Nos últimos três séculos, os padrões de comunicação científica utilizados, tem sido semelhantes nas diversas disciplinas. Do leque de opções existentes, as monografias, os artigos em periódicos e os anais de conferências, estão no topo das preferências de uso. Em termos de progressões académicas, podemos identificar também as dissertações de Mestrado e as teses de Doutoramento.
Com os desenvolvimentos tecnológicos, novas formas de comunicar apareceram. São exemplos o livro e a revista em formato electrónico, a videoconferência ou o correio electrónico. No entanto, a transição para o formato electrónico não é fácil. Os condicionalismos culturais nas comunidades científicas, os benefícios que as comunidades podem retirar para o seu trabalho e a credibilidade dos novos formatos, são factores relevantes para a adopção das novas ferramentas.
A pergunta que se coloca, é saber de que forma se está a processar a transição do formato impresso para o electrónico. As opiniões dos autores em relação a este assunto são divergentes.
Harrison e Stephen (1996) consideram que as monografias publicadas de forma tradicional estão mortas sob o ponto de vista da viabilidade económica. Uma década mais tarde, Mendez e Chapman (2006) referem o fim, como sentença quase certa, para os livros e revistas impressas. Segundo os autores, o desaparecimento destes é iminente, uma vez que os formatos impressos se tornaram obsoletos, vindo paulatinamente a ser substituídos pelas versões electrónicas. No entanto, a maioria dos autores analisados é contrária a esta visão.
32 Darnton (1999), por exemplo, considera que o livro impresso é um extraordinário instrumento, resistível à deterioração, sem necessidade de downloads, com um design bonito aos olhos e que dá prazer ter na mão. Para Wilson (1997), a pronúncia da morte dos livros tem sido desde há muito tempo profetizada. Desde há décadas que se fala nesta questão e se afirma que bastaria uma invenção, por exemplo da rádio ou televisão, para se assistir ao fim dos livros. Actualmente o assunto voltou à ordem do dia, devido ao desenvolvimento da web.
Um espaço onde os livros continuam a ser fundamentais é nas Universidades, para efeitos de progressão académica. Neste âmbito, Greco et al. (2006), consideram que apesar da crise ter afectado a edição de livros, com aumento dos custos em 66,08% desde 1986 a 2003, os livros continuam a ser fundamentais para se progredir academicamente. Dalton (2006), também argumenta neste sentido, ao afirmar que em muitas universidades a progressão está associada à publicação de livros. Nas áreas das Humanidades, há que se considerar uma preferência pelo livro, especialmente no que diz respeito à publicação de resultados de pesquisa. Nesse sentido, Darnton (1999) adianta mesmo, que a atracção pelo electrónico é contagiosa, dando exemplo da disciplina de História, onde predomina o livro impresso, mas devido à crise nas publicações, os livros electrónicos começam a ser apelativos. A preferência pelo livro nas Humanidades é identificada, também, no trabalho de Mendez e Chapman (2006) ao considerarem que nas disciplinas de História, Música e Religião, as monografias são o veículo mais importante, pelo que acreditam que a chamada crise na utilização de monografias não é real.
Por conseguinte, e segundo Dalton (2006), nas disciplinas onde a base é o livro, ele continuará a ser a regra. Ao fazer uma análise à taxa de citação de monografias em estudos académicos, Dalton (2006) concluiu que o volume de livros citados é similar ao que era há uma geração atrás. Ou seja, continuam a ser eficazes. O seu carácter portátil e permanente são as suas principais vantagens.
Sawyer (2001), numa comparação entre o formato impresso e o formato electrónico, argumenta que o livro electrónico tem um formato pouco atractivo, sendo seu acesso dependente da utilização de meios informáticos, nomeadamente de computador para proceder à leitura do livro. Perante o exposto, Darnton (1999) considera que o livro impresso aparenta estar com saúde e que a Galáxia Gutemberg vai continuar a existir, mas com um complemento – a versão electrónica do livro – em que este não substituirá o primeiro.
33 Neste esgrimir de argumentos, o quadro 4, lista as vantagens e desvantagens dos dois tipos de formatos.
Quadro 4
Comparação entre livro impresso e livro em formato electrónico
Livro Impresso Livro em Formato Electrónico Vantagens Desvantagens Vantagens Desvantagens
Prestígio Inviável economicamente Alta disseminação Reservas sobre a fiabilidade Falta de longevidade Necessário para a progressão na carreira académica Esquema tradicional de comunicação Menos tempo na publicação Falta de prestígio Portátil e permanente Lentidão na
publicação Falhas na protecção do direito de autor Mercado limitado Componentes multimédia e de hiperligação Aumento do plágio
A análise deste quadro, permite-nos retirar algumas considerações relevantes. Por muito que se interrogue se o livro em formato impresso está a sair de circulação para dar lugar à sua versão electrónica, o simples facto de haver enorme discussão à volta deste problema demonstra a importância que o livro tem na sociedade actual e que continuará a ter nas próximas décadas.
No entanto, consideramos que os autores analisados estão a dar demasiada importância a factores externos, como por exemplo, a questões económicas ou de mercado. O livro, como qualquer outro bem, está sujeito às leis da concorrência, às leis da oferta e da procura. Por conseguinte, só terá sucesso e perdurará no mercado, o que tem qualidade. O mesmo se deve aplicar ao livro, independentemente de ser em formato impresso ou electrónico.
Em relação à infracção dos direitos de autor e ao plágio, associado muito aos livros em formato electrónico, consideramos que é um problema estrutural, não associado unicamente aos livros neste formato. Os livros impressos também estão sujeitos a este problema. Por exemplo, actualmente discute-se em Portugal a imposição de normas legais que impeçam os leitores das bibliotecas de fotocopiar livremente textos. A
34 diferença entre livros em formato impresso para o formato electrónico é o facto de ser mais fácil nestes últimos fazer uma cópia.
No entanto, a crise não é um problema exclusivo das monografias. Também se tem vaticinado a perda de importância das revistas impressas e a sua substituição pelas suas congéneres electrónicas. Nesse contexto, as desvantagens apresentadas para as revistas impressas têm sido muitas.
Bomfá e Castro (2004) consideram que o tempo excessivo que decorre entre o envio do texto até à publicação, o custo de aquisição e manutenção das colecções são desvantagens evidenciadas para se efectuar uma transição rápida para o electrónico. Referem, ainda, o carácter rígido e estático do impresso, a omissão de informação, os atrasos na avaliação ou o alto índice de autores e avaliadores vinculados às instituições de origem dos periódicos.
Perante estas desvantagens, os defensores do formato electrónico, apresentam os benefícios deste, que na maioria dos casos são o contraditório das desvantagens. Phelps (1997) refere a redução dos custos de disseminação para metade. Kling e Callahan (2002) referem o acesso rápido e fácil aos artigos por parte dos leitores, a sua capacidade de criar ligações para citações bibliográficas ou a maior interactividade entre autores e leitores. No entanto, os mesmos autores consideram que, apesar das vantagens, este novo formato não fica imune às críticas. Pode salientar-se o facto de as revistas em formato electrónico estarem mais vulneráveis ao plágio, uma vez que são um alvo fácil através de cópias directas, ou as dificuldades para arquivar, catalogar e aceder-se mais tarde (Kling e Callahan, 2002).
Kling e Callahan (2002), concluem que dificilmente as revistas impressas poderão ser substituídas, porque as revistas em formato electrónico sofrem de um problema de legitimidade e utilidade. Para corroborar esta opinião, utilizam um estudo realizado na Faculdade de Ciências da Universidade de Oklahoma, em que os resultados demonstram que menos de 50% dos académicos usam o artigo electrónico e que 62% a 65% preferem a versão impressa.
Contudo, as diversas Ciências, em função das suas características, adoptam os instrumentos ou formatos que melhor satisfazem as suas necessidades de comunicação. Por conseguinte, o desaparecimento do impresso é algo que não deslumbra como possível a breve trecho. Essas questões, no entanto, apresentam diferenças, a depender do tipo de comunidade científica (cientistas, cientistas sociais, humanistas) em que são tratadas. É o que se discute a seguir.
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