• No results found

CHAPTER 5: EMPIRICAL FINDINGS

6.1 Application of Technology Approach

Esta pesquisa foi desenvolvida com base em uma perspectiva qualitativa, especialmente considerando as contribuições do movimento construcionista social em Psicologia. Entende-se, nessa perspectiva, que é através das práticas discursivas que ressignificações e novos sentidos podem ser produzidos, através da relação dialógica entre os interlocutores. Assim, a pesquisa construcionista focaliza o processo de produção de sentidos, e não seus resultados, uma vez que a produção do conhecimento se dá na fluidez das relações estabelecidas entre participantes e pesquisadores (Spink & Medrado, 2004).

Para Corradi-Webster (2014) a prática em pesquisa Construcionista social é realizada coletivamente por meio de trocas linguísticas capazes de produzir sentidos sobre algo, e que são compartilhados por uma comunidade discursiva. Sendo assim não são representações fidedignas da realidade, mas formas possíveis de compreender informações produzidas no contexto das pesquisas em ciências humanas, as quais são compartilhadas por uma comunidade em um momento histórico especifico e situado. Para Corradi-Webster (2014) o discurso do movimento construcionista social oferece modos de entendimento possíveis de pessoas, do mundo ou de alguma forma de experiência, os quais não têm a pretensão de serem generalizáveis como os estudos realizados em perspectivas positivistas em ciência. Dessa forma, de acordo com Spink & P.Spink (2014) a preocupação de uma pesquisa em uma perspectiva pós moderna não está na busca ou previsões futuras e sim em compreender o que acontece no agora, e quais as implicações políticas circunscritas no cotidiano.

De acordo com Moscheta (2013), a compreensão do movimento construcionista social em ciência depende de analisarmos o contexto sócio cultural que permitiu a sua emergência. Esse movimento pode ser identificado como pós-moderno em diversas formas de expressão como a arte, a cultura e a ciência. Nas palavras do autor:

a pós-modernidade congrega um feixe de múltiplos discursos próximos e divergentes, com zonas de intersecção e oposição, cuja semelhança está no modo como se reconhecem enquanto possibilidades discursivas em oposição à narrativas explicativas únicas e absolutas. (p.24)

Dentro desse contexto de mudança de perspectiva, o Construcionismo Social surge como possibilidade nas ciências humanas, sendo fruto de três movimentos interdependentes: o primeiro deles na Filosofia, como uma crítica ao Representacionismo; em segundo lugar na Sociologia do Conhecimento, pela desconstrução da retórica da verdade; e, por fim, na política, pela busca de empoderamento dos grupos sociais marginalizados (Spink & Medrado, 2004).

De acordo com os pressupostos construcionistas sociais, as formas como conhecemos e experienciamos o mundo não necessariamente implicam em um retrato fiel da realidade, diferentemente da concepção empiricista da ciência positivista, a qual propunha que as teorias poderiam mapear a realidade. Assim, essa concepção empiricista é criticada por apresentar uma visão descontextualizada da realidade. Em contraposição à este projeto empiricista de ciência, Gergen (2009) propõe algumas premissas metateóricas, que nos auxiliam a compreender o porquê eleger como foco de investigação o processo de produção de sentidos nas relações humanas.

Em contraposição a essa concepção empiricista, a partir da definição de Gergen (2009, p. 301), a pesquisa construcionista social:

Ocupa-se principalmente de explicar os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam, ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que vivem (incluindo-se a si mesmas). Busca articular formas compartilhadas de entendimento tal como existem atualmente, como existiram em períodos históricos anteriores, e como poderão vir a existir se a atenção criativa se dirigir neste sentido.

De acordo com o autor, aquilo que conhecemos ou experienciamos como mundo e realidade não determinam por si só o que algo é. Assim, o Construcionismo Social parte da dúvida radical com relação ao que é dado, seja na ciência ou no cotidiano da vida em geral. De acordo com Gergen (2009), “os termos que usamos para compreender o mundo são artefatos sociais, os quais são produtos historicamente situados do intercâmbio social” (P.301). O processo de compreensão de algo não se dá ao acaso ou por indução, ele é fruto de processos sociais, das relações humanas estabelecidas no diálogo. Nas palavras do autor, “a maneira como um construto prevalece ou se sustenta através dos tempos não é fruto de sua validade empírica” (Gergen, 2009). Assim, perspectivas, construtos e paradigmas podem ser abandonados na medida em que sua inteligibilidade passa a ser questionada dentro da comunidade de interlocutores.

Além disso, Gergen (2009) sustenta que as formas de compreensão negociadas a partir de diferentes discursos e práticas sustentam determinadas formas de ação no mundo, de modo que elas não podem ser compreendidas isoladamente ou descoladas de seu contexto. Para Spink

e Frezza (2004), a pesquisa construcionista se constitui em um convite a compreender as regras e convenções como realidades socialmente construídas e historicamente localizadas.

A partir da definição do Construcionismo e das premissas apresentadas, pode-se perceber a centralidade da linguagem (aqui estamos nos referindo à linguagem em uso) dentro desta perspectiva, existindo as correntes analíticas que focalizam as trocas linguísticas e as que focalizam o discurso. A primeira atém-se aos momentos ativos de uso da linguagem, quando as palavras ganham sua significação na relação entre interlocutores. A segunda atem-se ao discurso, o qual remete ao uso institucionalizado da linguagem, com significados relativamente estáveis. Os discursos podem competir entre si. Como discutimos nesse texto, diferentes discursos sobre saúde mental convivem na atualidade, sustentando práticas tão distintas quanto hospitalização compulsória e assistência comunitária.

Em um entendimento construcionista, compreende-se que é a partir das práticas discursivas que as pessoas em interação produzem sentidos e se posicionam em suas relações sociais cotidianas. Além disso, tais práticas possibilitam que momentos de rupturas e ressignificações e novos sentidos sejam produzidos, através da relação dialógica entre os interlocutores (Spink & Medrado, 2004; Pinheiro, 2004).

O conceito de sentido aqui utilizado é melhor explicitado por Spink e Medrado (2000, p.41) como:

Uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas, na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e localizadas, constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com os fenômenos a sua volta.

Para “produção de sentidos”, neste texto, adotamos a definição proposta por Spink e Medrado (2004): “a produção de sentidos é um fenômeno sociolinguístico, uma vez que o uso da linguagem sustenta práticas sociais geradoras de sentido” (p.42). Dessa forma, compreendemos que é através de práticas discursivas compreendidas como “a linguagem em ação”, que se definem “as maneiras pelas quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em suas relações sociais cotidianas” (p.45).

Considerando o foco no processo de produção de sentidos nas práticas discursivas, tal como descrito por Spink e Medrado (2004), uma orientação construcionista social para a prática de pesquisa busca incorporar uma perspectiva temporal acerca da construção do conhecimento, que inclui: a) a análise do tempo longo – reconhecendo a presença de linguagens ou discursos sociais, nas maneiras mais ou menos regulares de explicarmos o mundo a nossa volta; b) a

análise do tempo vivido – reconhecendo a presença de significados que são mais específicos e que fazem parte da história de vida de cada pessoa, circunscrita a um dado contexto e tempo; e c) o tempo curto – reconhecendo que o momento interativo permite possibilidades mais dinâmicas de negociação destes sentidos, marcado pelo diálogo entre diferentes vozes e interlocutores.

Em consonância com esse ponto de vista, de acordo com Guanaes e Japur (2008), existe um entrelaçamento entre a realidade e o discurso. A perspectiva construcionista social privilegia o modo como, através da participação em práticas discursivas, construímos sentidos sobre o mundo e nós mesmos. As investigações nessa perspectiva têm como foco o universo conversacional, o momento interativo em que os sentidos se apresentam e a maneira como tais discursos sustentam e constroem determinadas práticas sociais.

Em nosso estudo, a escolha por uma orientação construcionista social para a pesquisa se faz presente como um recurso para compreender como, nas práticas discursivas situadas no contexto específico da entrevista, profissionais de saúde mental constroem sentidos sobre a internação psiquiátrica compulsória e seus desafios no cotidiano, reconhecendo que os sentidos produzidos no contexto da entrevista guardam relação tanto com discursos sociais mais amplos já produzidos acerca desta temática (tempo logo e tempo vivido), como com o próprio momento interativo em que a produção destes sentidos se faz possível (tempo curto).

Dessa forma, o cuidado na explicitação, a partir de estudo da literatura, de como diferentes sentidos sobre saúde mental e internação psiquiátrica se construíram ao longo da história, sustentando diferentes práticas de cuidado na área; de como tais sentidos ainda convivem e dialogam com outras possibilidades discursivas sobre o cuidado em saúde mental; de como tem se dado o uso das IPC no Brasil e em outros contextos; e do papel do profissional no processo de cuidado; é fundamental, neste texto, para explicitar o processo de construção social da IPC como um recurso no cuidado em saúde mental. Consequentemente, este tipo de análise, abre espaço para questionamentos e reflexões. A IPC não pode ser tomada como algo natural, e sim analisada em função das contingências histórias e culturais que sustentam seu uso; e dos efeitos que este tipo de prática gera tanto na prática em saúde mental como também no entendimento social que esse uso acarreta.

De acordo com Gergen (2004), a produção de sentidos é um processo que se dá por meio de trocas sociais e linguísticas, e tais sentidos são geradores de práticas. Dessa forma, aquilo que é tomado como real ou certo é fruto de uma construção social compartilhada por um grupo de pessoas em determinado momento histórico. No campo da saúde mental, podemos pensar que aquilo que se entende ou se configura como uma prática de cuidado é fruto de

elaborações construídas e edificadas, ao longo do tempo, sobre o fenômeno considerado como uma manifestação de loucura. Nas palavras do autor “quando as pessoas definem o que é uma

realidade, sempre falam a partir de uma tradição cultural” (p.21).

Ainda de acordo com Gergen (2004), ao estabelecermos diálogos e conversas construímos o mundo e a realidade em que vivemos, composta pelos costumes e tradições que tendem a ser mantidos ao longo do tempo. Neste sentido, o autor propõe que as coisas que tomamos como sendo óbvias e lógicas podem ser questionadas, e aquilo que consideramos um problema pode vir a ser pensado como uma oportunidade. No campo da saúde mental, esta proposta nos leva a refletir sobre novas formas e possibilidades de pensar que podem emergir acerca das doenças mentais e das práticas existentes para tratá-las.

Dessa forma nesse estudo não trataremos os sentidos produzidos com os profissionais de equipes de saúde do hospital psiquiátrico em que pesquisamos como únicos e sim como possibilidades de entendimento do fenômeno das IPCs no cotidiano dos profissionais e que foram desenvolvidas nas entrevistas e na relação com a pesquisadora. De acordo com McNamee (2012) tradição da pesquisa construcionista está centrada nos processos e realidades relacionais que são construídas de formas diferentes em diferentes tempos e lugares e que podem ser totalmente distintas em outras comunidades.

Por fim destacamos que como parte do referencial teórico-metodológico adotado para elaboração do presente estudo, optamos por adotar a noção de campo-tema proposta por P. Spink (2003), na qual o campo da pesquisa não se refere apenas um local específico; o campo é algo mais amplo, como a situação atual da IPC no Brasil e mais especificamente para os profissionais das equipes de saúde mental. O campo de pesquisa está dessa forma imerso tanto nas experiências vividas como profissional que lida com IPC, mas também como pessoa que participa de um momento histórico no qual o uso de IPCs tem adquirido maior visibilidade. Dessa forma, segundo o autor, o campo não é o local que circunscreve o estudo, e sim o contexto que engloba a prática das IPC em nossa sociedade.