades como guardiãs de riquezas naturais preciosas, deixadas pelo Estado na posse de tais domínios, os quais são, porém passíveis de projetos de exploração (vez que a propriedade das riquezas do subsolo é da União), o fato é que, para as populações tradicionais, a importância do território (terra e recursos naturais) adquire caráter muito particular e relevante, por motivos culturais, sociais, religiosos e mesmo jurídicos. Para as culturas indígenas, tradicionalmente, a lógica da propriedade não é individual, mas coletiva; o território não possui valor exclusivamente monetário, posto fazer parte da vida e da morte. Assim, confrontados com os motivos econômicos da decisão de exploração, restam perplexos e incomodados, em meio ao paradoxo que envolve os temas dos crescimento econômico e do desenvolvimento humano, marcado pela tensão entre tradição e progresso.

Neste sentido, o que para uns é progresso e construção do projeto nacional, para outros é restrição de direitos, destruição do local e redução, em médio prazo, de possibilidades globais. Dessa equação emerge a necessidade de ponderação entre crescimento-potência versus vulnerabilidade social e humana. Para os explorados, as decisões de investimento que atingem sua

vida e cultura representam intervenções no curso natural dos acontecimentos, com implicações geofísicas (desmatamentos, mudanças nos veios da águas, drenos e escoamentos naturais, entre outras); culturais (servidão de passagem em terrenos sagrados, perda de identidade, alterações comportamentais coletivas, miscigenação de culturas etc.); e humanas (perda de biodiversidade, transferência domiciliar, exposição a fenômenos urbanos como favelização, criminalização e marginalização), além do impacto que produzem no campo econômico, representados pela colonização e pela pilhagem de seu patrimônio, entre outras consequências. Para os exploradores, a viabilidade econômica do projeto é fundamental, preponderando a visão utilitarista dos resultados sobre quaisquer questionamentos acerca dos meios e dos procedimentos. Nessa ótica, a defesa da sustentabilidade ambiental e social parece se esgotar no contexto legal de execução da política ambiental do país, cumprida pela mera formalização de procedimentos administrativos e judiciais de avaliações de impactos, desde que levem em conta fatores como a redução de custos econômicos setoriais, a não interrupção de projetos que já consumiram vultosas verbas, a valorização predial, a geração de energia para incremento de atividades comerciais e industriais, o crescimento do país e, por fim, a segurança nacional. (FRANCO e FEITOSA, 2013, p. 94-95).

De acordo com Bermann (2012, p. 95) o paradigma que está sendo construído

pela usina hidrelétrica de Belo Monte denota a emergência de uma autocracia

energética, com a negação da democracia

139

em nosso país e no continente latino-

americano.

Conforme assevera Bianco, a hidrelétrica de Belo Monte constitui caso

emblemático, não único, desses grandes projetos que tendem a ser planejados de forma

centralizada e desvinculada das realidades e potenciais ecológicos, sociais e culturais

locais: grupos indígenas, povos ribeirinhos e tradicionais são desconsiderados e

invisibilizados pelos estudos e processos decisórios (BIANCO, 2012, p. 09)

A necessidade energética

140

das sociedades urbano industriais vem

ocasionando perdas culturais e ambientais irreparáveis para os povos amazônicos que se

139

Al Gore (2013, p. xxiv-xxv) acredita que “ [...] O condomínio ideológico formado pela aliança do capitalismo com a democracia representativa – tão fértil na expansão do potencial para a liberdade, a paz e a prosperidade – foi despedaçado pela concentração da riqueza, que extrapolou a esfera do mercado para invadir a esfera da democracia. [...] a democracia, quando funciona num padrão saudável, se vale das interações das pessoas com diferentes perspectivas, predisposições e experiências de vida para gerar sabedoria e criatividade, que ocupam um plano completamente distinto. A democracia transporta sonhos e esperanças para o futuro. Assim, ao tolerar o uso rotineiro da riqueza para distorcer, degradar ou corromper o processo democrático, estamos nos privando da oportunidade de aproveitar a “última esperança” para encontrar um caminho sustentável para a humanidade – e isso em meio às transformações mais caóticas e perturbadoras que nossa civilização já enfrentou.”. Morin (2015, p. 83) vem no mesmo sentido: “Um novo tipo de governança poderia ser instituído com a conjunção das instâncias participativas cidadãs, das instâncias políticas e administrativas, locais e regionais, dos profissionais competentes em domínio a serem debatidos e suprimidos. A instauração e vitalização da democracia participativa correspondem ao imperativo de política da humanidade [...]”. Sen (2011, p. 386) assevera que “A liberdade democrática pode certamente ser usada para promover a justiça social e favorecer um política melhor e mais justa. O processo, entretanto, não é automático e exige um ativismo por parte dos cidadãos politicamente engajados [...]”.

140

De acordo com Capra o mapeamento dos fluxos de energia é necessário para a medição da eficiência dos processos de produção em termos de energia líquida. Necessário trabalhar, portanto, com o conceito

veem despojados de suas identidades, de seus territórios, de seu direito sagrado à

autodeterminação, de participação, consulta e consentimento nos projetos

desenvolvimentistas levados à cabo na região em franco enfraquecimento da

democracia. E, para além de não participarem da decisão política de implementação

deste grandes projetos, também passam ao largo da repartição de benefícios.

Santos afirma que o desenvolvimento capitalista está superando a capacidade do

planeta sendo que as secas, a mudança climática, a acidificação dos oceanos e elevação

do nível dos mesmos, a destruição das florestas, a extinção de milhares de espécies, o

arrasamento dos territórios de povos e populações indígenas, selvagens e camponeses e

outros muitos processos depredatórios estão pondo em risco iminente a vida sobre a

Terra centralizando, nas discussões e práticas de direitos humanos, os direitos coletivos

e de defesa da natureza, em contraposição aos modelos econômicos neoextrativistas

141

que, na América Latina e noutras regiões privilegiam hoje a mineração, a agroindústria

e o crescimento sem considerações ecológicas (2014, p. 19-20).

De acordo com Guaravito, Kweitel e Waisbich (2012, p. 06) torna-se cada vez

mais claro, em especial na América Latina, o impacto negativo do atual modelo

econômico sobre os direitos humanos. Segundo os autores, mesmo reconhecendo

resultados importantes, como a redução da pobreza e o avanço em termos de

ecoeficiência e responsabilidade social corporativa, mostra-se evidente a necessidade de

desenvolver mecanismos para estabelecer limites à obsessão pelo lucro e, em especial,

para fortalecer a capacidade de regulação do Estado.

Neste cenário, percebemos que o crescimento econômico tem prevalecido

sobre qualquer outro valor e passa por cima dos direitos humanos, em especial das

de entropia, que tem a ver com a quantidade de energia dissipada. A dissipação de energia atingiu proporções alarmantes nas sociedades industriais avançadas de hoje em que os custos das atividades improdutivas – manutenção de tecnologias complexas, administração de vastas burocracias, mediação de conflitos, controle da criminalidade, proteção dos consumidores e do meio ambiente, etc. – absorvem uma parcela cada vez maior do Produto Nacional Bruto e, portanto, levam a inflação a índices sempre crescentes (CAPRA, 2006, p. 385-6). Neste sentido foi cunhado “o termo “estado de entropia” para o estágio de desenvolvimento econômico em que os custos de coordenação e manutenção burocráticos excedem a capacidade produtiva da sociedade, e todo o sistema soçobra sobre seu próprio peso e complexidade. Para evitar um futuro tão sombrio será necessário julgar as necessidades e tecnologias econômicas não em termos de eficiência economia estritamente definida, mas em termo de eficiência termodinâmica, o que equivale a uma radical mudança de prioridades.” (CAPRA, 2006, p. 386).

141

De acordo com Shiraishi (2014) no passado, o extrativismo estava associado às condições de atraso, pobreza e marginalização econômica e hoje, passou a ser entendido como motor do desenvolvimento dos países da América Latina e um suporte indispensável para o financiamento de programas de assistência social. Contudo, a implantação desse modelo vem gerando uma ordem de impactos ambientais e sociais, afetando, sobretudo, os grupos sociais locais. O termo neoextrativismo é um neologismo utilizado para designar esse processo, que promove injustiças sociais em detrimento do desenvolvimento compreendido apenas como crescimento econômico (SHIRAISHI, 2014, p. 299).

comunidades mais vulneráveis, de modo que as políticas e a cultura desenvolvimentista

agravam a tensão entre os setores que se beneficiam do crescimento do país e aqueles

que experimentam os ônus deste modelo. Repetidamente, tanto a criminalização dos

opositores como a negação dos direitos das pessoas afetadas são justificadas pelo

almejado (e suposto) bem-estar coletivos (GUARAVITO, KWEITEL E WAISBICH,

2012).

Essa tensão entre desenvolvimento (entendido comocrescimento econômico e

amparado numa racionalidade econômica de curto prazo) versus sociobiodiversidade

questiona algumas características dos nossos sistemas representativos, já que, na

maioria das vezes, os grupos afetados se encontram muito distantes dos centros políticos

e econômicos e, por isso, enfrentam ainda mais dificuldades para fazer sua voz e seus

interesses serem ouvidos (GUARAVITO, KWEITEL E WAISBICH, 2012, p. 06).

Os grandes projetos de infraestrutura representam empreendimentos de

enormes dimensões que movimentam grande volume de recursos econômicos, humanos

e naturais e são normalmente levados a cabo com forte atuação do poder estatal, mas, na

maioria das vezes, possuem o seu centro de decisão no poderio das grandes empresas,

no fluxo do capital mundial e na dependência que os setores produtivos do mercado

global possuem com relação aos recursos naturais (FRANCO e FEITOSA, 2013, P.

100).

No Brasil, a maioria dos grandes projetos de infraestrutura tem sido

incrementada em nome da industrialização e da soberania política sob o aval do

discurso da interiorização do desenvolvimento econômico e da garantia da segurança

nacional de modo que apresentam caráter pouco aberto à participação nas decisões que

versam sobre sua implantação e subsídios estatais, acompanhado de ausências quanto

aos impactos que as alterações socioeconômicas, culturais e ambientais causariam às

regiões nas quais são implantados.

Verifica-se uma contraposição entre o direito do desenvolvimento e o direito

humano ao desenvolvimento, pressupondo que este último seja expressão de um

processo democrático, inclusivo, fruto de diálogos interculturais que propugnem pela

emancipação da Amazônia e da América Latina e do Sul global de políticas

neocolonialistas prestigiando a justiça social e ambiental e o direito individual e

coletivo da autodeterminação, e com respeito ao ciclos naturais que regem a vida no

Planeta.