Porque é que são usadas imagens de arquivo para “pintar” peças?
Imagina o tempo que demora a ingestar as imagens e que essas imagens estejam disponíveis no sistema... É muito mais rápido utilizar as imagens de arquivo que já estão disponíveis. A nível de rapidez, em algumas situações, acaba por ser a situação ideal. Mas isso é em último recurso. No entanto, na realidade, quando não temos muitas imagens, o que acontece é que estão a ser usadas sempre as mesmas. Eu fui, durante muitos anos, jornalista. Chegou a uma altura em que eu já pensava ‘a seguir a este plano vem aquele e a seguir àquele vem o outro’. E isso, para quem está lá em casa, se é alguém que acompanha a nossa informação, claro que é visível. E não é algo propriamente apelativo.
Por exemplo, na questão do Vale e Azevedo, eu lembro-me da entrevista que a Alexandra Borges fez com ele em Londres. O homem já está cá e nós continuamos a levar com as imagens dele na casa de Londres. Nós já usámos essas imagens montes de vezes.
E mesmo na questão da saúde – que era até há bem pouco tempo o assunto que eu dominava melhor – as imagens de grávidas são sempre as mesmas. Para tu teres uma ideia, a imagem de grávida que nós temos sentada num sofá é de uma amiga minha. A filha dela tem 10 anos. Ela estava grávida há 10 anos! Mas nós continuamos, 10 anos depois, a usar as mesmas imagens. Vais perguntar-me: ‘então não voltaram a fazer imagens de gente grávida?’ Fizemos. Mas aquelas são imagens boas, foram feitas com calma. Apesar de no sistema haver mais não sei quantas imagens de grávidas, estas estão sempre a ser escolhidas para ir para o ar.
E acha que o espetador repara que realmente as imagens são sempre as mesmas? Em algumas peças, dependendo do tema, claro.
E isso não traz desvantagens?
A ideia é ser uma informação arejada. O texto até pode ser muito criativo, mas televisão é imagem. Se tu tens uma imagem que as pessoas lá em casa já viram 200 vezes...
Em que situações é que são usadas as imagens de arquivo?
Por exemplo, se estás a fazer uma peça sobre alguém que morreu, a única coisa que podes fazer é ir buscar imagens de arquivo dessa pessoa. É a melhor maneira e a maneira mais rápida de colocares a matéria no ar. É óbvio que se fores fazer uma peça sobre uma manifestação não podes colocar imagens de arquivo.
Qual é a percentagem de peças de Sociedade que vão para o ar usando imagens de arquivo?
Nós procuramos não usar muito, mas às vezes temos que ser. Por exemplo, no ‘Jornal da Uma’ de hoje [25.02.2013], que eu me esteja assim a recordar, penso que não havia uma única peça de sociedade com imagens de arquivo. Tínhamos muita coisa da chegada da troika, vários festivais (que também não se pode usar imagens de arquivo), muita peça do dia sobre a atualidade... Acho que não tínhamos imagens de arquivo.
Mas a troika ainda não tinha chegado...
Nós fizemos sobre a manifestação. Tínhamos direto de lá. Para fugirmos às imagens de arquivo, o que é que se faz? O jornalista quando está em direto de um local, manda um bloco de imagens para nós cá “pintar”mos durante o direto.
Considera que quando essas imagens de arquivo vão para o ar deviam ser identificadas com o aparecimento do oráculo ‘arquivo’?
Deveria aparecer sempre esse oráculo. Porque são imagens captadas noutra altura, numa outra circunstância e, portanto, quem está lá em casa tem o direito a saber.
E porque não aparece?
Pois, não aparece, mas não sei porquê... Durante muito anos apareceu e depois, de um dia para o outro, deixou de se usar. Mas não sei porquê, sinceramente.
Utilizar essas imagens, na sua opinião, requer mais cuidado por parte do jornalista? É exatamente a mesma coisa. Utilizar imagens de arquivo ou utilizar “brutos” captados no dia requer o mesmo empenho, a mesma dedicação, o mesmo cuidado por parte do jornalista.
Quando são temas mais polémicos?
As peças não podem ir com negros para o ar. Há temas que são muito delicados e não há muitas imagens sobre aquilo. Por vezes usamos simulações, como no caso da violência doméstica. Mas até essas imagens já toda a gente conhece. Eu própria sei que o primeiro plano é ele a levantar o braço esquerdo, o segundo é ela a reagir de determinada forma... Fazemos simulações exatamente para não melindrar ninguém. Porém, há outras situações em que não existem simulações e nós não podemos deixar de falar nos temas. Nessas circunstâncias, pintamos as peças utilizando as imagens de arquivo. Aí tens que salvaguardar as pessoas que entram nessas imagens, não as identificando. Por exemplo, o caso daquela criança que passou fome porque a escola recusou dar-lhe a refeição na cantina. Nós não podemos ter a cara dos miúdos lá identificadas. Tu estás a dizer o quê? Que aquelas crianças passam fome? Se calhar até passam, mas não te compete a ti estar a mostrar isso ao país.
Com o ritmo acelerado da informação, esses cuidados são respeitados?
Esses cuidados devem manter-se sempre e devem ser sempre cumpridos. Às vezes são cumpridos de uma maneira mais eficaz, outras nem por isso.
Utilizar imagens de arquivo já trouxe algum tipo de problemas na secção de sociedade?
Já. Estou a lembrar-me de um caso. Tínhamos em arquivo umas imagens que foram feitas há muito tempo sobre obesidade. No meio dessas imagens estava um miúdo gordo que devia ter 10 anos, sentado numa esplanada, a comer um bolo de chocolate. Essas imagens foram usadas e usadas e usadas. Até que um dia, nós recebemos um telefonema da mãe do miúdo a dizer ‘Por favor, não passem estas imagens, porque de cada vez que passa, o meu filho é gozado na escola. O meu filho já perdeu 30 quilos. Isso foi uma fase da vida dele”. Além do mais, essas imagens já
tinham quase dez anos. Demos logo a indicação para a mediateca para tirar essas imagens do sistema. Mas a verdade é que essas imagens ainda andam por aí. Porque um jornalista, quando volta a fazer uma peça sobre obesidade, liga para a mediateca e pede para desarquivar peças sobre esse tema. Nessas peças, vão estar essas imagens e que, por desconhecimento do jornalista desta situação, vão voltar a ser aproveitadas. É uma coisa horrorosa. Felizmente, a mãe nunca mais ligou.
Mas já aconteceu também com pessoas que faleceram entretanto e que estão em imagens de arquivo. Pessoas a andar na rua, pessoas em lares... De vez em quando recebemos telefonemas a pedirem-nos para não passarem determinadas imagens.
Então está a dizer-me que mesmo alertando a mediateca desse facto, as imagens podem voltar a passar?
Claro que sim. Porque eles apagam as imagens dos clips residentes, os compactos de imagens para “pintar”, mas o que acontece é que, como essa imagem já foi utilizada em muitas peças, ela está dispersa pelo sistema. Se houver um pedido para desarquivar as peças feitas no ano passado sobre obesidade, essas imagens do miúdo estão lá, apesar de no clip já não estar. Se o jornalista as utilizar novamente, vai ajudar a que essas imagens se multiplique ainda mais.
Qual é a sua opinião sobre as imagens de arquivo? É mais benéfico do ponto de vista empresarial ou do ponto de vista jornalístico?
A TVI24 não teria tantas peças no ar se não houvesse arquivo. A TVI24 não vai em reportagem porque utiliza as nossas imagens de arquivo. Portanto, se não fosse dessa maneira, por ser uma equipa bastante pequena, não havia informação.
É óbvio que é muito mais barato para a casa e muito mais rápido, porque se evita que se saia em reportagem tantas vezes. Eu não condeno a utilização de imagens de arquivo. Pelo contrário. O que acho é que as coisas devem ser tratadas com alguma sensatez.
Há alternativa? Ou o jornalismo vive do arquivo?
Precisamos do arquivo sempre. Há uns tempos fizemos esse teste – não era uma norma – pensámos ‘vamos lá tentar não usar imagens de arquivo’. E as coisas resultaram. Reduzimos bastante o número de vezes que íamos ao arquivo. Dá é mais trabalho, claro.
Mas depois ainda há ali a outra parte – a parte dos cameras. Durante muito tempo tivemos aqui um camera que, saindo com ele, fosse para que peça fosse, era sempre a mesma coisa: perguntava-se ‘Temos imagens? Podemos ir embora?’ e ele respondia ‘Não temos, mas também não precisas. Vais ao arquivo.’ Isso diz tudo. A coisa tem que começar nos cameras porque são eles que fazem as imagens.