Juiz de Fora que, até o início da década de 1960, é regida por uma economia industrial e comercial, que lhe rendeu a alcunha de Manchester
Mineira, passa a sofrer as consequências de um novo modelo de
que trazem consigo a especulação imobiliária. Trata-se de um contexto em que coexistem e chegam a se confrontar dois lados: no primeiro, um novo governo municipal eleito com Itamar Franco, considerado por seus contemporâneos como um político dinâmico e inovador, com novas perspectivas urbanas, instaurando um novo rearranjo urbano sob a égide do engenheiro e seu grupo de técnicos e pensadores, podendo dar vazão às aspirações sociais e culturais da sociedade. De outro lado, e se contrapondo ao primeiro, uma ditadura militar imposta ao país com o Golpe de 1964, que estendia suas arbitrariedades sobre os setores mais ativos da sociedade, sob a opressão e vigilância incessante dos militares, que mantinham, na cidade, uma importante base de direita. Uma sociedade que, ao mesmo tempo em que experimentava uma efervescência cultural, buscava também alternativas e espaços para contornar as provações sociais do regime militar, e sobreviver à repressão.
O livro Imprensa, cultura e imaginário urbano: exercício de memória sobre os anos 60/70 em Juiz de Fora, de Christina Ferraz Musse (2008), recupera os movimentos artísticos e culturais que ocorriam na cidade nesse contexto. Nessa obra, a autora traça o panorama do período, ressaltando as brechas encontradas no cotidiano da cidade para burlar a vigilância da ditadura militar. Essa obra, portanto, será a principal referência para demarcar os espaços de sociabilidade e resistência da cidade.
Segundo a jornalista, a década de 1960, em Juiz de Fora, é marcada, especialmente, pela perda de sua identidade industrial. A cidade encontra-se paralisada nesse período, mas, embora seja perceptível o declínio econômico, ela se mantém como referência regional, sendo um importante centro comercial da Zona da Mata mineira. A cidade continua a crescer, porém, desordenadamente. A autora enfatiza que, se, no decorrer da década de 1960, alguns bairros eram reconhecidos por sua identidade operária e industrial, o novo contexto de desenvolvimento da cidade passa a desconstruir essa característica. Novos setores econômicos, relacionados ao mercado imobiliário da cidade passam a dominar o ramo da construção civil e modificam o centro de Juiz de Fora a partir da construção de novos edifícios.
As mudanças abruptas sentidas no espaço urbano, em função da especulação imobiliária, que avança no final da década de 1960, bem como as transformações operadas pelas inovações realizadas no transporte público de Juiz de Fora, com a extinção dos bondes decretada durante o governo de Itamar Franco, mudam a face da cidade (MUSSE, 2008). Em meio a todas essas transformações, de acordo com a autora, o Golpe Militar de 1964 desarticula vários movimentos culturais e políticos que se gestavam e assumiam um papel importante na cidade. Ressalta-se, neste estudo, a criação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que, recém-inaugurada, já sofre com a perda de seu atuante movimento estudantil, nesse contexto, disputado entre a esquerda católica e o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Entre os anos de 1964 e 1968, mesmo sofrendo com a repressão, uma crescente efervescência cultural é percebida alternativamente na cidade. Era a resistência de alguns artistas, intelectuais, sindicalistas e políticos que insistiam em suas ideias de transformar a sociedade local (MUSSE, 2008).
A autora afirma que a rua Halfeld, no centro comercial de Juiz de Fora, era um local de encontro de vários grupos que, nesse espaço aberto, podiam discutir sobre política e cultura. Destaca, ainda, que era possível, mesmo naquele período de repressão pesada, descer essa rua e encontrar pessoas reunidas em pequenos grupos, que, geralmente, eram representantes da intelectualidade e da cultura local, estudantes, misturados a boêmios e transeuntes, confabulando, confraternizando, ou simplesmente, observando a movimentação da cidade.
Outro espaço alternativo que permitia a convivência entre os movimentos urbanos, à época em que a ditadura impunha sua censura às manifestações artísticas e culturais, era a Livraria Sagarana, onde os frequentadores encontravam um vasto e atualizado acervo bibliográfico. Na Livraria, inaugurada em 1967, em pleno Regime Militar, reuniam-se os representantes do PCB, fato que, por si só, bastava para considerá-la um “antro subversivo”, segundo alguns setores da sociedade local (Ibid., p. 148).
Além da Livraria Sagarana, a autora faz referência também à Galeria de Arte Celina, como importante espaço de manifestação cultural entre os artistas locais que ali podiam expor seus trabalhos. A Galeria também abrigava o
Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), que promovia inúmeras exposições, mostras de cinema, peças de teatro, além de produções musicais e literárias.
Conforme Zaghetto (2012), entre os eventos culturais, destacava-se o Festival de Música Popular Brasileira de Juiz de Fora, em suas várias edições. A criação do festival foi uma importante iniciativa do governo Itamar Franco, e era realizado, anualmente, no período de 1968 a 1972, reunindo músicos de importância nacional, entre os quais se destacam: Paulo Sérgio e Marcos Vale, João Nogueira, Leila Diniz, Bibi Ferreira, Milton Nascimento, Clara Nunes, entre outros.
Ressalta-se, neste estudo, que as Secretarias de Educação e Cultura, bem como o Departamento Autônomo de Turismo, eram responsáveis pela realização e organização desses eventos anualmente. Ficava a cargo ainda das duas secretarias, de acordo com a agenda cultural da cidade, promover o samba, dando apoio para que as Escolas de Samba de Juiz de Fora pudessem gravar suas composições em Long Plays (ZAGHETTO, 2012). Vale assinalar que todas essas iniciativas ocorreram, em sua maioria, durante o governo Itamar Franco. Percebe-se que a cultura local, logo no primeiro mandato desse prefeito, passou a receber incentivo, levando-se em conta que cabia à Secretaria de Educação e Cultura e ao DAT a responsabilidade de promover seu desenvolvimento.
Assim, o conjunto de ações da prefeitura no mandato de Itamar, principalmente na área de Educação, Cultura e Turismo, aproximando-se dos objetivos do Conselho Nacional de Turismo e da Empresa Nacional de Turismo, pode ser um indício de que o Poder Público de Juiz de Fora se preocupava em desenvolver eventos locais passíveis de reconhecimento pelo Órgão Nacional. Essas orientações mostram a tentativa dos governantes no sentido de trazer para a cidade os investimentos voltados para a valorização da atividade e para a criação de uma agenda de turismo.
Nesse sentido, retoma-se a Deutsches Fest. Em uma cidade de 250 mil habitantes à época (ZAGHETTO, 2012), é preciso considerar que havia muita expectativa em termos de realização municipal. Sendo assim, para qualquer setor interessado nesse projeto, estar junto ao prefeito e ao Departamento de
Turismo, participando dessas realizações, podia ser uma via para alcançar um investimento destinado pelo Conselho de Turismo a eventos que atendessem a determinadas características sociais e culturais que recuperassem a identidade perdida da cidade.
Importa ressaltar que, embora em Juiz de Fora ocorressem, regularmente, festas religiosas39, que se espalhavam pelos bairros da cidade, nenhuma delas caracterizava a identidade de um grupo local de forma específica. Sendo assim, a criação da Festa Alemã poderia traduzir essa identitária cultural passível de reconhecimento pela cidade, sendo o grande diferencial entre muitos outros eventos. Para tanto, era necessário reconhecer, nas tradições alemãs de origem, a legitimidade necessária para alavancar a
Deutsches Fest dentro do quadro exposto de valorização do turismo local.