Em Israel o governo Likud, dirigido por Mehaemen Begin33 cumpriu em Abril de 1982 a retirada
completa do Sinai, de acordo com os compromissos do Tratado de Paz assinado com o Egipto em 1979. O governo do Likud decidira em 1981 anexar os Montes Golã conquistados à Síria na guerra israelo-árabe de 1967 e manteve o projecto de integração permanente dos territórios da Margem Ocidental do Jordão, conquistados na mesma ocasião à Jordânia, cumprindo o desígnio do Grande Israel, embora tendo que aceitar o compromisso de que os territórios da Margem ocidental teriam a breve trecho de gozar de autonomia, conforme fora acordado em Camp David, procurando o governo israelita adoptar uma versão o mais minimalista possível do conceito dessa autonomia. Ao mesmo tempo, e a partir das posições que ocupara no Líbano, a OLP mantinha o norte de Israel sob a ameaça intermitente de ataques de rockets que haviam levado a uma incursão de tropas israelitas no Sul do Líbano em 1978 que não ultrapassara o rio Litani, no sentido de expulsar as forças palestinianas ai instaladas. Tal incursão foi recebida com veementes protestos da comunidade internacional.
Em Junho de 1982 a análise que Israel podia fazer da situação internacional na região, bem como da sua possível evolução futura, podia resumir-se do seguinte modo: 1) Dos países árabes com real capacidade militar apenas um – a Síria - poderia aspirar a competir com Israel já que o Egipto tinha celebrado um Tratado de Paz e o Iraque estava tão absorvido na guerra com o Irão, que nem reagira à destruição do reactor nuclear Ozirac que a aviação israelita havia levado acabo em Setembro de 1981; 2) A capacidade militar da Síria para desafiar Israel dependia por completo dos fornecimentos de armas da URSS, que havia recentemente enviado baterias de defesa antiaérea de última geração para a Síria e que esta colocara em parte no vale de Bekaa no Líbano; sabendo-se no entanto que a URSS não considerava que as actuações da Síria no Líbano fossem cobertas pelo Tratado do de Cooperação e Amizade que havia celebrado com ela; 3) Entre a Síria e a OLP de Yasser Arafat Havai de há muito um confronto violento latente, tendo sido para “proteger” os cristãos maronitas contra a tentativa da OPL constituir um “Estado dentro do Estado” no Líbano que as tropas sírias haviam invadido aquele país em 1975 durante a guerra civil libanesa e aí se tinham mantido desde então; o regime sírio queria controlar o movimento nacional palestiniano por forma ser o único pólo de comando da “linha da frente”
33 Que fora co-responsável pelos acordos de Camp David de 1977 que desbloquearam as relações permanentes de
confronto entre Israel e a generalidade dos Estados árabes, abrindo negociações directas com o Egipto em direcção ao que foi na altura designado como uma “paz separada”.
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contra Israel, exigência que a saída do Egipto dessa posição tornara mais premente34; 4) A guerra
no Golfo Pérsico iria forçar um reforço substancial da presença directa dos EUA nessa região, absolutamente fundamental para a economia mundial e em particular para os EUA e seus aliados (por ter a maior concentração de reservas provadas de petróleo e pelo seu papel chave nas exportações petrolíferas); esta evolução iria tornar os EUA muito mais sensíveis às posições das Monarquias árabes do Golfo, que como era sabido (vd o plano Fahd apresentado pela Arábia Saudita em Agosto de 1981) defendiam na prática uma plano de “Paz em troca de Territórios” que o governo Likud recusava liminarmente; ou seja nos anos que se iriam seguir Israel teria seguramente menos margem de manobra autónoma face aos seus vizinhos, sem correr o risco de por em causa a aliança com os EUA.
6.2.1 A invasão do Líbano e a expulsão da OLP - A consideração conjunta destes factores
poderá ter sido crucial para a decisão israelita de invadir o Líbano a 6 de Julho de 1982. Formalmente o Governo reunira-se na véspera e aprovara uma operação para a conquista e controlo de uma área de 40km de largura a norte da fronteira de Israel com o Líbano para tornar mais difíceis os ataques de rockets. Mas as operações que se seguiram á invasão foram distintas e obedeceram a um plano muito mais ambicioso concebido pelo Ministro da Defesa Ariel Sharon. Assim: (a) As tropas israelitas depois de atravessarem o rio Litani, subiram ao longo da costa, tomaram Tiro e Sidon e Damour e dirigiram-se para Beirute Ocidental bombardeando as posições da OLP; b) A aviação israelita atacou nos dias seguintes o vale de Bekaa onde destruiu as baterias de mísseis de defesa anti aérea recém fornecidos pela URSS e abateu 79 aviões sírios (1/5 da Força aérea síria) em combate, obtendo assim a supremacia aérea no Líbano; c) A 13 de Junho as forças israelitas organizaram um cerco, ameaçando com uma invasão em larga escala, se não se cumprisse o desarmamento completo das forças da OLP e sírias presentes em Beirute Ocidental; d) Seguiram-se semanas de combates entre as forças israelitas e os guerrilheiros da OLP em Beirute Ocidental e com os tanques e as tropas sírias em Beirute Oriental, pelo controlo da estrada Beirute Damasco que acabou por ser tomado por Isael l. A 11 de Julho e perante a gravidade das perdas, a Síria aceitava um cessar-fogo e a12 de Julho a OLP fazia o mesmo, tendo sido decidida a saída das forças militares da OLP do País (exigência que a própria Síria não iria antagonizar). Entretanto Israel trabalhava na componente política do seu plano - ou seja o apoio ao líder do movimento falangista (extrema direita maronita) Bashir Gemayel com o
34 Havia também quem considerasse que, por detrás dessa exigência estava um desígnio não declarado do partido
Basth no poder na Síria – o da reconquista da “Grande Síria (ou seja da área designada por “Síria” no Império Otomano e que incluía além da Síria no seu território presente, o Líbano, a Palestina e a Jordânia)?
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objectivo de consolidar um poder central no Líbano assente em Forças Armadas libanesas a ser treinadas e equipadas por Israel, ganhando a capacidade de lidar com as cercas de 80 milícias que existiam no Pais e criando as condições para que um Governo libanês pudesse assinar um Tratado de Paz entre o Líbano e Israel. Depois da assinatura desse Tratado as Forças Armadas israelitas só sairiam do Pais quando as forças sírias também o fizessem, condição para que um novo governo dirigido por Gemayel pudesse assegurar o efectivo controlo sobre o conjunto do território. Ou seja, estava-se efectivamente perante um plano coerente, baseado no uso da superioridade militar israelita no momento, com o objectivo de mudar por inteiro os equilíbrios de poder entre Israel, a OPL, o Líbano e a Síria em favor de Israel, culminando no enfraquecimento do movimento nacional palestiniano, que tornasse possível caminhar para um simples autonomia dos territórios ocupados da Margem ocidental do Jordão.
Foi na componente política do plano que tudo começou a correr mal a Israel. Primeiro Bashir Gemayel foi assassinado. Depois grupos falangistas, culpando a OLP pelo crime, entraram nos campos de refugiados de Sabra e Shatilla e realizaram um massacre que virou a opinião pública mundial contra Israel. Os EUA, que já haviam condenado a invasão de Beirute por Israel no Conselho de Segurança da ONU, decidiram então intervir de forma mais directa no conflito aprovando o envio de uma força multinacional com tropas dos EUA, da França e da Itália para controlarem a evacuação das forças da OLP A 21 de Agosto de 1982 começaram a chegar os primeiros elementos dessa força e a 30 de Agosto a OLP tinha entregue as armas e os seus guerrilheiros seguido em direcção a vários países de destino, tendo Arafat permanecido num último bastião em Tiro. A Administração norte americana passou a defender no terreno a saída de todas tropas estrangeiras do Líbano e decidiu aproveitar a crise libanesa para relançar sob sua orientação as negociações de paz no Médio Oriente, demarcando-se quer das posições de defesa do “Grande IsraeL” do Likud, quer do plano Fahd completamente inaceitável por Israel.
6.2.2 Os Planos para Resolver o Conflito Israelo-árabe: o Plano Reagan - a 1 de Setembro
de 1982, no dia em que terminou o processo de evacuação da OLP de Beirute o Presidente norte- americano, num discursos realizado em Washington, apresentava um novo Plano de Paz que partia da constatação que: as perdas militares da OLP não diminuiriam o desejo do povo palestiniano em vir a encontrar uma solução justa para as suas reivindicações. Reagan considerava na sua alocução que qualquer solução futura teria que se basear no principio de “Uma troca da Paz por Territórios”, tomando como base a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU (em que também se teria baseado todo o processo de Camp David), mas reconhecia que as fronteiras pré 1967 faziam com que a largura do território de Israel fosse de
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apenas 10 milhas no seu local mais estreito, em que Israel vivia a uma distância de um tiro artilharia dos exércitos de Estados árabes hostis. E o Presidente Reagan afirmava que não se poderia pedir a Israel que aceitasse continuar a viver neste enquadramento territorial e geopolítico, o que pressupunha uma interpretação da Resolução 242 em que se considerava que Israel deveria retira de territórios ocupados na guerra de 1967 e não dos territórios ocupados nessa guerra e que a localização das fronteiras de Israel dependia da futura não hostilidade dos seus vizinhos mais directos. Os princípios que orientavam em concreto o Plano Reagan eram basicamente os seguintes: a) o Estado de Israel tem uma legitimidade inquestionável na comunidade das Nações e tem direito a uma existência em paz com fronteiras seguras e defensáveis e tem o direito de solicitar aos seus vizinhos que reconheçam estes factos; b) os palestinianos que vivem na Margem Ocidental do Jordão e na faixa de Gaza, tal como estava estipulado nos Acordos de Camp David, deveriam dispor de autonomia para gerir os seus assuntos próprios, respeitando as preocupações de segurança das partes envolvidas, nomeadamente de Israel; essa autonomia seria exercida durante um período de transição de cinco anos que começaria com a eleição de uma Autoridade Palestiniana encarregue das funções de auto governo dos territórios; c) no futuro não haveria mais lugar à construção de novos colonatos durante este período de transição, sendo que a adopção de um congelamento imediato da construção dos colonatos, mais do que qualquer outra acção, poderia criar a confiança necessária para uma participação alargada nas negociações; d) para além do período de transição, a paz não parecia atingível através da criação de um Estado palestiniano nos territórios ocupados, nem na base da soberania ou controlo permanente de Israel sobre esses territórios, sendo que ambas as soluções não contariam com o apoio dos EUA; e e) o estatuto final dos territórios teria que ser definido através de negociações, considerando os EUA que o auto governo palestiniano na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza, em associação com a Jordânia ofereceria a melhor hipóteses de alcança uma paz justa e duradoura.
A apresentação do Plano Reagan, que surgiu num contexto de evidente enfraquecimento da OLP devido à actuação de Israel no Líbano, teve quatro consequências nos meses seguintes:
a) abriu um caminho, até então bloqueado, a conversações entre a OLP de Arafat e a Jordânia no
sentido de explorar os contornos de uma possível associação nas negociações de paz, processo que contou com o apoio do Egipto, que viu nele mais uma modo de sair do isolamento no mundo árabe; b ) gerou a oposição frontal da URSS e dos Estados da Frente de Rejeição – Síria, Líbia e Yémen do Sul -acompanhada pela organização por parte da Síria de uma oposição dentro da OLP a Arafat e a quaisquer aproximações à Jordânia; c) Deixou os Monarquias do Golfo numa
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situação dúbia, já que discordavam da abordagem mas não queriam antagonizar frontalmente nem os EUA nem Arafat, tanto mais que a alternativa seria uma OLP comandada pela Síria, aliada do Irão na guerra Iraque-Irão; e d) causou em Israel a maior consternação no Governo do Likud, que se considerou ignorado pelos EUA na preparação do Plano que lhe foi apresentado como facto consumado; o que inevitavelmente se traduziu em maior tensão na gestão dos confrontos no Líbano, que se foram prolongando pelo ano de 1983. Entretanto a presidência do Líbano foi ocupada por outro membro da mesma família cristã maronita, Amin Gemayel, que se confrontou com a exigência de profundas reformas das instituições politicas libanesas, nomeadamente por parte de xiitas e druzos, no sentido de dar maior peso nas decisões a estas comunidades até então marginalizadas, multiplicando-se os confrontos da milícia dos druzos, quer com as milícias falangistas, quer com as forças regulares libanesas, que puderam contar com o apoio financeiro e em treino dos EUA. Gemayel, sem margem para avançar rapidamente na senda das reformas políticas internas (a que o movimento falangista se opunha) concentrou-se na negociação da saída das tropas estrangeiras do território libanês, deparando-se com a oposição da Síria que só admitia sair se Israel também o fizesse. O esforço negocial concentrou-se então sobre Israel e os EUA passaram a desempenhar um papel mais activo de mediação nestas negociações em que a obstrução de Israel levou ao adiamento na entrega dos aviões de combate F-16. Acabou, no entanto, por ser conseguido um Acordo em 17 Maio de1983 pelo qual o Líbano reconhecia Israel, se punha fim ao estado de guerra entre os dois países, que existira desde 1948,e Israel se comprometia a retirar as suas tropas desde que as tropas da Síria e o resto das da OLP fizessem o mesmo, estabelecendo uma zona de segurança a norte da fronteira em que as forças regulares libanesas teriam apenas uma presença limitada e realizariam patrulhas comuns Líbano-Israel, garantindo que aí não se implantassem forças hostis a Israel.
6.2.3. O Irão entra em força na cena política do Líbano e os EUA retiram - em Junho de
1983 Israel decide retirar as suas forças de Beirute - onde estavam a ser atacadas e atingidas pelos confrontos entre as várias milícias libanesas - para um território aquém do rio Awali. È nesse contexto que se constituiu, em estreita aliança com a Síria, uma Frente de Salvação Nacional que se iria opor ao Acordo de 17 de Maio e que integrou representantes dos druzos, dos sunitas e de cristãos maronitas não falangistas, mas que não contaria com a participação do milícia xiita AMAL, também oposta ao Acordo. Entretanto tinha chegado ao vale de Bekaa no Líbano um primeiro grupo de combatentes enviados pelos Guardas revolucionários do Irão que iriam nos meses seguintes mudar todo o cenário político da região, com uma série de ataques com bombistas suicidas que provocaram o pânico. A 18 de Abril de 1984 dá-se uma explosão na
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Embaixada dos EUA, com 47 mortos; a 23 de Outubro explode o aquartelamento dos marines em Beirute com 239 mortos e no mesmo dia as instalações do contingente francês sofrem outra explosão em que houve 59 mortos. E a 4 de Novembro foi a vez de uma ataque ao quartel- general das forças israelitas na cidade de Tiro em que morreram 60 militares. Chegara ao Líbano a célula terrorista que havia de integrar mais tarde o Hezbollah, mas que permaneceria sempre sob o comando directo de Teerão. Após a retirada das forças israelitas de Beirute, os confrontos entre falangistas e druzos e xiitas e destes com as Exército libanês aumentaram de intensidade e levaram ao colapso do Exército, retirando a Gemayel o que lhe restava de condições para governar. Em Fevereiro de 1984 a Administração Reagan, que concentrara os seus apoios em Gemaye, decidiu retirar os marines para os navios da esquadra norte americana fundeada em frente de Beirute e iniciou o bombardeamento sistemático de posições em terra. Esta retirada representou uma enorme derrota política para os EUA, que lhe havia de retirar nos meses seguintes capacidade negocial em toda região. Seguiu-se, meses depois, a actuação das forças sírias para expulsar os últimos seguidores de Arafat no seu último reduto em Tripoli, pondo fim à presença da OLP no Líbano, tarefa iniciada anos antes pelas tropas israelitas invasoras.
A actuação dos EUA no Líbano, seguindo a opção de Israel, ficando completamente alinhados com os cristãos falangistas, não tendo sido capaz de forçar estes a um diálogo político intra libanês que isolasse a Síria, e não tendo querido envolver directamente a Síria na elaboração do Acordo de Maio de 1983, por a considerar definitivamente alinhada com URSS acabou por liquidar uma parte do “capital político” que ficara á sua disposição após a retirada forçada da OLP do Líbano devido à invasão por Israel. Esta derrota dos EUA no Médio Oriente evidenciou as limitações, em termos de perda de flexibilidade regional, de uma ofensiva mundial contra a URSS.